A localidade de São Domingos do Tupá é envolta de mistério há mais de um século. A 50 quilômetros de Bauru, no século 19 foi uma próspera povoação localizada entre Águas de Santa Bárbara e Agudos. Passagem obrigatória dos bandeirantes, com o advento da República perdeu a influência com o expansionismo sertanejo até praticamente desaparecer no início do século 20. As últimas provas de sua existência são um conjunto de fotografias da capela e do altar da única igreja que garantiu status de freguesia, guardado no Museu Histórico de Agudos.
O JC teve acesso as duas relíquias que resistiram ao tempo. “Ela foi a mãe de todas as cidades dessa região: de Bauru, Santa Cruz do Rio Pardo, Agudos, Águas de Santa Bárbara”, conta o cartorário aposentado Henrique Dyna, espécie de “guardião” da história oral do povoado que “desapareceu”. O irmão dele foi farmacêutico e morou no lugarejo.
O ferroviário aposentado, residente em Bauru, Adalto Dias Giafferi Prado é quem registrou os últimos resquícios do lugar. Apaixonado por pesca, percorria muito essa região na década de 70. Teve acesso a “epopeia” do lugar pela conversa com Dyna. Depois fez as fotografias de túmulos do cemitério e da capela de madeira em ruínas.
A segunda relíquia está no Espaço Histórico Plinio Machado Cardia, em Agudos. Com a decadência do povoado, foi desaparecendo as casas e a capela ficou em ruínas e se manteve em pé até o final dos anos 80.
O altar feito em cedro foi resgatado em 1966 pelo cantor e tenor Emilson Carmo Barbosa. Ele percorria fazendas e se deparou com o objeto abandonado na antiga capela e, então, decidiu levá-lo para casa, conta a superintendente do museu particular de Agudos, Marilena Cardia.
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Samantha Ciuffa
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O altar de madeira da capela de São Domingos de Tupá foi resgatado em 1963 das ruínas da capela e depois foi doado para o Espaço Plinio Machado Cardia de Agudos |
Em 1993, quando Marilena inaugurou as instalações do museu com 600 peças em Agudos, Emilson a procurou e doou a peça.
A região de São Domingos do Tupá fica no Núcleo Colonial Monções, grande área de terra devoluta que até hoje gera disputa de posse entre sem-terra e fazendeiros.
O lugarejo alimenta desde o advento do bandeirismo sertanejo de José Teodoro de Souza em 1850 a disputa pela posse da terra. Para os memorialistas Celso Prado e Junko Sato, de Santa Cruz do Rio Pardo, a descentralização eclesiástica e o desenvolvimento de outros centros mais próximos dos avanços sertanejos, com instalações de cartórios e outras melhorias, selaram o fim de São Domingos, em 1889, antes do golpe militar que derrubou a Monarquia e implantou a República.
Mas o decreto estadual nº 9.775 que extinguiu a localidade oficialmente foi assinado em 30 de novembro de 1938 integrando a área ao distrito e depois município de Agudos.
Detalhe: o local prosperou no período do império, de forte influência da igreja católica que o elevou a Freguesia, condição que dava a capela de paróquia mãe – Matriz de São João – para onde percorriam os sertanejos.
Ferroviário fez fotos da capela em ruínas
O hábito de pescar levou o ferroviário Adalto Dias Giafferi Prado à região de São Domingos de Tupá, localizada em torno de 12 quilômetros de Domélia, município de Agudos. A caça ainda não tinha leis tão rígidas, também era hábito capturar paca. Para descansar a mente, Adalto se enfurnava nessas matas. Ele trabalhou por 35 anos à frente do setor de seção de desenho da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), onde se faziam os projetos de peças de máquinas e vagões para serem recuperados nas oficinas.
Do velho ofício levou Adalto a “imortalizar” em desenho a Capela de São Domingos do Tupá, do qual guarda com orgulho em sua casa. Também desenhou a mata próxima ao local.
Ele ajudou a registrar em fotografias coloridas tiradas em setembro de 1973 o antigo cemitério e a capela já em ruínas.
De tanto percorrer a região, Adalto tomou conhecimento da importância de Tupá ao conversar com o Henrique Dyna, morador em Domélia.
Adalto fez questão de publicar a foto da capela em um livro sobre pesca de 2010. “Conheço toda aquela região e resolvi deixar o relato da localidade em um livro”, relembra o ferroviário aposentado.
Atualmente a área de Tupá está “escondida” por enorme canavial.
As fotos de Adalto já despertaram o interesse de Marilena Cardia para guardar cópias no museu de Agudos.
Altar está no museu de Agudos
O Espaço Histórico Plinio Machado Cardia de Agudos destoa da maioria das cidades: o local é particular e não mantido pela prefeitura. Na verdade em uma antiga residência no Centro da cidade com traços da arquitetura do início do século 20. O altar da capela de São Domingos do Tupá está guardado em uma sala e aberto à visitação pública. A antiga povoação ficava na área do imenso município de Agudos. A relíquia ficou 30 anos guardada em um porão até ser doada ao museu.
O altar foi encontrado na capela em ruínas todo sujo de fezes de galinha e de pombo na área de São Domingos do Tupá pelo cantor Emilson Carmo Barbosa em 1963. “Ele foi lá e pegou. Estava abandonado. Veio em Agudos apanhou um caminhão e recuperou esse objeto. Ficou por 30 anos no porão de sua casa até que, em 1993, abri o museu e ele doou a peça”.
Emilson procurou Marilena quando soube da abertura do Espaço Histórico. “Ele falou: vou dar uma peça para o museu. Ela não é minha, guardei por 30 anos.”
Com essa atitude foi possível recuperar do pouco que sobrou da capela em ruínas e da “epopeia” da antiga São Domingos.
O que chama atenção é um cocar indígena no lugar do crucifixo. O próprio nome da localidade tem referência com a língua indígena. A superintendente do Espaço Histórico, Marilena Cardia, arrisca um palpite: “Foi um altar que catequisou índios”.
Segundo o memorialista Celso Prado, no lugarejo teria um canal feito em pedras, num barulho brando constante como leve trovejar, razão do topônimo indígena tupá por significar “o que troveja ou trovejante”. A região também tinha índios otis (xavante).
O cartorário Henrique Dyna também cita a existência desse canal com água límpida. Há histórias relatadas oralmente que Tupá é remanescente da Fazenda Jesuíta (1719/1759), período de forte influência dos padres. Para Prado, isso está mais para lenda. Mas o entalhe de madeira no altar guardado em Agudos é realmente diferente. “Assim mesmo tive que trocar uma boa parte (da madeira), porque estava comida pelo cupim”, conta Marilena.
Na pesquisa de Prado consta que havia convivência pacífica dos índios com os brancos. Um relatório do Ministério dos Negócios do Império de 1859 divulgado em livro de João Tidei de Lima consta que a freguesia de São Domingos foi salteada por índios e repelida pelos moradores, obrigando-os a abandonar na fuga diversos objetos. Quando o Emilson resgatou a relíquia da antiga capela ainda existia ao lado do cemitério de Tupá. “Não existe mais nada, só mato. A cidade desapareceu”, finalizou a superintendente do museu.
Expansão sertaneja selou fim de Tupá
O auge e decadência de São Domingos de Tupá é uma história que empolgou os memorialistas Celso e Junko Prado. O casal já publicou dois livros de histografia sobre as incursões sertanejas no Vale do Paranapanema e mantém na Internet um blog com centenas de informações do expansionismo bandeirante nas regiões de Botucatu, Bauru, Lençóis, Santa Cruz do Rio Pardo e Agudos.
Prado, por exemplo, tem motivos a mais para alimentar essa constante procura por informações do lugarejo: um avó dele residiu no que seria a tal “cidade perdida”, na verdade um povoado. A história oral passou de boca em boca na família.
JC - O que levou a decadência de São Domingos do Tupá?
Celso Prado - A abertura de novas frentes no expansionismo sertanejo, a exemplos de Fortaleza - mais para Bauru, Lençóis Paulista e Santa Cruz do Rio Pardo, lugares mais próximos dos pioneiros e desbravadores para os seus ajustes.
JC - Qual é a influência da fazenda Jesuítica na criação da localidade?
Prado - Antiga lenda informava São Domingos uma invernada da Fazenda dos Padres (1719/1749). Invocava-se a relação pelo canal de água, feito em pedra, similar àquele construído pelos jesuítas na Fazenda Sobrado - hoje no território de São Manuel. O que se sabe, documentalmente, é que por lá chegou o capitão Apiaí - Ignácio Dias Baptista, por volta de 1835, no aproveitamento do sucesso do tropeiro Joaquim da Costa Abreu em Botucatu.
JC - O status de freguesia confere ao período de mais prosperidade para São Domingos? Por quê?
Prado - Sim. Pelas relações entre Igreja e Estado, São Domingos, de sede de fazenda à freguesia, tornou-se ‘boca do sertão’ quando do bandeirismo mineiro no sertão paulista. Toda a movimentação sertaneja, então, se concentrava em São Domingos, desde assentos religiosos a expedientes cartoriais.
JC - Há dúvidas de o local ter sido Comarca Imperial e Eclesiástica?
Prado - O lugar foi paróquia sede - equivalente a freguesia, e nenhum documento oficial ostenta o pomposo título.
JC- A morte de padre Andrea Barra levou a decadência do local? Ele esteve no período mais próspero do lugarejo?
Prado - O padre Andrea Barra foi a figura mais importante e decisiva de São Domingos, entre os anos de 1856/1870, porém São Domingos manteve-se vilarejo e assim descrito pelo sucessor de Barra, o padre Francisco José Serôdio numa carta registrada no livro-ata eclesial, em 15 de março de 1872, conta que a parede da frente da igreja estava ameaçando ruínas, o local era um sertão sem recursos com 12 casas. A freguesia de São Domingos nesse tempo era um lugar no extremo oeste de São Paulo, que estava em sertão sem comodidades algumas. O lugar era pequeno, porém o sertão jurisdicionado era próspero e em expansão, e em São Domingos estava instalado um cartório e lá era a paróquia mãe - a Matriz de São João, e para lá acorriam os sertanejos.
JC - Oficialmente a chegada da República inviabilizou o local?
Prado - A história documentada mostra que a descentralização eclesiástica e o desenvolvimento de outros centros mais próximos dos avanços sertanejos, com instalações de cartórios e outras melhorias, selaram o destino de São Domingos, bem antes do golpe militar de 1889.
Origem do povoado
O sucesso de Costa Abreu na expulsão dos índios da região vai atrair fazendeiros para as terras próximas a São Domingos. De acordo com pesquisa de Celso Prado, o agricultor Pedro Ribeiro Nardes deixou Itapetininga, em 1834, para estabelecer-se com a família e agregados às margens do ribeirão Grande, nas cercanias de Aimorés, atual Bauru. Depois Nardes desceria para o Rio Grande do Sul para lá crescer a sua família.
Os sorocabanos Procópio José de Mattos e Domingos Palmeira, em 1835, avançaram adiante da Boa Vista - antiga Fazenda Jesuítica - e apossaram terras das quais a Fazenda Palmeira. Também Ignácio Dias Baptista - o capitão Apiaí, à mesma época tomou, posse de matas, desde as nascentes e vertentes dos ribeirões São Domingos e Forquilha. São Domingos tornou-se fortaleza e sentinela sertaneja antes de ser elevada à condição de cabeça de paróquia e freguesia. O capitão Gomes Pinheiro igualmente avançou conquistas adiante da Serra de Botucatu, e em seu nome registrou terras na região de Bauru confinantes ao Nardes. Celso Prado destaca que as campanhas de Costa Abreu não se exclui violentas reações indígenas. “O capitão Apiaí foi capturado, morto e crucificado em 1838, e outros fazendeiros já haviam experimentado as agruras nas mãos do inimigo que, habilmente subia a serra para os ataques impiedosos”, conta Prado.
‘Tupá é mãe de todas as cidades’
No final da rua que dá acesso à estrada a Águas de Santa Bárbara fica uma casa de madeira no distrito de Domélia, onde reside Henrique Dyna Filho, filho de pai inglês com uma japonesa. A memória dele é muita boa. Há certa dificuldade de audição. Quando emenda a falar, não para. Ele é uma espécie de “guardião” não oficial da memória de São Domingos do Tupá. Trabalhou por 46 anos em cartório. Isso facilitou ter o conhecimento de quem são os proprietários da imensa área próxima ao rio Turvo. Mas o assunto que gosta de falar mesmo é São Domingos do Tupá. Há uma certa mística no relato. “É a mãe de todas as cidades. Todos os municípios da região têm que saber que é de Tupá que nasceu Bauru, Santa Cruz do Rio Pardo, Agudos, Lençóis, Águas de Santa Bárbara”, afirma.
Dyna, por exemplo, garante que o sino que havia na capela foi enviado por D. João VI. Depois que a capela foi destruída nunca foi achado. Isso ajuda a manter o mistério. “Veio trazido a cavalo até aqui do Rio Janeiro”, garante o cartorário.
Como já não há mais vestígios de como foi o lugarejo, restou os relatos passados oralmente. Dyna cita a existência de dois cemitérios, o de índios e dos moradores. Em fotos de Adalto Dias Giafferi Prado de 1973 resgata a capela de madeira em ruínas e os túmulos.
Esse interesse por Tupá tem uma razão para o cartorário. Segundo ele, o irmão Euclides Dyna tinha uma espécie de farmácia no “lugarejo perdido”. “A rua do comércio ficava no lado direito do ribeirão São Domingos. Do outro lado da cidade havia uma água límpida que escoava por um canal de pedra e percorria cerca de quatro quarteirões. Isso seria água para consumo do povoado”, relata Dyna.
Canal
Segundo Celso Prado, o relato é de que Tupá seria um bairro rural com característica urbana. O canal teria sido construído pelos primeiros moradores, com reservatório de água colhido de minas adjacentes, depois o líquido seria conduzido ao povoado num barulho brando, com leve trovejar, daí a origem do nome em tupi.
O que pouco restou foi a capela, desmanchada entre os anos 70 e 80. O local estava todo abandonado. “Era tudo madeira. As pessoas da região ia ao local rezar. O cemitério não acabou, porque pedi o arrendatário para não remover os túmulos. Considero cemitério local santo. Respeitaram e está lá”.
Para Dyna, a decadência da localidade tem razões econômicas. Com o declínio da cafeicultura afetou a cultura cafeeira e causou falência de fazendeiros. “A produção de café era muito grande. Na crise de 1929 não tinha comprador, os produtores se endividaram e faliram”, recorda.
Área faz parte do Núcleo Monções
Atualmente na área próxima a São Domingos tem assentamentos e acampamentos de sem-terra. A área no passado foi de índios de diversas etnias, expulsos pelo expansionismo sertanejo.
Em 1910, foi iniciado o projeto Núcleo Colonial Monção para colonizar esse vazio geográfico no centro do Estado de São Paulo. Uma área de 40 mil hectares entre os municípios de Agudos, Lençóis Paulista, Borebi, Iaras e Águas de Santa Bárbara foi dividida entre imigrantes de várias nacionalidades, mas o projeto não vingou.
O intento da União Federal era promover o assentamento de imigrantes na lavoura da região, então quase desabitada. Para isso, o Governo Federal adquiriu várias fazendas: Capivara, Turvinho, Capão Rico, Sarandy e Santa Luzia.
A União ao longo dos anos não conseguiu demonstrar que as terras fossem transferidas em nome dela.
O Monção só foi avante nas terras da antiga Fazenda Santa Luzia, área ocupada atualmente pelo centro urbano do município de Iaras. Na época, já vigente o Código Civil, poucos títulos foram registrados e posteriormente foram concedidos em definitivo outros títulos com base no usucapião.
As outras ficaram submetidas a ações de grileiros e a de posseiros. Com o passar dos anos essas terras griladas, foram sendo transferidas a outros proprietários por compra ou outros meios, repassando títulos pretensamente legítimos da área. É atualmente uma região de constante conflito agrário.