09 de julho de 2026
Articulistas

Salvos pela...

Ismar Pereira
| Tempo de leitura: 2 min

Aquele era um dos dias mais felizes da sua vida: iria realizar um sonho acalentado há anos. Não, não era conhecer Paris, Roma ou Londres. Nem Nova York, Las Vegas ou Miami. O seu sonho era modesto, insignificante para muitos, mas muito importante para ela: conhecer a cidade de São Paulo. O marido era motorista de uma fábrica da nossa região e toda semana ia à Capital fazer entregas. Entretanto, os filhos pequenos, a saúde precária da sua velha mãe e os afazeres domésticos acabaram inviabilizando a sua viagem. Agora, ali estava ela, ao lado do marido, num dia que certamente ficaria marcado para sempre na sua vida.

Depois de horas que nem demoraram para passar, ainda na periferia de São Paulo, ela já estava deslumbrada com tudo o que via. No início de uma ladeira o sinal fechou, obrigando o motorista a parar o caminhão. Nesse momento alguém bateu no vidro da cabina, ao lado da mulher. Era um assaltante exibindo uma ameaçadora submetralhadora.

Não houve outro jeito, a não ser permitir que o indesejável passageiro embarcasse. Com voz firme, o bandido ordenou que o motorista mudasse o itinerário e estacionasse em uma rua sem movimento. Sempre com a arma em punho, "mostrava logo o seu cartão de visitas": "Não quero machucar ninguém, mas vocês terão que fazer tudo que eu mandar. O que você está transportando?" Com a voz embargada pelo medo, a resposta foi tímida: "Farinha de mandioca". O assaltante não gostou do que ouvira e subiu o tom da conversa: "Eu não estou brincando e não trabalho sozinho. Olhe pelo retrovisor e verá um carro preto. Nele estão os meus comparsas. Vou levantar a lona e verificar o que está por baixo dela. Se você estiver mentindo, vamos sequestrar e matar a sua mulher". Trêmulo, o motorista confirmou o que afirmara antes. O bandido tirou o celular do bolso e fez uma ligação: "Chefe, é farinha de mandioca... Não, ele não está mentindo. Do jeito que está apavorado, já deve ter borrado a calça". Desligou e foi "curto e grosso": "Não procure a polícia. Esqueça o que aconteceu hoje. E se um dia você tirar o azar de cruzar comigo na sua, olhe para o chão. Se olhar para mim, você será um homem morto!" Desceu do caminhão e desapareceu, como se tivesse evaporado.

Apesar de liberado, o motorista permaneceu no local até que a adrenalina baixasse, as pernas parassem de tremer e ele tivesse condições de dirigir. Foi um sufoco, uma experiência terrível, que poderia ter terminado em tragédia. Para a sua mulher a data ficou marcada para sempre. Não como o dia do sonho realizado, mas como o dia do maior pesadelo da sua vida!

Nota: agora cabe a você, prezado leitor, completar o título desta história verídica. Mas ficou fácil demais: "Salvos pela... farinha de mandioca!". Que, além de saciar a fome de inúmeros brasileiros, ganhou mais uma utilidade: frustrar assaltos a caminhoneiros!

O autor é colaborador de "Opinião"