Ouso do cinto de segurança entre ocupantes de veículos automotores é lei e sua eficácia é estatisticamente e empiricamente comprovada. Mesmo assim, ainda há quem insista em negligenciar.
Somente nos primeiros quatro meses deste ano, 1.265 motoristas e passageiros foram flagrados em Bauru sem o dispositivo, resultando na aplicação de uma multa a cada duas horas na cidade somente por conta deste tipo de infração. Os dados são da Emdurb e incluem autuações aplicadas por agentes do Grupo de Operações de Trânsito (GOT) e pela Polícia Militar.
Do total de multas, 106 foram confeccionadas devido à ausência do cinto exclusivamente em passageiros, incluindo os ocupantes do banco traseiro de veículos. O número é 8% maior do que o registrado no primeiro quadrimestre do ano passado, quando foram registradas 98 autuações desta natureza.
Tanto a Emdurb quanto especialistas na área concordam que, a despeito da legislação vigente, ainda é difícil fazer com que as pessoas adotem a rotina de usar o dispositivo. “Permanece uma crença de que o cinto não é tão importante quando se está no banco traseiro, talvez por acharem que o banco da frente vai proteger em caso de acidente, diferentemente de quem está na frente, mais vulnerável ao para-brisas. Mas o risco de lesão é tão grande quanto”, comenta o gerente técnico de infrações da empresa, Gustavo Cardoso.
Para ele, os números só não são maiores porque, atualmente, quase todos os veículos são dotados de película nos vidros, o que dificulta a visualização da infração cometida por passageiros que estão no banco de trás, em veículos em movimento. “Além disso, hoje em dia carro é mais usado como meio de transporte individual. O número de veículos só com motorista é muito maior do que o de carros com muitos passageiros. Por isso, é natural que a quantidade de multas sobre condutores seja mais elevada”, pondera.
Sem efeito
Estudo recente do Ministério da Saúde, realizado em parceria com o IBGE, mostra que apenas 50,2% da população sempre usam o cinto quando estão no banco traseiro. Quando ocupam os bancos da frente, o percentual sobe para 79,4% (leia mais abaixo).
O uso do cinto passou a ser obrigatório dentro das cidades a partir da regulamentação do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), em 1998. Passados 17 anos, quase todos os motoristas e passageiros que estão no banco da frente se sentem mais protegidos pelo dispositivo.
O mesmo efeito, contudo, não se estendeu aos ocupantes dos bancos traseiros, conforme destaca o especialista em trânsito Archimedes Raia Junior, que é doutor em Engenharia de Transportes e diretor de Mobilidade da Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bauru (Assenag). “Trata-se de uma questão cultural, que acabou não sendo mudada muito em razão da falta de campanhas mais sistemáticas e contundentes. As pessoas precisam entender que, ao utilizar o cinto, também estão protegendo os demais ocupantes do veículo e prevenindo mortes”, considera.
Cinto atrás reduz em até 75% o risco de morte
Estudo realizado pela Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) comprovou que o cinto de segurança no banco da frente reduz o risco de morte em 45% e, no banco traseiro, em até 75%.
Segundo dados da Concessionária Auto Raposo Tavares (Cart), em uma colisão, mesmo que a velocidade seja baixa, quem está sentado no banco de trás é projetado para frente com um peso muitas vezes superior. Um adulto de 60 quilos numa batida a 50 quilômetros por hora, por exemplo, é arremessado para frente com peso equivalente a mais de uma tonelada.
“E isso aumenta o risco de letalidade não apenas do próprio passageiro, mas também para quem está no banco da frente. Há, inclusive, o risco de a pessoa ser jogada para fora do veículo”, completa o especialista em trânsito Archimedes Raia Junior.
No final de maio deste ano, o matemático norte-americano John Nash, retratado no premiado filme “Uma mente brilhante”, e sua esposa Alicia Nash faleceram em um acidente automobilístico no estado de Nova Jersey. Ambos ocupavam o banco traseiro de um táxi e foram lançados para fora do veículo porque, segundo a polícia, aparentemente não usavam cinto de segurança.
O estudo
O segundo volume da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada pelo Ministério da Saúde e IBGE, contempla dados coletados junto a cerca de 205 mil indivíduos com mais de 18 anos de idade, moradores de 64 mil domicílios de 1,6 mil municípios de todo o País. As entrevistas foram entre agosto de 2013 e fevereiro de 2014.
O estudo é considerado o mais completo inquérito de saúde do Brasil e traz dados inéditos sobre vários aspectos, entre eles, acidentes no trânsito, acesso aos serviços de saúde e violência. A pesquisa serve de base para que o Ministério da Saúde possa traçar suas políticas públicas.