09 de julho de 2026
Política

Sindicato denuncia desmonte de parte da ferrovia

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

Quioshi Goto

A Malha Oeste, que integra a antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil e um trecho da antiga Estrada de Ferro Sorocabana, está passando por um processo de desmonte

Responsável pelo surgimento e desenvolvimento de cidades como Bauru, no século passado, a Malha Oeste, que integra a antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil e um trecho da antiga Estrada de Ferro Sorocabana, está passando por um processo de desmonte. É o que afirma o Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias de Bauru, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, para quem demissões, desativações de trechos da malha e de setores de manutenção só comprovam a situação de abandono a que a ferrovia está sendo submetida.


Segundo a entidade, o processo de sucateamento teve início com a privatização do transporte ferroviário, em 1996, e vem se intensificando neste ano, com a fusão da concessionária América Latina Logística (ALL) com a Rumo Logística, ocorrida em abril. “Recentemente, por conta da precariedade da linha, quase toda a circulação de trens em um trecho de 700 quilômetros entre Três Lagoas e Agente Inocêncio (MS) foi extinta. De 80 composições que transitavam a cada mês, eles mantiveram apenas quatro. E só para dizer que não foi definitivamente abandonada”, comenta o coordenador geral do sindicato, Roberval Duarte Placce, acrescentando que 120 trabalhadores do Mato Grosso do Sul foram demitidos pela desativação de oficinas de manutenção de locomotivas.


A Rumo ALL já havia reduzido o tráfego de trens nos fluxos entre Campo Grande (MS) e Ponta Porã (MS) e entre Paulínia (SP) e Campo Grande. Por meio de nota, a assessoria de imprensa da concessionária informou que a redução do transporte de produtos perigosos neste último trecho se deu “por critérios de segurança, com objetivo de preservar a comunidade lindeira e o meio ambiente”.


Mas o coordenador do sindicato descreve que o abandono da malha férrea teve outros desdobramentos nos últimos anos. “Todas as oficinas de manutenção de locomotivas e vagões foram desativadas em Bauru em 2011, passando a ficar concentradas em Mairinque. Em 2014, também foi desativado o setor de manutenção de máquinas mecanizadas da via permanente, que foi transferido para Rio Claro”, enumera Placce.


Acidentes e furto


De acordo com ele, somente no ano passado, seis funcionários foram demitidos em Bauru. Na base sindical que Placce coordena, o número de trabalhadores caiu de 1,8 mil, em 1996, para os atuais 480. Questionada, a Rumo ALL não se manifestou sobre as afirmações.


Mas acidentes constantes e até ocorrências policiais envolvendo a malha da região reforçam que faltam investimentos nas ferrovias. Há algumas semanas, três vagões tombaram e outros oito descarrilaram no município de São Manuel.


Na manhã do último dia 17, conforme o JC noticiou, 60 quilos de cobre foram levados de vagões que estavam estacionados na estação ferroviária de Bauru, sem que ninguém percebesse. Somente no final da tarde, vigilantes deram falta do material, que acabou sendo recuperado no Distrito Industrial, onde um homem de 37 anos e o filho adolescente, de 13 anos, caminhavam com um saco contendo as peças furtadas.


Para Placce, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) vem sendo conivente com o abandono, já que não exige da Rumo ALL os investimentos previstos no contrato de concessão. Por meio de nota, a agência reguladora informou desconhecer “qualquer desmonte na prestação de serviço ou na malha referente à cidade de Bauru”, mas recebeu denúncia e irá apurar eventual desativação de trechos ferroviários no MS.

Vagões na ‘cracolândia’?


A operadora de telemarketing Rita do Carmo Germano Pires, 40 anos, relata que confirmou junto à prefeitura que a Rumo ALL tem planos de deixar vagões inutilizados nos trilhos desativados que passam próximo à sua casa, localizada na quadra 3 da rua Santo Antônio, na Vila São João. O endereço fica próximo ao local onde usuários costumam consumir drogas e a moradora está preocupada com os problemas que a medida poderá trazer.


“O entorno já é muito escuro, o que favorece a aglomeração dos usuários. Os vagões, quando chegarem, certamente servirão de esconderijo para o consumo de drogas”, frisa.  Nesta semana, segundo Rita, a concessionária providenciou a troca de dormentes no trecho para que os vagões possam ser trazidos para o local. Com o apoio de algumas moradoras, ela tenta mobilizar a vizinhança para impedir a execução do plano da Rumo ALL.


Vereador vislumbra futuro ainda mais negativo


A ALL assumiu a Malha Oeste em 2006 e, neste ano, segundo o vereador e ex-ferroviário Roque Ferreira (PT), 2,5 mil vagões foram transferidos para o Paraná, para atender à demanda de transporte de grãos. Atualmente, as linhas da Malha Oeste levam ao porto de Santos combustíveis, celulose e, saindo de Bauru, material siderúrgico.


Mas, pelos riscos implicados principalmente para o transporte de materiais considerados perigosos, o serviço vem sendo cada vez mais restringidos. “A solução é desativar as linhas? O governo federal deveria estar exigindo os investimentos necessários”, comenta o parlamentar.


Ele lembra que a estratégia da Rumo ALL é começar a transportar celulose de Três Lagoas a Santos por meio da Ferronorte, retirando este produto da Malha Oeste. “Já o projeto de transportar grande quantidade de minério de ferro de Corumbá ao porto de Santos deixou de existir. Então, em tese, este trecho que passa por Bauru praticamente não teria mais utilidade para a concessionária, que não vê vantagem em gastar dinheiro com investimentos”, observa.


Ainda de acordo com Roque, a entrada da Rumo, empresa do grupo Cosan, deverá fazer com que a concessionária privilegie o transporte de longa distância de cargas de grande volume e baixo valor agregado. “A produção diversificada que poderia passar pela ferrovia não é interessante e isso é muito ruim para o País. O transporte por rodovias encarece os produtos para o consumidor final”, comenta.