09 de julho de 2026
Geral

Mundo ganha um segundo a mais para ajustar relógios

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 4 min

 Malavolta Jr.

Este é o 26.º segundo adicionado desde 1972; foto é do Relógio da Torre da Igreja Santa Teresinha, em Bauru

O minuto entre 23h59 e 00h00 do último dia do mês de junho de 2015 durou um segundo a mais. O fenômeno, que ocorreu na noite de ontem, é resultado da necessidade em ajustar as chamadas escalas de tempo, que conectam natureza e tecnologia às diferenças do movimento irregular de rotação da Terra.


Perceptível aos minuciosos que definem segundos exatos em seus relógios e para os cientistas, que utilizam fragmentos do segundo em experimentos, a mudança em relação aos 61 segundos, contudo, não deve acarretar mudanças para a maioria das pessoas.


“Físicos e químicos que trabalham com experimentos como o acelerador de partículas, que depende dos milissegundos (um milésimo de segundo) e até de microssegundos (milionésima parte de um segundo), por exemplo, precisam se adaptar para evitar erros. Houve comentários de que a mudança também poderia acarretar atraso nas transações da bolsa de valores também. Mas, para a maioria ,é quase imperceptível”, avaliou o físico coordenador do grupo de astronomia do Centro de Física e Química da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) de Ilha Solteira, Claudio Luiz Carvalho.


Sistemas de navegação por satélite e sistemas de redes de computadores também estavam entre as possíveis vítimas do acréscimo do um segundo.


Desde 1972


Este seria o vigésimo sexto segundo adicionado aos relógios desde 1972, quando a correção começou a ser realizada pelo Serviço Internacional de Sistemas de Referência e Rotação da Terra (em inglês: International Earth Rotation and Reference Systems Service, IERS), organização responsável por manter padrões de referência e tempo globais, que anuncia os chamados “segundos de salto”.


“As 24 horas nunca foram exatas. A terra gasta cada vez mais tempo no movimento de rotação. Temos uma média de dois milésimos de tempo a mais por dia. A adição ocorre oficialmente hoje, mas a defasagem já vem há algum tempo”, comentou Carvalho. A última correção antes dessa ocorreu em julho de 2012.


Conciliar


Com o segundo adicional, cientistas buscam conciliar duas escalas de tempo, a medição do Tempo Universal (UT), que relaciona a rotação da Terra com sua posição em relação às estrelas, e a do Tempo Atômico Internacional (TAI), definido a partir de 1971 por um sistema de relógios atômicos – existem apenas algumas dezenas destes tipos de relógios no mundo.

A escala atual usada como referência é chamada de Tempo Universal Coordenado (UTC) – antes chamada de GMT-, que surgiu há algumas décadas justamente com a proposta de ajustar a defasagem entre os dois sistemas referenciais. Por isso, quando a diferença ultrapassa um nível de 0,9 segundos, o segundo suplementar é adicionado.


“O UTC é uma referência de temPo usada pela astronomia com base no meridiano de Greenwich”, finaliza Carvalho.


A Terra mais lenta e o Sol maior


O fenômeno da adição dos segundos ao longo das últimas décadas reforça a tese de que a Terra tem demorado cada dia mais para girar em torno de seu próprio eixo.


“A Terra está parando aos poucos, influenciada pela força gravitacional em relação à Lua, que está se afastando. A tendência é que o nosso satélite passe a se aproximar a interagir cada vez mais com Júpiter”, explica o físico Claudio Luiz Carvalho.


O reflexo, no entanto, só deve ser sentido daqui a algumas centenas de anos. “Só será mais perceptível ao longo das mudanças de estação”, frisa o físico.


Outro fenômeno interessante citado por ele é em relação ao Sol, astro que tem aumentado de tamanho a cada dia. “O Sol está morrendo, chegará um momento em que ele começará a inchar, atingindo Mercúrio e Vênus, podendo parar entre a Terra e Marte. Mas isso só daqui a 5 bilhões de anos”, finaliza Claudio Carvalho.


O segundo


Originalmente, o segundo deveria ser o tempo que o Sol a pino leva para percorrer a distância de 1/86400 da circunferência terrestre, ou seja, 462,962 metros na Linha do Equador. Hoje, o segundo é definido tecnicamente como a duração de 9’192’631’770 períodos da radiação correspondente à transição entre dois níveis do estado fundamental do átomo de Césio 133.


Júpiter e Vênus ficam mais ‘visíveis’


E a astronomia reserva mais novidades. Até o final da noite dessa quarta-feira (1), Vênus e Júpiter estarão mais visíveis a olho nu em qualquer parte do mundo. Isso porque os planetas, desde a semana passada, passam por um fenômeno que resultará na chamada “conjunção”, que, em termos não científicos, significa que eles estão alinhados e, por isso, ficaram mais visíveis aos olhos humanos.


“O fato de estarem mais aparentes não quer dizer que eles estão mais próximos a Terra. É uma impressão visual gerada pelo fenômeno”, comenta Rodolfo Langhi, coordenador do Observatório de Astronomia da Unesp de Bauru.


Em 2014, os mesmos corpos também estiveram alinhados. “Não é algo tão raro, mas muito interessante por proporcionar melhor visibilidade”, afirma Langhi. “Júpiter tem dezenas de luas, ao menos quatro delas podemos enxergar”, acrescenta.


O próximo fenômeno do tipo deve ocorrer em 18 de julho, quando a Lua se alinhará aos dois planetas.


No dia 25 de julho, o Observatório de Astronomia do Centro de Meteorologia da Unesp (IPMet) abrirá as portas ao público para observação da Lua e de Saturno, que estarão em posições privilegiadas em relação à Terra.