10 de julho de 2026
Nacional

Pacote de concessões de R$ 198 bilhões é recebido com cautela pelo mercado

Por André Borges, João Villaverde, Lu Aiko Otta e Adriana Fernandes | AE
| Tempo de leitura: 4 min

Reuters

A presidenta destacou que a sua condução política é uma “fonte” e uma “ponte” de diálogo

Na tentativa de criar uma agenda econômica positiva e deixar para trás os efeitos traumáticos do ajuste fiscal, a presidente Dilma Rousseff lançou nesta terça-feira (9) seu novo pacote de concessões em rodovias, ferrovias, portos e aeroportos. A segunda fase do Programa de Investimento em Logística (PIL) soma R$ 198,4 bilhões em projetos e promessas. Dilma fez questão de pontuar que o anúncio não se reduz a um punhado de "grandes números e projetos ambiciosos", mas sim um planejamento com base em dados e ações concretas. Em parte.


Do total de investimentos previstos para os novos empreendimentos, pelo menos R$ 56,5 bilhões em projetos enfrentam uma grande dificuldade de se viabilizar. Paralelamente, os números vultuosos dos projetos carregam certa miragem quanto a seus efeitos práticos no cenário econômico. Mesmo os empreendimentos considerados mais viáveis terão efeito mínimo sobre a economia neste ano, como reconheceu o ministro da Fazenda, Joaquim Levy. A maior parte dos leilões está desenhada para ocorrer a partir de 2016. Muitos ainda dependem de estudos de viabilidade que  costumam levar de 6 meses a um ano para ficarem prontos.


No mercado, o anúncio foi recebido com cautela pelos empresários. Apesar de todos sinalizarem que o aceno feito pelo governo é positivo, falta explicar detalhes cruciais, como as taxas de retorno aos concessionários que serão definidas durante os estudos de viabilidade. A reação de investidores também foi conservadora: o valor das ações de várias empresas e concessionárias que podem assumir os empreendimentos caíram depois do anúncio.


O exemplo mais emblemático dos projetos considerados complexos e duvidosos pela iniciativa privada é a Ferrovia Bioceânica, que já chegou a ser chamada de Transcontinental ou ainda Transoceânica. Seja qual for o nome, o fato é que, até agora, somente o governo brasileiro e os chineses conseguiram enxergar a viabilidade de se construir uma estrada de ferro que ligue os litorais do Peru e do Brasil, com custo de nada menos que R$ 40 bilhões apenas em território brasileiro. Entre empresários, o empreendimento já é encarado como um novo "trem-bala", que nunca saiu do papel.


Outros dois empreendimentos destinados a melhorar as condições de escoamento da indústria e da agropecuária do Centro-Oeste competem entre si. Os produtores do Mato Grosso e a ministra da Agricultura, Katia Abreu, conseguiram convencer o governo de incluir no pacote um trecho de 1.140 km de ferrovia, para ligar Lucas do Rio Verde (MT) ao porto de Miritituba, no Pará.

Trata-se de um projeto caro, estimado em R$ 9,9 bilhões. Ocorre que, paralelamente, o governo também conta a concessão, ainda neste ano, da BR-163, estrada que corre praticamente ao lado do traçado dessa ferrovia. Os 976 km de extensão da BR-163 entre Sinop (MT) e Miritituba custariam outros R$ 6,6 bilhões. Um dos principais interlocutores do agronegócio, o senador Blairo Maggi (PR-MT) afirmou ao jornal "O Estado de S. Paulo" que fazer as duas concessões se mostra economicamente inviável.


Entre os empreendimentos com maior chance de sucesso, aeroportos e rodovias continuam a ser o destaque. Conforme antecipou o jornal na semana passada, estão previstos R$ 66,1 bilhões de investimentos em rodovias e R$ 8,5 bilhões em aeroportos, incluindo 7 aeroportos regionais.


Os terminais de Florianópolis (SC) e Fortaleza (CE) são os primeiros na fila, com previsão de ter seus leilões realizados nos primeiro trimestre de 2016. Em seguida, serão leiloados os aeroportos de Salvador (BA) e Porto Alegre (RS). No setor portuário, a previsão é conceder 20 terminais em portos do Pará e nove em Santos (SP).


No Palácio do Planalto, o esforço hoje era, literalmente, o de construir uma espécie de "agenda pós-ajuste fiscal", superando o tema que monopolizou a relação entre o governo, parlamentares, empresários e sindicalistas desde o início de janeiro. "Estamos aqui para lembrar que para nós o desenvolvimento significa emprego e investimento produtivo. Estamos numa progressiva virada de página", afirmou Dilma. "Nosso governo não é de 4 meses, mas de 4 anos".


Questionado sobre o ajuste fiscal conduzido pelo governo desde o início do ano, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, afirmou que "sem estabilidade macroeconômica, seria impossível dar esse passo que estamos dando hoje". O ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, disse ser "crucial" a recuperação dos investimentos e "a retomada da previsibilidade na economia brasileira".