10 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Giz nas ruas escrevendo a história


| Tempo de leitura: 4 min

A cada ação realizada é necessária a avaliação. E como toda ação tem uma reação, é imprescindível avaliarmos o processo e os objetivos alcançados. Na iminência das perdas de direitos, os servidores se mobilizaram. Primeiro de março é data base da categoria. Data para discutir os reajustes salariais. Ainda não sabemos exatamente o que houve com o dinheiro do município, o que sabemos, e ficou muito claro durante este período de lutas, é que Bauru não tem dinheiro. Com a mobilização e orientação do Sinserm (Sindicato dos Servidores Municipais), os servidores, mobilizados, foram à luta e a primeira conquista foi a não retirada do chamado Vale Compras.

De início ficamos desconfiados da atuação do sindicato. Grevistas de primeira viagem são assim mesmo, as dúvidas são muitas. Os termos utilizados são bem específicos e os procedimentos de uma assembleia é novidade. É como o primeiro dia de aula da vida de uma criança. Houve uma assembleia em que surgiram dúvidas sobre o termo abstenção. Enfim, só tínhamos uma certeza: da necessidade de garantir nossos direitos. E nesse caso não poderia ser uma atividade representativa. O sindicato não tem o poder de adivinhar o que as pessoas pensam.


Não era possível representar seu colega. Cada um tinha o dever de se representar. De buscar o seu direito. Não tínhamos grandes pretensões quanto às reivindicações, só pedíamos o cumprimento da lei: o reajuste com base nos índices da inflação do período. Embora absurdo, esta era a real: pedir que se cumpra a lei. Nesse momento aconteceu o inesperado e se o prefeito soubesse da consequência dessa sua medida, nunca na vida teria sequer cogitado a ideia de uniformizar uma determinada categoria de servidor. Esse seu ato pode ter sido sua ruína. Uniformizados nos identificamos. Identificados conversamos. Conversando chegamos ao consenso de que juntos somos mais.

Naquele momento havia uma boa adesão dos servidores ao movimento, mas as pessoas se cansaram rápido. Tínhamos compromissos a cumprir com os munícipes. Além do mais, greve é desgastante, é dolorosa. Passa-se fome, sede e vontade de ir ao banheiro. A ansiedade não permite que se cumpra sua rotina. Dói o pé e as costas, por ficar em pé por horas negociando sem saber com quem (já que nunca se sabe quando o prefeito vai estar presente). Nesta angústia, perdemos para o cansaço. A estratégia da administração foi mais eficiente. Reunimos-nos para dar "um voto de confiança" ao prefeito. Doce ilusão! O prazo se findou e o gestor do município nem apareceu nas reuniões que foram agendadas. Mas nós, servidores, precisávamos cumprir com o combinado. Havíamos dito que voltaríamos para greve se nada fosse melhorado nas propostas. Então, a greve foi retomada em uma votação apertada de uma assembleia esvaziada. E, como se diz, "A assembleia é soberana"!

É sabido que as decisões da assembleia devem ser acatadas pela categoria, até mesmo por aqueles que não estavam presentes. Esta é a parte mais difícil. Não se pode decidir pelo outro, mas o outro havia combinado que voltaria para greve, caso houvesse necessidade.
E agora? A situação estava instalada e não era possível voltar atrás. A estratégia do prefeito estava clara: dividir para governar. As medidas tomadas dividiram os servidores. As pessoas passaram a se agredir. A voz que ecoava clamava por justiça, contudo, nem sempre as atitudes eram justas. Nesse momento a adesão ao movimento minguou. Alguns acharam desnecessário, outros se acomodaram, houve aqueles que ficaram aguardando para serem representados. O medo, a insegurança e até sentimentos sem explicação tomaram conta. Mas muitos voltaram para as ruas e é no chão da rua que esses escreveram mais uma página da história de Bauru.

Foram 4 dias. Quatro dias de sol, chuva, frio, medo, angústia, risos, incertezas, gritos de guerra, marmitex, caminhadas. Afundamos o chão do centro da cidade em busca de ouvidos para nos ouvir. Em busca da adesão. Em busca do apoio da população. Fomos economistas e estrategistas, protagonistas de um capítulo importante.

As propostas iam e vinham. As contas não fechavam. Ainda não entendemos onde foi parar o dinheiro do município. Até a Secretaria da Educação se manifestou na tentativa de findar o movimento, porém, a proposta oferecida só contemplava os professores. E nas ruas não havia apenas professores, ali éramos todos servidores. Nesse momento, o pacote "qualidade de vida" foi devolvido. Não podíamos perder o foco! No final desse capítulo, as conquistas em termos econômicos nem foram tão significativas. Grosso modo, nos restaram R$ 85,00. E o que se compra com esse valor? Quase nada! Mas acumulamos muito: amizades, cumplicidade, compreensão, articulação, união, visibilidade, confiança, confraternização, organização, amadurecimento, transparência!

A greve acabou e os rumos do funcionalismo público municipal agora são outros, principalmente no que diz respeito à educação municipal. É o que espero. Afinal, somos professores com amor e não por amor! O pacote da educação? Ele voltou. E temos muito que discutir, pôr e tirar! Mas essas são cenas dos próximos capítulos.

Maria Raquel Carneiro