Não é só o peixe que morre pela boca. Também nós, seres pensantes, que não pensamos o que dizemos. A boca, sempre ligeira, rouba-nos o tempo do lerdo pensamento. Tal acontecendo, a asneira explode alto e em bom som. Então, vem aquela vontade besta de recolher o dito infeliz. Inútil. Depois, a faca da culpa cortando fundo: por que não pensei dez segundos antes de falar?
Engano ledo pensar que a boca irresponsável seja a dos idiotas de plantão. Um exemplo? Então, vamos lá. O idiota que disse isso não é um idiota: "Três coisas acontecem quando há mulheres no laboratório: você se apaixona por elas; elas se apaixonam por você e elas choram quando são criticadas." O autor dessa infelicidade machista é simplesmente o ganhador do Prêmio Nobel de medicina e fisiologia em 2001. Tim Hunt, um dos mais laureados cientistas britânicos, reconheceu a estupidez proferida. Sabendo, contudo, que à bobagem dita não se oferece caminho de volta, o cientista pegou o boné e se demitiu do cargo de professor honorário que ocupava numa das universidades mais renomadas do mundo, a University College London (UCL). "Foi algo tolo de se fazer na presença de todos aqueles jornalistas" ? reconheceu. Depois, disse mais: "Isto é algo horrível. Essa não foi a minha intenção, quis apenas ser honesto." O problema é que peixe honesto também morre pela boca. O bioquímico, que também recebeu a comenda "Cavaleiro da Coroa Britânica", entrou assim, rapidinho, para a longa história das bocas infelizes. E essa medalha, não a levará no peito, senão na boca, até o resto dos seus dias. É isso mesmo. Dita a besteira, a coisa gruda na boca e na memória de todos. O ridículo fica para sempre. Vamos conferir?
"Relaxa e goza, porque depois você esquece todos os transtornos." Quem disse isso? Claro, Martha Suplicy. Foi o que respondeu a uma repórter, quando indagada o que ela, Ministra do Turismo, diria aos turistas brasileiros que enfrentavam, revoltados, o caos aéreo de 2007 nos aeroportos. Então a loira ? nada contra as loiras, eu juro, vou logo me desculpando, quero o anzol longe da minha boca ? entrou também para a galeria das bocas infelizes. Mas, reconheçamos, o que esperar de uma sexóloga senão remédio tão prazeroso?
"Estupra, mas não mata". Essa é do Maluf. Uma verdadeira pérola dos anais dos direitos humanos. O ano, 1989. O lugar, palestra na Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. "Eu disse essa frase como quem diz: ?Se já roubou, ainda precisa matar?? Foi nesse contexto que eu disse a frase mais infeliz da minha vida. Quem faz discursos e palestras por uma ou duas horas seguidas pode escorregar e fazer uma colocação infeliz", disse o sempre escorregadio Maluf. Depois do Maluf, o Lula. O então presidente do Brasil, orador exímio, "como nunca houve antes na história deste país", resolveu falar de improviso na África, em 2003. Namíbia era tão limpa que para ele nem parecia a própria África. "Quem chega em (sic) Windhoek não parece que está em um país africano. Poucas cidades do mundo são tão limpas, tão bonitas arquitetonicamente e com um povo tão extraordinário como tem essa cidade." Contrariando o velho chavão de que emenda não conserta soneto, o tradutor oficial "pulou" a palavra "limpa" e foi logo registrando a beleza da cidade africana. Resultado: constrangimento geral.
Recuemos, agora, para 1978. Triste lembrança, anos de chumbo. O então presidente Ernesto Geisel, conhecendo o temperamento explosivo do general João Baptista Figueiredo, e com o intuito de lhe preparar a cama da sucessão presidencial, começou a chamá-lo, estrategicamente, de "João do Povo". Deu merda. O general, desprezando o cognome, foi logo dizendo ao repórter: " O cheirinho do cavalo é melhor (do que o cheiro do povo)". Em outra oportunidade, asseverou: "Eu gosto mesmo é de clarim e de quartel." Foi então que alguém do povo fedido e ofendido retrucou: "Infelizmente nessa época, o Brasil podia escolher cavalos, mas não presidente."
Engraçado, o fedor do povo brasileiro é coisa antiga (mas também atual) no nariz dos nossos políticos: "A democracia seria boa se não fosse o sovaco (do povo brasileiro)". Frase do governador mineiro Antonio Carlos Ribeiro de Andrada, um dos articuladores da revolução de 30. É dele também esta preciosidade: "Façamos a revolução antes que o povo a faça." Dizem que sempre é bom ouvir a voz do povo, que não é fedido, mas é a voz de Deus. Ouçamo-la. "Se a palavra é de prata, o silêncio é de ouro"; "Quem fala demais dá bom dia pra cachorro"; "Em boca fechada não entra mosquito." Embora eu não seja bom entendedor, com isso me basto. Sei que, quando um fala, o outro abaixa a orelha.
O povo tem razão, todo cuidado é pouco na hora do dizer. Mas não existe cristão que já não tenha mordido a isca e proferido uma idiotice de arrepiar tartaruga. Quando menos esperamos, a boca imprudente nos envergonha e nos expõe ao ridículo. Confesso que muita bobagem falei e tenho a doída certeza de que ainda outro tanto direi, mas continuarei, claro, falando. Assumo todos os riscos, porque se navegar é preciso, falar também o é. Estaremos sempre (fazer o quê?) no arame do possível desequilíbrio. Quem tem boca vai pra Roma, eu sei. Mas tal qual aquela senhora vaca, vai pro brejo também.
O autor é professor de redação e membro
da Academia Bauruense de Letras (ABL)