09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O Rosto da Misericórdia: denúncia, anúncio e vivência


| Tempo de leitura: 4 min

Na primeira leitura do terceiro domingo da Páscoa (cf At 3,13-15.17-19), Pedro, o mesmo que negou Jesus, encorajado pela fé no Cristo Ressuscitado, dirigiu-se ao povo judeu fazendo uma contundente acusação e denúncia: aqueles que vocês rejeitaram e mataram está vivo. Porém, Pedro não parou na acusação, como infelizmente tantas vezes fazemos. Em seguida, o apóstolo propôs um caminho, indicou uma luz: arrependam-se, convertam-se e seus pecados serão perdoados. Temos nesse texto um indicativo de como deve ser a atitude cristã, sobretudo em tempos de crise e tensões. O cristão, discípulo do Mestre Jesus, deve ter sempre uma atitude profética diante da vida e dos fatos, por meio de três expressões conexas: denúncia, anúncio e vivência. Como é difícil integrá-las em nosso agir! Não podemos ficar apenas na denúncia o que seria mais fácil. Porém, anunciar o bem e a misericórdia de Deus sem denunciar o mal ou o erro seria uma atitude incompleta. Por outro lado, denunciar e anunciar, sem a vivência e coerência de vida seria hipocrisia. Por essa razão, a denúncia, anúncio e vivência do que se anuncia são atitudes inseparáveis, que dão credibilidade ao nosso agir e falar. Coerência total não existe, por conta de nossas fragilidades. Contudo, podemos sim nos aproximar cada vez mais da coerência para que tenhamos a autoridade necessária para falar e propor. Podemos aprender com Pedro, a maneira correta de intervir e interagir com as grandes questões que estão na ordem do dia.

Conectado ao tema acima, o Papa Francisco lançou justamente no domingo da Divina Misericórdia (segundo domingo da Páscoa) a Bula de proclamação do "Jubileu extraordinário da Misericórdia", com início em 8 de dezembro do corrente ano. A misericórdia é um tema recorrente nas catequeses do Papa e na pregação da Igreja. De fato, todos nós sabemos que o nosso Deus é misericordioso, contudo temos dificuldade de pedir ou dar o perdão ao semelhante. Outra dificuldade é perdoar-se. Há pessoas marcadas por profundas feridas geradas por ofensas recebidas ou praticadas. O perdão é o remédio principal para a cicatrização das feridas. Diz o papa em sua Bula: "a misericórdia será sempre maior do que qualquer pecado, e ninguém pode colocar um limite ao amor de Deus que perdoa" (n.3).

É claro que a misericórdia não dispensa a justiça (cf. n.20), a punição e a reparação do dano cometido. Afinal, misericórdia sem justiça pode gerar impunidade ou paternalismo. Por outro lado, justiça sem misericórdia não contribui para a restauração e conversão do pecador ou criminoso. Significativo é constatar que em sua Bula o Papa Francisco faz referência a duas expressões atuais de pecado: criminalidade (violência) e corrupção. Diz Ele: "que a palavra do perdão possa chegar a todos e a chamada para experimentar a misericórdia não deixe ninguém indiferente. O meu convite à conversão dirigi-se, com insistência ainda maior, àquelas pessoas que estão longe da Graça de Deus pela sua conduta de vida. Penso de modo particular nas pessoas que pertencem a um grupo criminoso. O mesmo convite chegue também às pessoas defensoras e cúmplices da corrupção. Esta praga apodrecida da sociedade é um pecado grave que brada aos céus, porque mina as próprias bases da vida pessoal e social. A corrupção impede de olhar para o futuro com esperança, destrói o projeto dos fracos e esmaga os mais pobres" (n.19).

Infelizmente, como constata o Papa, a criminalidade e corrupção são males difusos em maior ou menor proporção no mundo todo. O texto é extremamente atual, sobretudo para nós, brasileiros, que queremos erradicar o mal secular da corrupção, uma situação persistente em nossa amada Pátria. Assim se dirige o Papa aos criminosos e corruptos: "Esse é o momento favorável para mudar de vida! Este é o tempo de se deixar tocar o coração. Deus não se cansa de estender a mão. Basta acolher o convite à conversão e submeter-se à justiça, enquanto a Igreja oferece a misericórdia" (n.19). Cabe recordar que todos nós estamos no processo de conversão, pois pecadores todos somos. Voltemos o nosso olhar para o rosto misericordioso de Deus no qual encontraremos misericórdia e seremos capacitados para a prática da mesma. Afinal, a paz verdadeira é filha tanto da justiça quanto do perdão. Penso que a atitude de Pedro e o texto do sucessor de Pedro, o Papa, podem orientar o nosso modo de ver, agir e sentir a realidade presente de maneira mais cristã e humana.

Luiz Antonio Lopes Ricci - pároco da Paróquia de São Cristóvão e diretor da Faculdade João Paulo II