O governo federal deve confirmar oficialmente neste quinta-feira (21) o fim do embargo chinês à carne brasileira. A medida, que já vinha sendo discutida há alguns meses põe fim à restrição que já durava quase três anos. E o fato deve ter reflexo - mesmo que pequenos - em Bauru.
Em dezembro de 2012, após suspeita não confirmada de registro da doença da vaca louca no Paraná, o governo chinês suspendeu a compra de carne bovina do Brasil.
O embargo comercial havia sido retirado oficialmente em novembro do ano passado, mas, para exportar, os produtores de carne brasileiros ainda necessitavam de uma habilitação concedida pelo governo chinês, o que foi viabilizado com a assinatura de protocolo sanitários entre os dois países nos últimos dias.
A notícia da possibilidade de expansão da atividade dos frigoríficos para um dos maiores mercados do mundo foi recebida com certo receio pelo Sindicato Rural de Bauru, que avaliou a liberação como uma decisão política que deve ampliar a demanda, mas como consequência diminuir a oferta e deixar a carne ainda mais cara aos consumidores de Bauru, assim como de todo o País.
Cenário
Presidente do Sindicato Rural de Bauru, Maurício Lima Verde lembra que, embora a maioria dos pecuaristas e frigoríficos de Bauru e da região não tenham o mercado externo como foco, a medida deve impactar no preço do boi gordo.
“Nos últimos dois anos, a arroba do boi gordo subiu 250%. E isso foi provocado principalmente pela falta de boi no Brasil. Com a abertura de mais um mercado, a oferta vai diminuir e a tendência é de os preços aumentarem ainda mais”, avalia Lima Verde, que também é presidente da Comissão de Relações Exteriores da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp).
A escassez de boi gordo, segundo ele, ocorre há cerca de uma década depois que os pecuaristas passaram a destinar fêmeas a 70% dos abates realizados. “Agora, a fonte secou e o preço dos bezerros está alto demais. Muitos pecuaristas não têm capital para investir e vários frigoríficos já quebraram. Não está na hora de exportar, isso foi uma estratégia do governo para chamar a atenção. É ilusão achar que essa medida vai melhorar algo, pelo contrário”, reforça Lima Verde.
Por outro lado, ele lembra que o Brasil já é exportador de carne bovina para outros países, atividade que resulta em faturamento de R$ 16 bilhões ao ano. A expectativa é de que a demanda inicial da China seja de até R$ 500 milhões.
Região
A região de Bauru possui cerca de 900 pecuaristas, segundo o Sindicato Rural. Destes, menos 30 teriam mais de 100 cabeças de gado e atuariam em parceria com frigoríficos.
“A terra no Estado de São Paulo é uma das mais caras. Um alqueire está valendo mais de R$ 50 mil. Isso também tem inviabilizado a atividade”, ilustra Lima Verde.
Fato que, inclusive, teria motivado a aposta de parte dos produtores, nos últimos anos, em outras culturas mais simples, como a cana de açúcar e o eucalipto, por exemplo.
Em conversa com a reportagem, um pecuarista de Bauru, que pediu para não ser identificado, e que atua há mais de 50 anos no ramo, reforça o fato de que o preço bom da carne lá fora pode gerar falta interna do produto. Contudo, ele vê impactos pequenos. “Estamos entrando na estação seca, então já existe certa carência. Mas se houver algum impacto por conta das exportações, acredito que o reajuste será pouco e demorará a chegar ao consumidor final”, fecha questão.
Atualmente, a arroba do boi gordo é comercializada a um preço médio de R$ 153,00.
Em detalhes
A liberação do embargo, no entanto, surge como uma espécie de criação de demanda para a carne brasileira e teria como intuito fortalecer o mercado interno, segundo discurso do governo.
Até a última terça-feira, oito frigoríficos do País já haviam conseguido liberação para exportar para China e outros nove seguiam na “fila” de espera, conforme revelou a presidente Dilma Rousseff.
Atualmente, o Brasil exporta carne para a China por intermédio de Hong Kong, o que encarece e limita o volume embarcado. Com liberação, a tendência é de que as exportações fiquem mais baratas e que o volume exportado seja maior.