Esta frase retrata em boa parte o que vem ocorrendo com as famílias, empresas e até mesmo com a gestão pública. O brasileiro, na média, gosta de adiar soluções estruturais para seus problemas. Uma simples tarefa, como elaborar um trabalho escolar, fica para última hora. Estudar para a prova um pouco a cada dia? Não, melhor virar a noite, na véspera do dia da prova. Nas empresas o relatório solicitado é executado a toque de caixa, no limite de tempo fixado. Os órgãos públicos então são aqueles consertam a fechadura depois da porta escancarada. Prazos fixados raramente são cumpridos.
Isso tem sido a tônica em muitos setores da sociedade. Analisemos, por exemplo, a gestão das finanças do lar. Quantos, quando há um primeiro sinal de que as contas não vão fechar, se antecipam, chamam a família, mudam hábitos, cortam gastos e buscam nova renda? O comportamento prático tem indicado que as pessoas esperam até o último fôlego financeiro para pensar em mudanças nesta área. Quando resolvem agir, as alternativas são poucas e mais onerosas.
No âmbito das empresas a coisa não é diferente. Em céu de brigadeiro as coisas normalmente correm soltas. Quando as vendas caem, os custos se elevam, há um hiato entre o fato e constatação que algo diferente deve ser feito, o que, muitas vezes, leva ao indesejado desequilíbrio financeiro. Buscar recursos em bancos passa ser prática comum, um refúgio que acomoda. Se aos primeiros sinais de dificuldades a empresa tivesse agido na direção certa, as consequências financeiras seriam menores.
No âmbito do setor público a coisa é mais grave ainda. Observem o esforço atual para ajustar as contas públicas. Há anos o governo central sabia que uma hora não haveria mais condições de conduzir a economia com a gastança vigente. Precisou inclusive, na virada do ano, costurar uma verdadeira engenharia financeira para fechar as contas públicas, coisa que ainda não digerida pelos órgãos de fiscalização instituídos, podendo, inclusive, levar a mover ação de crime de responsabilidade a presidente Dilma Rousseff e àqueles que ajudaram a driblar a lei naquele momento.
Outros exemplos estão em nosso cotidiano: não foram efetuados investimentos para garantir o abastecimento de água, e agora pagamos um preço elevado. Não investimos em geração de energia, e vejam o caos no setor. Tudo isso acaba "cansando" à medida que vira um ciclo vicioso. Somos o país do curto prazo. Leis são alteradas, não porque a sociedade discutiu e concluiu que é importante, mas sim fruto da pressão da mídia por algum fato pontual que tomou vulto.
Se efetivamente queremos qualidade de vida, a mudança de postura tem que ser em todos os níveis: em casa, no trabalho e na cobrança do gestor público. Adiar decisões importantes eleva o estresse, aumenta o custo e gera desconforto. Lembre-se que cada um de nós é o que é, hoje, fruto de decisões ou escolhas (ou não escolhas) do passado. Se queremos algo melhor no futuro, o momento de agir é agora. Temos que parar de adiar o inadiável.
O autor é economista e articulista do JC