10 de julho de 2026
Articulistas

Pacote de infraestrutura: ceticismo

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 2 min

Os agentes econômicos querem ver para crer, portanto, estão céticos em relação ao pacote de investimentos em infraestrutura anunciado pelo governo federal. Vale lembrar que são R$ 198,4 bilhões em concessões ao setor privado, dos quais R$ 66,1 serão investidos em rodovias, R$ 86,4 em ferrovias, R$ 37,4 portos e R$ 8,5 em aeroportos.
Evidentemente que não é preciso ser grande estudioso em economia para entender que uma das saídas para reverter o quadro recessivo por que passa o país é fomentar os investimentos, então por que o ceticismo? Primeiramente porque os investimentos anunciados dependem do apetite da iniciativa privada. O Partido dos Trabalhadores, que sempre foi contra as privatizações, se rende à triste realidade: o setor público não possui recursos para investir. Sem dinheiro, a expectativa é que o setor privado se sinta atraído por concessões.
Neste contexto, outros fatores remetem ao ceticismo. Em 2012 o governo da presidente Dilma já havia anunciado uma série de medidas na mesma direção da infraestrutura, o pouco ou quase nada avançou. Eram projetos em logística que sequer saíram do papel. E se perguntam: por que agora dariam certo? Outra questão relevante é o fato de muitos interessados nestas concessões estarem envolvidos no lava-jato da Petrobrás. Estão em apuros e sem espaço para pensar em novos investimentos. Também devemos considerar a baixa capacidade de investimentos de muitos outros grupos econômicos que amargam vários anos de baixo desempenho da economia nacional.
Outro aspecto a destacar é a questão ambiental, principalmente no caso investimentos em ferrovias, cujo volume é de R$ 86,4 bilhões. Muitos trechos previstos dependerão de análise de impacto ambiental e a legislação vigente tem sido um obstáculo, gerando lentidão nos licenciamentos. Em uma análise mais crítica, do volume total anunciado, menos de R$ 50 bilhões são aplicáveis no atual mandato da presidente Dilma, o restante sairá do papel depois de 2018.
Um olhar no lado cheio do copo, ao menos há um horizonte pela frente, que poderá atrair investidores ali na frente quando as taxas de retorno dos investimentos forem devidas. O certo mesmo é que o mercado espera que o processo do ajuste fiscal seja finalizado e o que os efeitos, notadamente na retomada confiança dos agentes econômicos, sejam sentidos na recuperação econômica, esta poderá até ser mais lenta, mas que seja de recuperação.
O ciclo vicioso deve ser substituto por um ciclo virtuoso permitindo que a roda gire e que o todo o potencial do país seja colocado em serviço da melhoria da qualidade de vida das pessoas, e isso passa necessariamente pela retomada do crescimento econômico. Ceticismo à parte, trabalhemos na recuperação da economia.

O autor é economista e articulista do JC