O papa Francisco disse que vivemos já a 3ª Guerra Mundial. São tantos conflitos em tantas partes do mundo, tantas ameaças de morte bárbara, como se não vivêssemos num mundo civilizado, que a sensação é justamente essa. Não são apenas ameaças de morte bárbara, mas fatos desgraçadamente confirmados. Vivemos a 3ª Guerra Mundial. E não sabemos como sobreviver no ambiente sufocante que se delineia para todos nós, de qualquer religião, de qualquer linha política, de qualquer etnia. É verdade que somos todos irmãos, mas condenados à morte. Neste mundo de informação globalizada não há como não viver cotidianamente este ambiente de tortura que é o ambiente da guerra.
Como reagir? Como sobreviver? A poesia não é uma solução, mas é um modo de respirar neste mundo asfixiante. Uma das boas definições de Schiller é que "a poesia é uma forma que respira". Qual é a forma do mundo de hoje? Qual é a concepção aceitável desse ser chamado homem? O que é a política? O que é a arte? O que é a religião? Tem sentido haver religiões no mundo de hoje, com tantas guerras em nome de Deus, como sempre, aliás? Por um lado a problemática do mal, eterna como Deus, por outro a condição humana e sua miséria.
É inocência considerar a poesia como uma solução. Não é um mínimo lenitivo. Mas continua sendo necessária. É a luz que temos para iluminar as trevas. É o ar que temos para respirar. É a abertura espiritual para nos dizer que é possível viver. A poesia é uma gota d?água no deserto, que todos sabem que não resolve nada, mas quem está morrendo de sede no deserto conhece a importância dessa gota d?água.
No final do Festival Internacional de Poesia de Havana, em 2007, alguns poetas que participavam do evento resolveram criar o Festival Internacional de Poesia "Palabra en el Mundo", com o objetivo de realizar leituras de poesia simultâneas em vários pontos ao redor do mundo. Hoje o Festival "Palabra en el Mundo" se apresenta como uma proposta do Projeto Cultural SUR Internacional, da Revista Isla Negra e do Festival Internacional de Poesia de Havana.
Estamos na 9º edição do Festival, com leituras de poesia realizadas em todas as partes do mundo, em muitos países e em muitas línguas ? em países e em línguas que nem pensávamos que existiam. Em Bauru, por iniciativa de Eric Schmidt, o grupo Expressão Poética participou no ano passado com grande sucesso no Exílio Art Pub. Este ano volta com intenção redobrada, programando eventos no mesmo Exílio, no bar Divino Sabor, nas escolas Ernesto Monte e Aníbal di Francia. Além da participação da Academia Bauruense de Letras, que vai dedicar a sua sessão de maio ao "Palabra en el Mundo".
Os eventos consistem em leituras ou declamações de poesia, não necessariamente sobre a paz, mas para a paz. A poesia é uma forma de transcender a pobre realidade em que vivemos. Nessa transcendência se esquece a violência e vive-se a paz. O bonito é saber que na mesma época, de 11 a 24 de maio de 2015, em lugares tão diferentes do mundo inteiro, fala-se poesia para a paz.
Sonhamos que a paz é possível. Movemos um grão de areia do deserto, um pedrisco da montanha, para mover a montanha, para mudar o deserto. A poesia é como a fé, capaz de fertilizar desertos e remover montanhas, ou de tornar mais fácil conviver com eles.
José Carlos Brandão