09 de julho de 2026
Articulistas

Eco da tolerância

Nélson Itaberá Gonçalves
| Tempo de leitura: 3 min

A palavra "exceção" remete a significados além do político, do sociológico e do espectro histórico. De outro lado, no âmbito da semântica, propriamente do dicionário, empresto aqui a expressão para conversar, sugerir, sobre seu uso no sentido de "algo fora do contexto". O faço, evidentemente, de maneira provocativa propositiva! Até por princípio de comportamento e, quiçá, linguístico.

Venho exercitando, via facebook, uma sondagem sobre o que chamo de "bestialização do jogo dos contrários no imaginário popular"... Há em curso, sem delongas, uma repetição, por parte da sociedade, da ideia idiota do "taca lhe pau" toda vez que, neste momento de crise política, alguém levanta uma ideia, comentário ou afirmativa em relação a fato ou personagem, de conteúdo pró ou contra, do meio governista ou de oposição.

Como diria o professor Benedito lá no Primário do Ginásio em Itaberá: - Gente, pelo amor de Deus!! Essa estratégia está sendo bem elaborada por asseclas das duas correntes, servindo de bode expiatório para outros objetivos, pouco nobres, e, para alguns, de tentativa usurpadora de confundir, melar mesmo a tentativa de discussão "sadia".

Apelo para o senso de nos permitirmos não cair nessa armadilha. Invocar o direito de divergir nos custou tanto que resta absurdo concordar com esse empréstimo gratuito, em maior porção difundido em meios digitais, da ?bestialização? de discussões baseado no: "isso é coisa de petista de piquete... isso é coisa de tucano.. isso é de sindicalista de piquete, aquilo é de burocrata de gravata.... ou blá blá blá".

Há uma intolerância desmedida enfiada nessas querelas comportamentais em relação ao direito do outro não gostar de algo. E, nesse frenesi de ignorância, sobram comentários grosseiros, desprovidos do mínimo de equilíbrio e educação.

O pior é que um número significativo de cidadãos, muitos de conteúdo intelectual e inteligência respeitáveis inclusive, caindo, me desculpe, como patinhos nessa estorinha. Engolem com enorme facilidade a vala comum da grita pela grita, da repetição pelo divisionismo aculturado, ou da falta de reflexão no caminho da autocrítica do pensamento livre, ainda que do intrínseco, do "eu" de cada um.

Portanto, por isso, em razão da bestialização da ofensa ao outro baseado na divergência sem causa nobre, retomo, em escrita, a "campanha pelo direito à crítica", ao contraditório, ainda que algum interlocutor desavisado proclame uma barbaridade ou outra por desconhecimento, alienação ou qualquer outro ?vírus contemporâneo? enraizado em alguma cepa de manipulação, ou qualquer outra ?coisa? que o valha.

Em curso a campanha pelo direito do outro reclamar, criticar e o dever de cada um de ouvir sem divisionismo ou ataque barato, sem xingamentos, sem histeria, sem escrever com o fígado. Com uma pequena dose de resiliência cidadã se vai ao longe.

Ora bolas! Deus salve os ignorantes, porque eles não sabem o que fazem... mas que, em ?misericórdia cidadã? estes, inclusive, recebam o abraço fraternal em nome do direito à fala sadia. Ode à intolerância "ao que não gosto". Isso está virando mania, porque ódio gratuito já o é para alguns.

Indagar para esse povo é blasfêmia e divergir do outro é pecado... Dividir é, em suma, o que os nada imbecis lá de cima querem. Estão rindo de nossas caras em seus gabinetes. E isso explica, em parte, o fundamentalismo em crescimento no Congresso, assim como o esfacelamento da convivência cidadã nas ruas. Mas isso é outro capítulo de nossa comédia da vida privada.

O autor é jornalista da TV Câmara Bauru, do Jornal da Cidade e compositor