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Fotos: Quioshi Goto |
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MMDC: Viaduto que corta a Nações lembra morte de estudantes |
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Monumento antes “itinerante” agora descansa em paz no Cemitério da Saudade, em Bauru |
A chamada Revolução Constitucionalista de 1932, protagonizada pelo Estado de São Paulo e celebrada no feriado deste 9 de Julho, contou com importante participação de Bauru. Além dos números batalhões que partiram daqui, segundo memorialistas, a cidade e sua malha ferroviária eram consideradas estratégicas em função de sua localização geográfica, no Centro do Estado, e da efervescência local em torno do movimento. A constatação se reflete hoje nas mais de 10 homenagens espalhadas pelo município, referentes aos insurgentes contra Getúlio Vargas, que exigiam uma nova Constituição Federal dois anos após a instituição de seu “governo provisório”.
A luta armada, que teve início há exatos 83 anos, é lembrada direta ou indiretamente por nomes de duas praças, quatro ruas, uma avenida, um bairro, dois viadutos e em um monumento, que, hoje, “descansa em paz” na frente do Cemitério da Saudade.
O trocadilho é do memorialista Irineu Bastos. Ele conta que a homenagem foi construída em 1936, mas nem sempre esteve no mesmo lugar. Inicialmente, a confluência da avenida Rodrigues Alves com a rua Gustavo Maciel abrigava a edificação.
Depois, o monumento foi transferido para a mesma avenida, dois quarteirões adiante e, dali, para uma das praças denominadas Nove de Julho, em frente à Instituição Toledo de Ensino (ITE), que hoje ostenta a réplica da Torre Eiffel.
A fachada o quartel da Polícia Militar na Vila Cardia também chegou a receber a obra, que, no entanto, foi desmontada e guardada no almoxarifado da prefeitura, no Jardim Redentor, por alguns anos, até ser recuperada – apesar de ter perdido algumas de suas peças – e levada ao cemitério.
Além da que fica em frente à ITE, outra praça de Bauru, no Distrito de Tibiriçá, tem o nome de Nove de Julho, bem como uma rua, no Jardim Carolina, e o viaduto que liga o Centro da cidade à Vila Falcão.
23 de Maio
O viaduto que sobrepõe a avenida Duque de Caxias sobre a Nações Unidas é chamado de 23 de Maio e, como explica Irineu Bastos, também faz remissão à revolta constitucionalista. Essa foi a data da morte de quatro estudantes da Faculdade de Direito do Largo do São Francisco em confronto com militares governistas, antes mesmo do início oficial da luta armada.
Eram eles Euclides Bueno MIRAGAIA, Mário MARTINS, DRÁUSIO Marcondes de Sousa e Antônio CAMARGO de Andrade, cujas iniciais deram origem à sigla MMDC, nome de uma organização clandestina que, dentre outras atividades, fornecia treinamento militar para a guerrilha.
Combatentes mortos são lembrados por ruas
Dentre os combatentes de Bauru, três civis morreram durante a revolta e, posteriormente, deram nomes a ruas da cidade: Agenor Meira, Alfredo Ruiz e Rubens Arruda – todas localizadas na região Central.
Os dois últimos morreram nos dias 14 de agosto e 14 de julho de 1932 e, respectivamente, foram sepultados em Itapira e Capão Bonito.
Irineu Bastos relata que Agenor Meira também fora enterrado fora de Bauru, no município de Queluz. Em 1 de agosto de 1934, no entanto, seus restos mortais foram trazidos solenemente para Bauru.
Na década de 1970, houve novo translado. Desta vez, para o mausoléu construído no Parque Ibirapuera, em São Paulo, em homenagem aos constitucionalistas. Antes de seguir para a capital, porém, os restos mortais de Agenor Meia foram velados na Câmara Municipal, passaram por cortejo ao longo da Batista de Carvalho e conduzidos à Catedral.
A avenida Pedro de Toledo, continuação da Rodrigues Alves, também homenageia um constitucionalista. No caso, o ex-governador do Estado, Pedro de Toledo, que, apesar de nomeado por intervenção de Getúlio Vargas, aderiu ao movimento paulista. Após a derrota da revolta, o jornalista do O Estado de S. Paulo e fundador da Academia Paulista de Letras fora preso e exilado, tendo voltado doente para o Brasil em 1934 e falecido pouco tempo depois, no Rio de Janeiro.
Dentre os militares de Bauru, foi de 16 o número de mortos, de acordo com o memorialista Irineu Bastos.
‘Bauru avante!’
O memorialista Luciano Dias Pires destaca a importância de Bauru na revolução de 1932. No suplemento Bauru Ilustrado, no último sábado, ele cita que ao fim do levante apenas a cidade e outros três municípios foram ocupados militarmente. “Todos sabiam que daqui havia partido numeroso batalhão de revoltosos, não só para as divisas de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná, mas também para onde tropas originárias de Bauru, aliadas a outras, pressionavam algumas guarnições no sentido de aderirem à rebelião”.
Luciano pontua que, das principais cidades das zonas Noroeste e Paulista, os voluntários eram encaminhados para cá. “Não faltam nem mesmo os índios de Araribá, afetados pela vibração cívica dos paulistas”. Na cidade, as tropas do “Batalhão Noroeste” eram formadas e partiam para o combate. Irineu Bastos relata que a mulher bauruense também se aliou. A Cruzada Feminina tinha sede em um velho prédio na rua 1 de Agosto. “Reunia senhoras e senhoritas de todas as classes sociais”.
Data tem um bairro para chamar de seu
Bauru tem até um bairro chamado Nove de Julho. Trata-se de um núcleo habitacional idealizado há 34 anos, na região do Parque Jaraguá. Centenas de casas foram construídas pelos próprios moradores, escolhidos por sorteio. Elizabete Sodré da Silva foi uma delas e mora no mesmo local até hoje, mas não se lembra como nem quem batizou o conjunto. “Trabalhei para erguer tudo isso aqui. A gente ajudava os pedreiros todos os dias à noite, depois do trabalho. Meu marido era doente e não conseguia vir. Então, muitas vezes, trazia meus seis filhos e botava a mão na massa”, conta ela.
‘Patriotismo paulista’ foi determinante
Getúlio Vargas percebeu clima de insurgência, devolveu algumas prerrogativas a São Paulo, mas não a tempo de evitar a rebelião que tomara as ruas
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Aceituno Jr./Arquivo |
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Sonia: “Havia razões politicamente éticas para as reclamações” |
Motivada por interesses da elite paulista, que perdeu a hegemonia da política nacional após a chegada de Getúlio Vargas ao poder dois anos antes, a revolta de 1932 conseguiu mobilizar a população de todo Estado, levando cerca de 20 mil pessoas a pegar em armas contra o governo federal.
Beneficiados pela Constituição de 1891, os fazendeiros de café dominaram a política do País até o enfraquecimento do setor provocado pela crise mundial de 1929, que assolou os EUA e a Europa, principais importadores do produto agrícola. O cenário favoreceu a revolução do ano seguinte, idealizada por outros grupos.
Com a ascensão do gaúcho Getúlio Vargas, que instalou a sede do novo governo na então capital federal, o Rio de Janeiro, a elite paulista hegemônica (da Velha República, do Café com Leite) sentiu-se alijada do poder. A inabilidade inicial do presidente insuflou ainda mais a revolta, com medidas como a destituição dos governadores e nomeação de interventores. Para São Paulo, por exemplo, foi escolhido um nordestino e tenentista.
“O governo provisório que teve início em 1930 e seguiu até 1934 já era uma ditatura. Getúlio nunca foi nem fingiu ser um democrata. Estávamos sem uma Constituição. Havia razões politicamente éticas para as reclamações”, pontua Sonia Mozer.
RECUO EM VÃO
A historiadora pontua que, ao perceber o clima de insurgência, Getúlio convocou eleições para uma Assembleia Constituinte [eleita em 1933 e que resultou na Constituição Federal de 1934], devolveu o comando da Força Pública – atual Polícia Militar – ao Estado e até nomeou um paulista [jornalista Pedro de Toledo] como interventor.
Os acenos getulistas, porém, foram insuficientes para conter a animosidade instaurada entre os revoltosos. “Não foi possível deter o movimento porque a elite não aceitava Vargas e a efervescência da população era muita. As pessoas ficaram imbuídas de uma espécie de patriotismo paulista; uma força emocional regional”, diz Sonia. Ela destaca ainda o engajamento de jovens estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. “Claro que vinham da elite, mas eram também idealistas. Participaram da Semana de Arte Moderna de 1922 e até de movimentos com reivindicações trabalhistas”.
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Cartaz da convocação para 32 |
A historiadora Sonia Mozer explica que os veículos de comunicação desempenharam um papel crucial neste sentido, com destaque especial para a “novidade” do rádio.
O jornal O Estado de S. Paulo, da família Mesquita, já propagava as ideias que alimentavam o movimento regional. Contudo, na década de 1930, as famílias operárias conseguiam comprar seus aparelhos de rádio à prestação e foi justamente pelas ondas eletromagnéticas que a efervescência tomou as ruas.
“Aquele foi um momento importante para o rádio no mundo. Hitler foi um dos primeiros a perceber a sua força e o nazismo penetrou na sociedade alemã por meio do rádio que, por aqui, também transformou-se em poderosa forma de convencimento. O próprio Getúlio percebeu e criou o equivalente à Voz do Brasil”, afirma Sonia Mozer.
Rápido
Sonia Mozer observa que o prolongamento da revolta paulista por três meses antes da redenção foi praticamente milagroso. “Alguns estudiosos afirmam que São Paulo perdeu a batalha nas primeiras 24 horas”.
Dados apontam que o Estado contava com 20 mil pessoas lutando, enquanto as tropas federais tinham mais de 50 mil.
“Por conta de acomodações e afagos políticos, São Paulo não recebeu os apoios esperados do Rio Grande do Sul, Minas e Mato Grosso.”. Após a derrota, segundo ela, as retaliações de Getúlio foram menores do que se esperava, os exilados foram enviados a Parise as anistias vieram rapidamente. “Aos mortos? Ficaram as homenagens em monumentos e nomes de ruas. Essas avaliações, 83 anos depois, podem passar a impressão de que as pessoas perderam as vidas em vão ou estavam equivocadas. No entanto, elas tomaram aquelas decisões com as informações que tinham naquele momento”.
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Casimiro Pinto Neto, criador do lanche bauru, participou da campanha paulista |