08 de julho de 2026
Articulistas

Título de cidadão

Alfredo Enéias Gonçalves d?Abril
| Tempo de leitura: 2 min

Leitor do JC defende a escolha da pessoa a ser contemplada com o título de Cidadão Bauruense por critério mais refinado, evitando o risco que algum defeito de caráter do escolhido venha ensejar a retirada do título. Sem mencionar o nome da pessoa que deu azo à sua observação, o leitor deixa subentendido que na fase precedente a outorga da honraria ao indicado ao título, sua vida deveria ser vasculhada nos âmbitos moral e ético, investigação que reduziria o perigo do erro. A julgar pelo momento em que nosso país é assolado por intermináveis denúncias de falcatruas e roubalheiras das quais o povo toma conhecimento diariamente pelo noticiário, tudo indica que o leitor se referiu a José Hawilla, megaempresário do ramo esportivo.

Apelando pela utilidade da Wikipédia, notam-se que outras pessoas estiveram na Câmara Municipal para receber o título honorífico com toda pompa reclamada pelo cerimonial, a exemplo do ex-ministro de Estado Walfrido dos Mares Guia e do ex-presidente da Associação Hospitalar de Bauru, Joseph Saab. O razoável funcionamento de minha memória recorda da revogação do ato legislativo que concedeu ao engenheiro André Torrens, condutor da Emdurb nos anos 90, o título de cidadão bauruense. Bem depois de se tornarem cidadãos honoríficos, pelo abjeto fato de terem-se desviado da conduta funcional antes havida como modelo de seriedade e competência, os agraciados deixaram de justificar a distinção recebida e concomitantemente, o reconhecimento do Município como cidadãos de sua terra. Os títulos outorgados perderam o valor com a revogação da lei que os concederam, e, provavelmente, o mesmo destino estará reservado ao executivo do futebol, José Hawilla.

Problemas dessa natureza são causadores de inevitável perda da honraria não havendo meios de serem adredemente conhecidos, entretanto, é curial pontuar que os fatos comprometedores à integridade das pessoas contempladas com o título de cidadania sucederam depois da sua entrega, sem, contudo, desconsiderar a hipótese deles existirem anteriormente, mas neste caso, os cambalachos eram guardados em segredo como recurso básico dos malandros aparentando aquilo que não era ilaquearem pessoas de boa fé. Os fatos desabonadores dos então ilustres cidadãos mantiveram-se, muito bem guardados e distantes da previsibilidade dos vereadores, menos para eventuais sequazes participantes do engodo.

A ocorrência nos Estados Unidos com José Hawilla é boa mostra disso. Somente agora foi divulgada a notícia revelando a entrega ao fisco daquele país da importância milionária de R$ 473.000,00, embora parte do depósito tenha ocorrido em dezembro passado. O depósito do dinheiro sujo corresponde à nossa delação premiada e serviu com alforria para continuar sua vida em liberdade. O assunto comportando suborno e pagamento de propinas ficou sob a cobertura de sigilo, explodindo agora porque passou a ser investigado no Brasil em função dos problemas de corrupção envolvendo cartolas da Fifa e CBF.

O autor é professor universitário aposentado