11 de julho de 2026
Articulistas

'Casa de Pelé' e o patrimônio cultural de Bauru

Fabio Paride Pallotta
| Tempo de leitura: 3 min

Bauru guarda um patrimônio cultural material e imaterial diversificado e muito importante, que ao longo do tempo foi sendo dilapidado por desconhecimento em se preservar marcas urbanas que dessem conta do surgimento e desenvolvimento da cidade. O café foi, sem dúvidas, o móvel que permitiu que ocupássemos essa região desenvolvida através das principais ferrovias de São Paulo que se encontravam em nosso território. Não por outros motivos recebemos centenas de pessoas de todas as partes do Brasil que vieram fazer da nossa cidade o que somos: bela e forasteira, moderna e tradicional, que encanta a todos ao mesmo tempo que alguns  trata com desdém, “Cidade de espantos !”, como diria o inigualável poeta Rodrigues de Abreu, que como forasteiro foi acolhido na cidade e teve dela provas de amor no sentido de tentar curar a tuberculose que acabaria por calar seu mais sensível admirador.

Vieram para a cidade pessoas de todos os tipos. Alguns conseguiram fama e fortuna, outros meios de ganhar a vida e fazer da cidade seu esteio e segundo lar e muitos outros ainda tiveram que sair da cidade conhecida como a “Entrada do Brasil Novo” para poder brilhar. Esse foi o caso do maior atleta do Século XX, Edison Arantes do Nascimento, mais conhecido como Pelé. Nascido em Três Corações, em Minas Gerais, veio com a família para Bauru, onde seu pai Dondinho - João Ramos do Nascimento – por aqui pegou gosto pelo futebol. Muita lenda existe em torno da sua estada em Bauru, mas o fato concreto é que ele foi para Santos e nunca mais voltou com o intuito de estabelecer laços mais fortes com o lugar que o viu dar os primeiros passos no sentido da sua glória no futebol. Pelé se foi e, como afirma o historiador Luciano Dias Pires, vinha para cidade passar fins de semana com a família, nunca chegando a morar na casa que foi demolida. Com isto, o que mais restou de sua passagem por Bauru?


O Bauru Atlético Clube deu lugar a um supermercado e a ferrovia que trouxe Dondinho e sua família, moribunda, tem seus espaços disputados pela iniciativa privada, sem a preocupação com a valorização do maior espaço de Arqueologia Industrial Ferroviária do Interior do Brasil com remanescentes de um tempo onde o país pensava seus destinos econômicos com alternativas modernas à produção do café. O que aconteceu com a “Casa do/de Pelé” acontece diariamente com todo o centro histórico da cidade, e todo o patrimônio ferroviário, que apesar de protegido por aberturas de processo de tombamento amparadas por leis federais, estaduais e municipais, esse Patrimônio Cultural vai se perdendo com a cidade perdendo também suas referências históricas.  


A “indignação” por esse fato fica a cargo da imprensa que noticia o que acontece, mas nada pode fazer no sentido de parar a “máquina de moer a história” que só pensa no lucro sem pensar em projetos que contemplem preservação, valorização e lucro. Foi assim com a locomotiva a vapor 401, que foi para Campinas e saiu na primeira página, e assim será com referências importantes para a cidade, como foi a “Casa de/do Pelé”. Sem ela, ficamos sem nenhuma referência física da passagem de Pelé pela cidade.


A “Casa de/do Pelé” seria mais um museu a sobrecarregar as finanças da Secretaria da Cultura? Não seria a hora de se discutir o Patrimônio Cultural de Bauru de forma profissional, com participação dos políticos da cidade e propostas que envolvam parcerias entre o poder público e o setor privado? Ou vamos aceitar o passado ser considerado apenas “curiosidade” e nada mais?


O autor é historiador em Bauru