09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O brasil requer juízo dos brasileiros


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Provavelmente desde os protestos de rua pedindo o "impeachment" de Fernando Collor de Mello, nenhum presidente da República viu-se às voltas com tantas dificuldades para governar como a presidenta Dilma. Em vasto repertório onde cabem insultos, vaias, declarações de ódio, ofensas com conotação sexual e críticas acerca de todo e qualquer ato da presidenta, a sociedade brasileira vai experimentando uma catarse que não é de bom augúrio. Quem pensa um pouquinho e vai além dos comentários rançosos e iracundos de Veja, sabe que a tese do "impeachment" é absolutamente incabível. Ainda que se comprove - e ainda nada se comprovou - que Dilma foi relapsa e cometeu crime de lesa-pátria no mandato anterior, o "impeachment" só caberia ser analisado se invocado no mandato anterior. No mandato atual, ele só pode ser invocado por crimes efetivados no presente mandato. Fala-se muito em "traição" às promessas de campanha. Vamos com calma. Onde estivemos nos últimos 50 anos? Somos recém-egressos da escola maternal ou ainda acreditamos em cegonha e bicho-papão ou no homem do saco?

Hipocrisia, afasta de mim este cálice, Pai. A presidenta parece o bêbado equilibrista de Aldir Blanc e João Bosco, que dança na corda bamba da popularidade cada vez menor. Efetivamente há pecados que Dilma purga por decisões equivocadas no primeiro mandato, algumas, reconheça-se, de cunho eleitoreiro. Porém, há desequilíbrios que são fruto de uma crise na geografia econômica mundial. Vejam por exemplo o crescimento apoucado da China, da Índia e a pequena (embora consistente) recuperação econômica americana. De resto, observe-se a problemática européia da Grécia, da Espanha, da Itália, da França e da zona do euro como um todo. Claro que para tanto contribuem fatores que não ocorrem no Brasil em mesma escala (recepção de imigrantes na Itália e na França com um grau xenofóbico inédito, o embate Rússia x Ucrânia,o recuo da Alemanha em se prestar a ser a banca da crise, etc), mas que influenciam de tal modo o mundo da economia que os respingos acabam nos atingindo. Isto, é claro, sem falar da periclitante situação da Argentina (um país onde o "kitchernerismo" assumidamente tangencia a criminalidade) e do Mercosul como um todo. O ministro Levy (que não é Jesus) dificilmente aguentará calado as críticas à ortodoxia econômica por ele capitaneada na direção do ajuste fiscal. O Congresso segue em pé de guerra com seus líderes bucaneiros Cunha e Renan a disputar a taça de quem sangra melhor a presidenta Dilma. Neste imbróglio terrível, o que podemos fazer? Ser cidadãos da melhor qualidade, ser patriotas de primeira linha, trabalhar muito, gastar o que for absolutamente necessário, pensar muito em adquirir um bem ou serviço, criar o salutar hábito de poupar (mesmo sob o colchão), estudar, ler, ensinar o bom caminho aos nossos filhos e netos e conceder ao governo Dilma um apoio crítico (até porque não teremos outro até 2018),

Reivindicar, sim, reclamar, sim, mas com ordem e respeito. Porém, mais do que tudo, analisar a difícil quadra de tempo que vivemos e assumir o nosso papel de construtores da nova sociedade que certamente sucederá ao "ancien régime", onde, mesmo não jorrando leite e mel, poderemos ser decisivos no voto, no expurgo dos malfeitores políticos, na pressão para que reformas sejam feitas com cuidado, mas com firmeza, na direção do bem coletivo. Infelizmente, o que tem ocorrido são reformas em favor do bem individual de políticos como ocorreu recentemente, com o fundo partidário e com o financiamento de campanhas. Temos tudo para ser altaneiros. Mas devemos, antes de mais nada, provar que merecemos uma sociedade melhor. Enfim, recomenda-se o que nossos país diziam quando saíamos de casa: juízo!

Marco Antônio de Souza