08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O querer de um menino


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?Por querer ser peixe, tinha preferência por mandí, as barbatanas lhe possuíam quando nadava no rio, afundava o nariz na água e fungava boinhas, mas nunca desenvolveu barbatanas e nem escamas de lambarí, abandonou o fadário de ser peixe.
A ermitude do lugar ampliava seu direitos de menino e ele tentava todas as possibilidades, pois um dia sismou e acometeu-se de tatu e entrou de fasto no buraco de um canastra, ficou só com os zoinhos de fora, mas não deu conta da transformação, saiu devagarzinho, sacudiu a terra e foi embora pra casa. E de lobo guará? Foi mais de uma vez.
Um dia ele quis muito e ficou cinco dias andando no campo, só comendo fruta e bebendo água das lagoas de cabeceiras de rio; voltou todo machucado de espinho e riscado de gaio seco com a carinha queimada de sol e desmilinguido.
Tinha um horizonte curtinho, de um lado sua a espiada esbarrava no paredão de mato, do outro lado ia até a outra margem do rio.
Lá não existia gigante para ele subir nos ombros, então subiu numa árvore, queria apassarinhar os olhos e enxergar muito longe, mas acabou se aconchegando nos galhos e por lá deu de adormecer.
Conversei com um sabiá sobre esse ofício de ser pássaro, coisa que me encanta muito, ele me deu a receita para sabiá eu cumpri no riscado. Posar três noites de sexta-feira, numa copa de árvore, e dar uns piados para ir pegando jeito na segunda noite.
Eu piava com uma certa semelhança, fiquei contente, na terceira noite ainda claro, mas já escuro, os pássaros chegaram e teceram em mim um casulo, acordei já com os primeiros penujos, achei que podia voar e tentei, voltei pra casa andando como um moleque, mas com voz de sabiá. Não virei passarinho, mas conheci seu mundo e aprendi a compreender seu canto de modo que hoje sou fluente em passarinhês.?
Do livro Atestado de Óbvio.

Lázaro Carneiro