09 de julho de 2026
Geral

Falta penicilina e município "raciona" tratamento da sífilis

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Pacientes que precisam de tratamento contra a sífilis estão enfrentando uma grave dificuldade na rede municipal de saúde. Conhecida pelo nome comercial Benzetacil, a penicilina benzatina – medicamento de primeira linha para o combate à doença - está em falta nas unidades de Bauru. O problema, provocado pela escassez da matéria-prima utilizada na fabricação do antibiótico, afeta todo o País, segundo informou o Ministério da Saúde.

 

Na cidade, há cerca de três meses, apenas gestantes tem o tratamento com penicilina garantido, já que a prioridade da Secretaria Municipal de Saúde é evitar a transmissão vertical da doença (de mãe para filho), conforme orientação do Ministério da Saúde. Os demais pacientes, sejam adultos ou crianças com sífilis congênita, estão recebendo medicação substitutiva, que pode ser falha (leia mais abaixo).

 

Para o secretário municipal de Saúde, Fernando Monti, não há nada que explique a atual indisponibilidade da penicilina, a não ser os interesses econômicos envolvidos. “Há uma questão mercadológica. Medicamentos mais tradicionais, como a penicilina, são baratos. Para a indústria farmacêutica, é mais vantajoso produzir os de última geração, que possibilitam um retorno financeiro muito maior”, pontua. 

 

De acordo com Monti, o município está sem conseguir comprar o antibiótico diretamente dos laboratórios desde dezembro do ano passado. Com os estoques em níveis críticos, a pasta conseguiu adquirir alguns lotes de municípios vizinhos, cuja demanda por penicilina era menor.

 

“Mesmo assim, o abastecimento não foi normalizado. Estamos nos desdobrando, remanejando os estoques das unidades de acordo com a necessidade”, frisa. O Ministério da Saúde informou que a produção do medicamento deve ser normalizada até o próximo mês, o que deve restabelecer a conduta médica padrão para todos os pacientes com sífilis. 

 

Procurada pela reportagem, a Secretaria de Estado da Saúde informou que não há registro de falta de penicilina benzatina nas unidades gerenciadas pela Fundação para o Desenvolvimento Médico e Hospitalar (Famesp) em Bauru – Hospital de Base, Hospital Estadual e Maternidade Santa Isabel.

 

‘Escassez mundial’

 

Por meio de nota, o Ministério da Saúde afirmou que vem monitorando a produção e o abastecimento nacional do medicamento penicilina benzatina desde o segundo semestre de 2014, quando começou a receber várias notificações de municípios sobre atraso na entrega e  problemas com licitações sem oferta. 

 

Em reuniões, os laboratórios produtores teriam argumentado que “há escassez mundial no suprimento de matéria-prima utilizada para a produção de penicilina”. Segundo o ministério, embora o Brasil finalize o produto, a matéria-prima precisa ser importada. 

 

Como alguns produtores mundiais passaram a não disponibilizar mais o insumo, a indústria brasileira se viu forçada a procurar novos fornecedores. Vale ressaltar que, quando há troca do fornecedor, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) precisa emitir nova certificação.  

 

O Ministério da Saúde informou, ainda, que solicitou à Anvisa “prioridade na análise da liberação de importação da matéria-prima do medicamento, bem como das inspeções e  avaliação da qualidade dos lotes produzidos”. A partir do cumprimento destes trâmites, a previsão é de que haja disponibilidade de 1,2 milhão de ampolas para o próximo mês, número que, segundo a pasta, suprirá a demanda nacional. 

 

Casos de sífilis cresceram 53,7% no período de um ano em Bauru

 

A falta da penicilina benzatina é ainda mais preocupante porque o número de novos casos de sífilis em Bauru disparou nos últimos anos. Somente entre 2013 e 2014, a quantidade de pessoas diagnosticadas com a doença cresceu 53,7%, segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, divulgados pela Prefeitura de Bauru. Em 2013, foram 404 novos casos, ante às 621 confirmações registradas no ano passado.

 

Para o secretário municipal de Saúde, Fernando Monti, não é possível precisar se a elevação está vinculada, necessariamente, a um número maior de pessoas infectadas ou à maior procura por exames para diagnóstico. “O que sabemos é que os casos estão muito concentrados nas populações de maior vulnerabilidade, especialmente moradores de rua e usuários de drogas”, pontua.

 

De acordo com as estatísticas do Sinan, a maior parte dos doentes é adulta. Em Bauru, de 278 casos em 2013, o número saltou para 

 

Sociedade Brasileira de Infectologia: falha em substitutivo supera os 30%

 

A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) alerta que as alternativas para o tratamento da sífilis empregadas em razão da escassez de penicilina benzatina possuem chances de falha maiores do que 30%. Como requerem terapia contínua - de 10 dias a 21 dias, dependendo da modalidade (comprimido ou injetável), o número de pacientes que abandonam o tratamento aumenta, o que compromete a efetividade do tratamento. No caso da penicilina, apenas três doses são suficientes.

 

Segundo o presidente da entidade, Érico Arruda, o prejuízo do desabastecimento às gestantes portadoras de sífilis durante o pré-natal é ainda maior. “O déficit da penicilina benzatina pode acarretar malformação do bebê em decorrência da ausência de cuidado adequado”, destaca, salientando que as crianças podem nascer com sequelas definitivas no sistema nervoso central e em outros órgãos.

 

Além de ser a primeira opção de tratamento contra sífilis, o antibiótico também é utilizado para o tratamento de outras infecções, como a febre reumática aguda, doença bacteriana que afeta coração, cérebro e articulações.