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A publicação da carta de despedida no Facebook foi o último pedido feito em vida pelo advogado ao pai, Paulo Coimbra |
“Sinto que sou muito amado e querido. Deus é bom. Partirei sem mágoas...”. Foi essa a frase que o advogado Gabriel Coimbra, de 29 anos, escolheu seis dias antes de sua morte para encerrar uma carta de despedida direcionada a amigos, familiares e equipe médica que o acompanhou nos últimos cinco anos. Diagnosticado em 2009 com tipo agressivo de tumor no cérebro, seu último desejo, atendido pelo pai, era que o texto fosse publicado em sua página no Facebook (leia mais abaixo).
A carta de despedida recebeu mais de 744 curtidas, foi comentada por aproximadamente 150 pessoas e teve mais de 100 compartilhamentos. A repercussão chamou a atenção do JC, que procurou o pai de Gabriel para conhecer um pouco da história de fé e superação do advogado, que conviveu com o câncer por cinco anos, contrariando a maioria das projeções médicas para este tipo de tumor.
Paulo Coimbra conta que recebeu o diagnóstico da doença do filho em dezembro de 2009. Na ocasião, o jovem, com 23 anos, procurou pronto-atendimento particular após sentir dor de cabeça e dormência no braço. Percebendo a gravidade do quadro, o médico de plantão pediu exames específicos e, após cerca de duas horas, veio a notícia: Gabriel tinha um tumor no lado direito do cérebro.
O advogado foi internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), medicado para que o inchaço no cérebro diminuísse e submetido a cirurgia. “Ele foi para a operação sereno. O médico conseguiu fazer uma ressecção (retirada) total do tumor e me alertou, depois da operação, que, infelizmente, pela experiência dele, não era tumor benigno porque estava muito enraizado”, revela Paulo.
A confirmação de que se tratava de tumor maligno, do tipo Glioblastoma Multiforme IV, veio em 16 de dezembro, dia em que Gabriel completou 24 anos. “Não tem um câncer mais agressivo”, diz o pai. O tratamento a base de radioterapia e quimioterapia permitiu que os tumores “sumissem” por dois anos e oito meses. “Entre o meio de 2012 e meio de 2014, ele teve algumas recidivas (retorno do tumor). No geral, foram seis operações”, diz.
Piora
Segundo Paulo, com tratamento convencional associado a experimento coordenado por médico da Universidade Federal Fluminense, seu filho conseguiu ter uma vida praticamente normal até a metade do ano passado. Em setembro, a retirada de um tumor mais profundo deixou Gabriel com dificuldades para andar.
Após um mês, o câncer atingiu uma área complexa do cérebro e uma nova intervenção cirúrgica poderia fazer com que ele ficasse em estado vegetativo. “A gente decidiu voltar para casa e tentar viver esse resto de vida. Já que nós jogamos tudo na ciência, decidimos jogar tudo em um milagre”, desabafa o pai.
O quadro de saúde do advogado piorou e ele passou a sofrer tonturas, enjoos e falta de ar. No último dia 8 de maio, foi internado, mas não resistiu e morreu no dia 13 de junho. “Nesse período, os médicos procuraram fazer aquela chamada medicina paliativa, para dar conforto ao paciente”, explica.ww
'Plenamente feliz'
Paulo Coimbra definiu o filho como “plenamente feliz”. “Eu considero meu filho uma pessoa iluminada. Ele nunca me trouxe problema de ordem financeira, moral ou teve alguma conduta que me trouxesse algum constrangimento”, afirma. “Ele sempre sorria e, quando surgia uma dificuldade, ficava quieto e pensava em uma forma de escapar ou de se adaptar à nova realidade”. A morte de Gabriel, segundo ele, ajudou a transformá-lo em uma pessoa mais sensível e atenta às questões da saúde. “As pessoas precisam estar sempre prestando muita atenção aos sinais que o corpo emite”, pontua.
Na despedida, Gabriel Coimbra agradece aos amigos, médicos e familiares que o apoiaram
O pai de Gabriel conta que o filho ditou a ele sua carta de despedida no dia 7 de junho, seis dias antes de morrer, quando percebeu que a sua visão e seu equilíbrio estavam sendo afetados pela doença.
“Ele foi me relatando e eu fui marcando os tópicos”, lembra. “Ele quis agradecer essas pessoas que, no final da vida, deram alívio para ele. Ele achou que no final de sua vida, houve uma união muito forte para que ele não sofresse”.
De acordo com Paulo, desde o início, seu filho encarou a doença de forma tranquila e serena. “Ele partiu em paz porque em nenhum momento ele se revoltou, em nenhum momento ele ficou desesperado ou teve atitudes de agressividade. Ele chorou diversas vezes, o que é natural, porque o choro é um desabafo”, conta. “A mensagem que ele gostaria de deixar é para que as pessoas, nessas situações, procurem com fé a ciência, as pessoas e a religião, simultaneamente”.
Além dos pais, irmã, tios, avós e primos, o advogado agradeceu ex-namoradas, que se tornaram amigas, a noiva Andréa Félix Damasceno, que ficou ao seu lado até o último momento, amigos, membros da equipe médica que acompanhou seu tratamento e padres e pastores, que oraram por sua melhora. “Meu agradecimento seria até mais longo, mas sinto que a minha vida será breve. A vida é maravilhosa, sempre procurei amar a todos, gostar das pequenas coisas e ser feliz”, diz trecho da carta de despedida, que pode ser consultada na íntegra na página de Gabriel Coimbra no Facebook.