Por fatores culturais, de ajuste de hábitos de comportamento, necessidade de adaptação à “logística de rotina” ou preferência, os brasileiros passaram, há tempos, a comer muito fora de casa, embora seja praticamente unanimidade que gostam da refeição à mesa do lar. Neste patamar, o segmento que está “esquentando a chapa” no mercado é o de franquias. Em 2014, o setor cresceu 7,7% e, neste ano, a projeção é de significativos 10%, dado muito animador para uma economia em reconhecida situação de retração.
Do ponto de vista setorial, conforme os dados da Associação Brasileira de Franquias de Alimentação (ABF), o mercado global de franchising faturou R$ 128 bilhões em 2014, sendo R$ 25,635 bilhões na área de alimentação, o equivalente a 20,15% da receita total.
Os resultados foram apresentados na última quarta-feira no 9.º Seminário Setorial de Food Service da ABF, realizado em São Paulo. Para os executivos deste mercado, o franchising vai bem e, em especial, o segmento de alimentação mostra consistência em momento de retração econômica. O levantamento foi realizado pela ECD Food Service.
Em 2014, o País já acumulava 124.705 unidades, com a abrangência de que se abre “duas franquias por hora no Brasil”. Conforme o mesmo relatório, a expectativa é de crescimento de 10% para o segmento em 2015. Em matéria de emprego, o setor alimentação é um dos que mais emprega entre as franquias.
As redes de food service registraram 158.034 postos de trabalho criados. O setor, integralmente, passou de 1 milhão de empregos diretos em 2014, quando o crescimento foi de 7,7%. Das 2.942 redes existentes no Brasil, 433 possuem modelo de microfranquias.
No seminário, os executivos destacaram que o food service é o setor âncora, fundamentalmente, por “perceber primeiro a mudança de comportamento do consumidor”. Percepção e preparo na condução do negócio fazem com que o segmento tenha reação rápida, aponta Cláudio Tieghi, diretor de Inteligência de Mercado, Relacionamento e Sustentabilidade da ABF.
Alguns subsegmentos na área de serviços em alimentação despontaram, mostra o estudo. A comida variada viu o crescimento saltar de 12% para 24% entre 2013 e 2014 e o ramo de pizzaria manteve a “alta performance”, de 22% para 23%.
Coordenador do Comitê de Alimentação da ABF, João Baptista Junior diz que o estudo setorial “reflete a maturidade das franquias de alimentação, que traduzem um novo conceito de alimentação fora e dentro do lar, envolvendo novos hábitos do brasileiro e questões como qualidade e saudabilidade no food service”.
Em essência, a ABF ressalta que se alimentar fora de casa é um hábito do consumidor brasileiro que cresce, cenário que está sendo acompanhado por quem está com a “mão na massa”. “A demanda é por alimentação mais saudável e a busca da referência da alimentação de casa”, pontuou Baptista.
Números da rede
O levantamento da ABF registrou uma expansão de 9,8% das unidades de franquia em operação no País. O número de pontos de venda das redes subiu para 125.641, o que representa a abertura de 11.232 unidades.
O franchising manteve também um baixo índice de fechamento de negócios. De acordo com o levantamento, a “mortalidade” de empresas no sistema de franquias foi de 3,7% em 2014. Este mesmo índice aos negócios “tradicionais”, segundo o Sebrae, é de 24,9% em dois anos. Apesar da concentração natural em centros de grande faturamento, como o Sudeste, as marcas estão se espalhando pelo País. O mesmo ocorre com a interiorização: há marcas em 2.108 municípios brasileiros.
Para diretor da ABF, plano de negócio ‘faz a diferença’
“O franchising é uma indústria resiliente, por dois fatores principais: a natureza colaborativa do sistema, que possibilita ganhos de escala, custos e troca de experiências, e nossa prática já consolidada de intenso treinamento, técnico e motivacional, que faz a diferença no dia a dia”. A avaliação é do diretor da Regional Interior da Associação Brasileira de Franchising (ABF), Filipe Sisson, ao comentar sobre a combinação entre crescimento consolidado e bons números do setor para este início de ano, mesmo diante do cenário econômico negativo. Leia sobre os principais pontos de sua avaliação:
Jornal da Cidade: Os números apresentados pela ABF confirmam consolidação do crescimento?
Filipe Sisson: Embora o cenário macroeconômico seja de retração, acreditamos que o mercado de franchising apresentará uma expansão suficiente para recompor perdas inflacionárias e abrir caminho para um desempenho mais vigoroso nos próximos anos.
JC: Que segmentos sentem mais a retração da atividade econômica?
Filipe: O setor de franchising abrange várias áreas da economia, do varejo à prestação de serviços, do turismo à construção. Cada segmento acaba tendo suas especificidades. Em comum, temos as pressões inflacionárias e a diminuição do poder de compra da população, o que demanda de nosso sistema controlar custos e desenvolver produtos e serviços que se encaixem no bolso atual da população.
JC: Qual a visão da ABF a respeito das diferentes margens de fixação de royalties para o negócio no setor? Alguns segmentos fixam em 2%, 3% e em outros os percentuais superam a 10%? Há reflexo do tipo e porte do negócio nisso ou outra questão?
Filipe: As diferenças de taxas de royalties (e outros custos relativos ao franchising) refletem, de fato, os diferentes segmentos de atuação (com suas características próprias), mas refletem também diferenças de plano de negócios, posicionamento de mercado e serviços e suportes oferecidos pela franqueadora. Neste sentido, é importante que o candidato a franqueado estude bem o que inclui, ou não, seu contrato com a franqueadora, que, por sua vez, deve ser transparente frente ao que demanda do franqueado.
JC: Qual a opinião sobre o comportamento “amador” diante de um negócio e sua relação com a taxa de sucesso ou fracasso no ramo de franchising?
Filipe: A ABF entende que a educação é fundamental para o sucesso de qualquer negócio. Não por acaso, a entidade promove uma série de cursos para empreendedores em diversos estágios. É importante ressaltar que, além da vontade de empreender, o interessado deve realizar um estudo criterioso de mercado e da instalação do negócio, produzindo um instrumento que chamamos de plano de negócios. Um plano de negócios consistente é a base de um negócio de sucesso. Além disso, como todo negócio, uma franquia tem riscos. Logo, é muito importante que o empresário esteja ciente disso e tome as medidas preventivas necessárias.
JC: O que faz a diferença na hora de escolher?
Filipe: Primeiro, que o empreendedor entenda e concorde com o sistema de franquias. Segundo, escolher uma franquia de um segmento com o qual se identifique. Ou seja, não escolher apenas pela moda, mas sim algo de interesse. Se gosto de culinária, a área de alimentação pode ser uma boa opção. Se a educação é meu interesse, quem sabe uma franquia de idiomas ou treinamentos. E assim por diante. Terceiro, avaliar e desenvolver bem o plano de negócios que abrange produto/serviço, preço, potencial de mercado, ponto comercial, fluxo financeiro, entre outros. E, por fim, possuir o capital necessário não apenas para o investimento inicial, mas para financiar a operação da franquia. Verificar se a rede de franquia é associada a ABF e possui o Selo de Excelência no franchising é outra dica importante. Por fim, uma de nossas principais recomendações é conversar com alguns franqueados da rede em que se quer ingressar. Esse é um dos principais balizadores.
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