Hoje, não há, no mundo, quem não saiba o que é um spoiler. Ok. Há duas pessoas que não sabem, mas só vou revelar quem elas são na próxima crônica. Uma delas é a minha mãe. Spoiler é justamente isso: alguém estragar (verbo ?to spoil?) determinada surpresa.
A expressão "pegou" com a popularização de séries norte-americanas. Hoje é usada também para filmes, games, livros, novelas, programas televisivos (malditos sejam os que vazaram os finalistas desta edição do Masterchef) e qualquer peça narrativa que guarde algo a ser revelado. É comum ver ou ouvir pessoas pedindo para não receberem spoilers daquele último capítulo que seu amigo ocioso já viu e você ainda não teve tempo de assistir porque estava de plantão no jornal (qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência). Neste final de semana, por exemplo, as redes sociais deram início à Terceira Guerra Mundial por conta do fim de temporada da aclamada série Game of Thrones. De um lado, ?spoileiros? entrincheirados; do outro, ?antispoileros? na defensiva com seus escudos blindados.
Mas por que estragar uma surpresa se torna um balde de água fria? Por que saber de forma antecipada que o fulano morre ou que a fulana foge com o ciclano é tão decepcionante? Por que não gostamos de antecipar nossas alegrias e, principalmente, nossas frustrações?
"Um dia de cada vez, que é pra não perder as boas surpresas da vida", disse Clarice Lispector. As boas surpresas são as que fazem o "dia de cada vez". A surpresa do que está por vir; a esperança de que algo melhore mesmo diante das situações ruins; o medo de algo piore mesmo diante das situações boas; o inesperado rompendo o fluxo do esperado; o esperado rompendo o refluxo do inesperado. É isso que nos move.
Certamente, ?A Hora da Estrela? (1977), última obra publicada por Lispector, perderia muito de sua força se o leitor começasse a degustar a história sabendo (**ATENÇÃO: spoiler a seguir**) que Macabéa seria atropelada e morta logo após ouvir o futuro feliz que a cartomante previu para ela.
Apesar disso, no fundo, somos todos Macabéa. Mesmo movidos pela sombra do imprevisto, tentamos prever o futuro? Buscamos, seja de forma inconsciente, diferentes "cartomantes" para nos passar os spoilers da vida. Estudamos e trabalhamos para viver uma vida acomodada. Aderimos a religiões e pedimos a Deus, Buda, Maomé, Oxalá, Alá, Oxum e outras entidades para que nos mantenham em segurança. Passamos para nossos filhos todos os spoilers. Tentamos "estragar" a maioria das surpresas para que eles acertem o que acertamos e não errem o mesmo que erramos.
Contudo, a verdade é que não conseguimos evitar o inesperado. A vida, diariamente, nos surpreende mesmo diante de tantos e tantos caminhos que planejamos (ou tentamos planejar). A paixão repentina, a morte besta, o encontro casual, a gata preta que você adotou por pura generosidade (lê-se aqui "pura generosidade" como "atitude impulsiva influenciada por três copos de vodka"), o bate-papo no fim de noite no bar. "O encontro inesperado, as situações inusitadas, o que não foi combinado, mas tinha que acontecer", escreveu o glorioso Rubem Alves que, há um ano, infelizmente, nos deixava - sem spoiler da sua partida.
Encerro por aqui para ir assistir ao último episódio de Game of Thrones antes que alguém me venha com algum spoiler. E que fiquemos assim. Por uma vida com menos spoilers e com mais coisas inesperadas. "Mas que tinham que acontecer".
O autor é editor do JC, jornalista responsável da TV USP Bauru e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia