09 de julho de 2026
Articulistas

Entre o colapso e a regeneração

Paulo Cesar razuk
| Tempo de leitura: 3 min

Vindas do Oriente Médio e do Norte da África, milhares de pessoas invadem a Europa em decorrência de sangrentos conflitos e da pobreza agravada pelo aquecimento global. Apesar de vários países fecharem suas fronteiras, diversos estudos preveem o agravamento desse fenômeno. No curto prazo, gigantescas ondas de refugiados e nômades ambientais lutarão por espaço, trabalho e comida longe de suas culturas e terras natais.

Uma recente publicação da agência da ONU para drogas e crimes (a UNODC) confirmou o aumento do poder e da violência do crime organizado bem como a constrangedora confissão de que nossa sociedade perde a luta contra as drogas e a violência. O mito de que o Brasil não sofria catástrofes naturais morre diante de nossos olhos. Será enterrado no crescente cemitério de mitos, onde jaz a crença de que a Amazônia é grande e exuberante demais para ser realmente ameaçada.

Estes são apenas três exemplos para ilustrar as grandes tragédias e dramas desta época e que não passam de exteriorizações de um mundo doente e da humanidade enferma que o habita. Quando olho para as três últimas décadas e vejo as mudanças que ocorreram, não seria exagero afirmar que o mundo que conheci quando jovem está ruindo, esfacelando-se à vista de todos. Não seria exagero afirmar, também, que estamos entrando na era da solidão, caracterizada pela extinção da biodiversidade e pelo gradativo isolamento da espécie humana.

As pessoas acordam todos os dias preocupadas com as exigências do trabalho, da família, da saúde e do lazer. São muitas exigências e pouco tempo. A cultura individualista e o modelo materialista fazem com que foquemos nosso tempo e energia no interesse próprio e imediatista. O moderno de hoje é o obsoleto de amanhã. O tempo de uma vida ? embora tenha se estendido a cada década ? já não é suficiente para abrigar as experiências disponíveis. O mundo funciona sem interrupção ou pausa, freneticamente, agitado e turbulento como uma imensa e tumultuada colmeia. Estes são os principais motivos do fenômeno contemporâneo da indiferença.

Com isso não conseguimos perceber a combinação do agravamento do efeito estufa com desastres climáticos e a escassez de recursos. Vivemos as dores do parto enquanto a vida segue nos seus clássicos três atos: ouvimos a crítica de especialistas, a promessa das autoridades e o choro das vítimas.

As megacidades crescem em proporção a seus megaproblemas. É claro que existem iniciativas elogiáveis: a cidade de Masdar chama a atenção, pois, encravada no meio de um deserto, desdobramento de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, pode se tornar a primeira cidade totalmente ecológica do planeta. Outro exemplo é a cidade de Dongtan, na China, projetada para se tornar modelo de cidade sustentável. Algumas outras merecem destaque pela cultura de seu povo e pelo investimento de seus governantes: Reykjavik (Islândia); Malmö (Suécia); Vancouver (Canadá); Copenhague (Dinamarca).

Seria, portanto, irônico, se não fosse trágico, que no auge de nossa avançada civilização tenhamos voltado a temer a natureza tal como nossos mais distantes ancestrais e, pior que isso, que possamos ? por negligência ? voltar a ter comportamentos bárbaros e primitivos para sobreviver. Nossas decisões e comportamentos hoje, serão decisivos no futuro. Cabe a nós fazermos a diferença e evitar o pior.

Seja como for, a Terra irá prevalecer; com o tempo vai se recuperar: os lagos, rios e mares voltarão a ser puros, as florestas vão ressurgir, tudo voltará a ficar verde. Pode não haver pessoas, mas a Terra vai se recuperar. Sabe por quê? Porque a Terra tem todo o tempo do mundo e nós, não.

O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp Bauru