08 de julho de 2026
Articulistas

Pimenta perfumada

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 5 min

Tem dia para tudo. Para tudo e mais um pouco. Dia das mães, dos pais, dos namorados, da criança, da pátria, do trabalho, da bandeira... São datas que todos conhecemos e, de passagem, reconheçamos, justíssimas homenagens. Mas a coisa não para aí, vai além. Todo mundo tem o democrático direito de ser lembrado. Então a lista continua: dia do zelador, dos carecas, do tomate, do gordo, da mulata, do quilo, da anestesia geral, dos alcoólicos (só os recuperados) e até mesmo o dia do datilógrafo, embora ? penso eu - o homenageado não exista mais (ou existe?). E acreditem se quiserem, há ainda o dia dos incrédulos que, a confiar no Google, é o três de julho.
Com mais nove dias, doze de julho, como esquecê-lo? O romântico e eterno Dia dos Namorados. Alegria das floriculturas, dos shoppings, joalherias, bares, restaurantes, bombonerias, motéis, agências de turismo e, claro, alegria deles também, os namorados. Mas que namorados? Pergunta pertinente, sim senhor. Afinal se tem João com Maria, tem Maria com Maria e João com João. Sabendo disso, O Boticário, que nada tem de otário, jogou polêmica no ventilador, o que, aliás, é sempre bom pra faturar. Em vídeo publicitário, sugeriu que todos comprem os produtos da grife, convite que fez sem nenhuma restrição: homem presenteando mulher, mas também homem dando pra homem presente e, nessa linha do bem-me-quer, mulher (por que não?) presenteando mulher.
Tecnicamente bem feito, esse comercial já é de início criativo. Um toque de campainha e uma porta se abre em resposta, dando passagem ao amor ? ah, como vivemos todos esperando essa e tantas outras portas... É assim que o namorado chega agraciando a namorada, mas chega também o namorado presenteando o amado e, para que nenhuma dúvida fique, lá vem ela, a namorada, radiante, receber o mimo de tão festejada parceira. Pronto, o recado está dado: namorado é quem ama, pouco importa quem beija quem.
Não importa, uma ova! Uma verdadeira invasão do You Tube, já somando mais de um milhão de visualizações, abriu a disputa para ver se o vídeo ganhava mais "likes" ou "dislikes." Grupos conservadores se mobilizaram para protestar: "Um exagero, um desrespeito à moralidade vigente, mais um barra forçada em defesa dessa onda homossexual que alugou a mídia irresponsável, mais uma agressão à família. No mesmo tom, o pastor Silas Malafaia, foi logo dizendo que respeitava democraticamente a opinião dos seus opositores, mas, pela mesma razão, queria fazer valer o seu legítimo direito de expressão: "Eu quero conclamar, porque nós somos a maioria ? as pessoas de bem, que não concordam com essa promoção de homossexualismo através de propagandas de televisão, de revista ? para boicotarem os produtores dessas empresas, como agora o Boticário. Vai vender perfume para gay!"
Na mosca, o pastor acertou a profecia. O deputado Jean Wyllys (PSOL - RJ), gay assumido, disse que, embora esteja, no momento, sem namorado, pela loja já tinha passado para a garantia do presente: "Já comprei o ?Accordes?, de O Boticário, para o namorado que ainda não tenho, em resposta ao desamor dos homofóbicos que atacam a campanha publicitária". Para ele, a publicidade ajuda e muito na construção de um mundo, onde as pessoas sejam todas respeitadas e, livremente, possam se amar, nada importando a orientação sexual, a cor da pele, a classe social, a etnia, a religião... Nenhuma barreira, enfim, contra o amor.
O Boticário, dono da briga, teve que se explicar: "A proposta da campanha é abordar, com respeito e sensibilidade, a ressonância atual sobre as mais diferentes formas de amor..." O consagrado publicitário Washington Olivetto, da agência WMcCann, resgatando a teoria do sol e da peneira, entrou no debate: "Tudo o que existe na vida real deve ser retratado na publicidade. Acho que se trata de um trabalho bem cuidado e que toma uma postura. Mas hoje, com o politicamente correto, é quase impossível fazer nada sem ser alvo de reclamação." Quem faltava entrar na briga, também entrou. Diante das reclamações dos consumidores insatisfeitos com o namoro gay, o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) abriu um processo ético para avaliar a peça publicitária, num prazo médio de 45 dias. Por enquanto, o vídeo continua liberado.
Em tempo: O Boticário não está sozinho nessa tendência de avançar sinal. Surfam nessa mesma onda liberal, a Motorola, a Coca-Cola, a Apple e outras mais. E tem o bombom Sonho de Valsa que, em vídeo cujo lema é "Pense menos e ame mais", mostrou beijos entre idosos, homem branco e mulher negra, gestante e companheiro, cadeirante e companheira sentada no colo, tudo para dizer que, no fim da conta, o que conta é o prazer. A Gol também marcou o seu gol nesse jogo libertador. O vídeo mostra a importância da adoção de crianças, inclusive por casais homoafetivos, uma forma de diminuir distâncias, voar mais rápido em direção ao melhor destino.
Fico feliz por viver este momento. Nele, a liberdade de opinar, sagrado direito de todos. Nele, a bendita ousadia do passo à frente. E temos muito a caminhar... Peço licença ao bombom para arriscar a minha valsa: bendita pimenta, tudo para fazer pensar mais, viver mais, implicar menos e deixar o outro viver. Estamos, enfim, aprendendo a viver em harmonia com as diferenças. E isso é bom-bom, ou seja, muito bom.

O autor é professor de redação e membro
da Academia Bauruense de Letras - ABL