O endividamento da população e a baixa rentabilidade da caderneta de poupança fizeram com que esta modalidade de aplicação registrasse o pior desempenho dos últimos sete anos em Bauru. No período, é a primeira vez em que o volume de saques nas instituições bancárias supera o de depósitos, segundo dados do Banco Central. No País, é o quinto mês seguido que a poupança tem baixa (leia mais na página 16).
Em fevereiro deste ano, o valor acumulado na cidade era de 1,645 bilhão, apenas 4,4% a mais do que o contabilizado no mesmo mês de 2014, quando o saldo somava 1,575 bilhão. O aumento não correspondeu a nem mesmo o rendimento anual da poupança, que está em pouco menos de 7%.
Na prática, o crescimento inferior a este patamar revela que mais pessoas sacaram do que depositaram em caderneta em 12 meses, algo que não ocorria desde 2008. O movimento, contudo, não foi tão intenso quanto o da média brasileira, em que os resultados são considerados os piores dos últimos 20 anos.
Para o economista Reinaldo Cafeo, uma boa parcela da população de Bauru tem perfil mais conservador e, por este motivo, teme colocar suas reservas financeiras em risco.
“Elas optam por não investir em outras modalidades e também por não sacar dinheiro da poupança para pagar suas contas. Preferem fazer o sacrifício que for necessário no orçamento, mas não sacam, porque não veem a poupança como complemento de renda”, observa.
Especialistas, contudo, analisam que a redução no ritmo de crescimento do estoque da caderneta está intimamente atrelada ao endividamento da população e ao aumento da inflação, tese com a qual Cafeo também concorda. “Muitas pessoas contraíram dívidas de longo prazo e o custo de vida está aumentando. A conta já não está fechando. Embora exista esse perfil mais conservador, a primeira coisa que maioria da população faz é parar de guardar dinheiro na poupança. A segunda é sacar a reserva depositada”, pondera.
Sem atratividade
Um outro agravante foi a perda de atratividade da caderneta como investimento, devido aos juros básicos mais altos. Pela regra atual, em vigor desde agosto de 2013, quando a taxa Selic está maior que 8,5% ao ano, a poupança rende 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial (TR).
Quando os juros básicos da economia estão iguais ou inferiores a 8,5% ao ano, a caderneta rende 70% da taxa Selic mais a TR. Atualmente, a taxa básica está em 13,25% ao ano. “Com esta regra, a poupança, hoje, não está sequer repondo a inflação. Ou seja, quem aplica em poupança está, na prática, perdendo dinheiro”, frisa Cafeo.
Ele destaca que o universo de pessoas que migraram para outras aplicações mais rentáveis e praticamente tão seguras quanto a caderneta – como a Letra de Crédito Imobiliário (LCI) e a Letra de Crédito do Agronegócio (LCA) – ainda é pequeno, mas tende a deter maiores quantias em dinheiro. “E há muitas pessoas que, em vez de ter poupança, optam pela previdência privada. Quanto mais orientação financeira elas têm, maiores as chances de migrarem para outras modalidades, que estão pagando melhor com o aumento da Selic”, detalha.
Boato
O boato que correu em redes sociais sobre a possibilidade de confisco dos depósitos de caderneta de poupança e aplicações financeiras também pode ter contribuído para o quadro. As informações infundadas deixaram em alerta o Ministério da Justiça, que determinou à Polícia Federal a investigação sobre a origem das mensagens. “Esse alarde pode ter enganado algumas pessoas, mas é importante ressaltar que é algo totalmente sem procedência. Confisco de poupança foi um dos maiores fiascos da economia brasileira (em 1990, pelo então presidente Fernando Collor) e, com a força das redes sociais, seria motivo para derrubar facilmente o governo atual”, destaca o economista Reinaldo Cafeo.
Quais aplicações são mais recomendadas hoje?
Especialistas alertam para a baixa atratividade da caderneta de poupança – abaixo da inflação atualmente, mas recomendam cautela aos pequenos investidores, que devem optar por aplicações financeiras mais conservadoras, com rentabilidade pós-fixada.
Entre as boas opções, estão a LCI, a LCA e as Letras Financeiras do Tesouro (LFT). “Esta última é uma aplicação simples e barata, que pode ser feita a partir de cerca de R$ 300,00”, observa o corretor da Bolsa de Valores Leandro dos Santos Rosa.
A grande vantagem é que estes títulos do governo acompanham a variação da taxa Selic, que está, hoje, em 13,25% ao ano. Sobre este investimento, no entanto, há incidência de Imposto de Renda (IR) e, se adquirido por meio de corretores de valores, também de taxa de administração, que gira em torno de 0,3% ao ano sobre valor dos papéis.
As LFTs, no entanto, também podem ser compradas diretamente do site do Tesouro Direto. “Hoje, elas são a melhor associação entre rentabilidade e segurança. O País precisaria quebrar para o investidor correr o risco de perdê-las”, completa. Ainda de acordo com Rosa, as Letras do Tesouro Nacional (LTNs), prefixadas, também tendem a ser uma opção diante da perspectiva do fim das altas da Selic.
Assim como as LFTs, as LCIs e LCAs – títulos emitidos por bancos com lastro em empréstimos ao setor imobiliário ou do agronegócio - também são papéis com rentabilidade pós-fixada. A diferença é que estas remuneram um percentual do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), com a vantagem de serem isentas de IR. São mais indicadas para quem pode investir a partir de R$ 50 mil.
“Se você aplica R$ 1 mil, o banco poderá oferecer rentabilidade de 70% do CDI, algo muito próximo da caderneta de poupança. Mas, se aplica R$ 50 mil, dependendo da instituição financeira e do prazo de carência, poderá receber até 100% do CDI, uma boa vantagem”, afirma Cafeo.