|
Arquivo JC |
|
|
|
Para manter seu mandato, Roque Ferreira alegará que o partido rompeu com todos os seus princípios |
Militante histórico e fundador do PT, Roque Ferreira vai deixar o partido. O vereador acompanha a decisão conjunta tomada nacionalmente pelos membros da corrente na qual atua, a Esquerda Marxista. Por enquanto, ele se mantém formalmente filiado à sigla. Em setembro, porém, o futuro político do grupo será definido.
Duas alternativas possíveis inviabilizam a participação de Roque Ferreira e outros ex-petistas do processo eleitoral do ano que vem: a criação de uma nova legenda (por não haver tempo hábil) ou mesmo a não filiação a siglas partidárias.
A Esquerda Marxista não descarta, porém, a migração para o PSOL, que deve ser oficializada até os primeiros dias de outubro para que o parlamentar possa concorrer a mais um mandato na Câmara Municipal ou mesmo se candidatar à sucessão de Rodrigo Agostinho (PMDB) à frente da Prefeitura de Bauru. “Vou sair do PT. Mas a desfiliação ainda não tem data para acontecer”, limita-se a dizer o vereador.
Possivelmente até setembro, o corpo jurídico da Esquerda Marxista, em âmbito nacional, trabalhará para elaborar uma consistente defesa para sustentar a manutenção do mandato de Roque, que corre o risco de perdê-lo por conta da legislação que versa sobre a fidelidade partidária.
“Vou continuar atuando como vereador até que a decisão sobre a desfiliação seja tomada. Depois, acredito que prossigo. Quem rompeu com todos os princípios que historicamente sempre defendemos foi o PT, não fui eu. Sempre fui um petista fiel às origens”, alega.
LÓGICA ELEITORAL
Roque Ferreira afirma que, hoje, não enxerga a possibilidade de se utilizar do PT como ferramenta para viabilizar nem mesmo as pequenas transformações que possam atender aos interesses da maioria da população.
“Toda a lógica do partido é prisioneira do processo eleitoral. E a gente vê isso aqui em Bauru e nossa
PSOL?
Membro do diretório nacional do PT até abril deste ano, o jornalista e fundador da sigla Serge Goulart diz que, dentre os partidos de esquerda já existentes, os membros da Esquerda Marxistas estão mais inclinados a se filiar ao PSOL.
Ele destaca o crescimento da sigla desde o último processo eleitoral, ao qual atribui ao surpreendente papel da então candidata à Presidência da República Luciana Genro (PSOL).
Por outro lado, Serge pontua que o PCB é muito frágil e “aparece como uma coisa do passado”. Já o PSTU, segundo o jornalista, tem uma postura sectária frente aos demais partidos de esquerda.
Ainda assim, Serge Goulart observa que o PSOL precisa dar mais atenção às pautas da classe trabalhadora, já que consegue atrair, basicamente, a militância de jovens de classe média alta.
“Eles focam muito as questões da homofobia, do feminismo e das drogas [a Esquerda Marxista é contra a liberação]. São problemas importantes, mas tem um peso que não é definidor da sociedade. O centro deve ser a luta de classes”.
Ex-dirigente aponta falência do partido
Fundador do PT e liderança internacional da Esquerda Marxista, o jornalista catarinense Serge Goulart diz que, ao abandonar suas bandeiras em defesa da classe trabalhadora, a sigla faliu politicamente. O militante esteve ontem em Bauru, onde debateu o assunto.
O ex-membro do diretório nacional da legenda frisa que, desde o início, a corrente na qual atua se posicionou contrariamente à aliança com partidos como o PMDB, o PP e o PTB, considerados de centro-direita.
Segundo ele, o primeiro golpe do Partido dos Trabalhadores se deu com a reforma previdenciária de 2003, no primeiro ano do governo Lula. O afastamento das origens da sigla, porém, teria sido coroado com as recentes medidas provisórias da presidente Dilma Rousseff, justificadas pelo ajuste fiscal.
“Foi um estelionato eleitoral. No segundo turno, Lula e Dilma foram votar com camisas vermelhos e, no discurso da vitória, já estavam de branco, estendendo a mão para o PSDB. O último congresso do partido foi melancólico”, critica.
Para Goulart, os 40% dos eleitores que votaram nulo, em branco ou se abstiveram, em algumas regiões do País, como no Grande ABC, comprovam sua tese de falência política do PT. “São pessoas que não se identificam mais com o partido, mas também não votam na direita”.
A Esquerda Marxista prega a ruptura de lógicas como a da responsabilidade fiscal e pagamento de juros em favor da garantia de mais direitos à classe trabalhadora.