09 de julho de 2026
Geral

O "russo de Bauru" e os girassóis

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 7 min

Arquivo Pessoal

Registro de batismo do mecânico da ECCB Vladimir Popoff, nascido na Índia, durante a fuga dos russos

A história, por vezes, escolhe cores e rotas não ao acaso. Para o chefe da oficina mecânica da frota da extinta Empresa Circular Cidade de Bauru (ECCB), o siberiano nascido na Índia Vladimir Popoff, o amarelo da carroceria dos ônibus coletivos da empresa simbolizou, por 21 anos, reformar o elo com as sementes de girassol que dominavam os campos do antigo Império russo, de onde veio sua família. Morador em Bauru desde julho de 1977, Popoff reconta, com a esposa Therezinha de Carvalho, a saga dos russos que fugiram do comunismo stalinista, em 1930, até vir trabalhar como mecânico em Bauru.

Filho do casal siberiano Dimitri e Zinaída, nascidos na então cidadela camponesa de Malechef Log, na época estado de Slavgorat, Sibéria, Vladimir Popoff nasceu durante a fuga do “grupo girassol”, formado por famílias de russos que enfrentaram as geleiras e picos do Monte Palmir no prolongamento do Himalaia, a fome, contrabandistas afegães e o risco de deportação e morte se fossem pegos pelo exército russo comandado pelo ditador Joseph Stalin.

A saga da Sibéria até Bauru será transformada em livro, a partir de memórias registradas pela esposa de Popoff, a professora Therezinha de Carvalho Popoff, junto a integrantes do grupo, sobretudo a partir das longas conversas com a sogra Zinaída.

Neste domingo de julho, a família comemora exatos 80 anos da chegada ao Brasil no texto batizado por Therezinha como a história dos “girassóis e o novo mundo”. A moldura desse elo tem início exatamente nas plantações de semente da flor amarela, alimento do dia a dia dos siberianos desde o início do século passado.  Dona Zinaída, mãe de Popoff, passou a infância no meio das plantações de girassol em Malechef Log.

Mas os trabalhadores das plantações dos antigos czares eram proibidos de comer a semente. O mecânico conta que a jovem Zinaída, sua mãe, teve de fugir de Malechef após ter sido surpreendida com um punhado de sementes que colhera para matar a fome. “Convém dizer que os russos gostam muito de comer sementes de girassol, delícia que havia em fartura por lá. Mas naquela época, o regime stalinista punia com 10 anos de prisão qualquer um que deixasse de seguir qualquer regra”, diz.

Porém, a decisão de fugir não foi pela punição em si, mas da mordaça do comunismo e da exploração imposta aos camponeses siberianos com a ascensão de Stalin ao poder. “Zinaída contou que saíram à noite em uma caminhada inicial de 25 quilômetros até Pospélika, onde morava um primo de Dimitri. O marido esperou mais 20 dias para vender seu cavalo e ir ao encontro da esposa. Nascia ali o grupo girassol, que anos depois desembarcou em Santos, no Brasil, em busca de oportunidade no novo mundo”, conta Therezinha.

Popoff reconta que a partir da ação de seus pais, o grupo de siberianos decidiu tentar entrar no Afeganistão. “Mas o canal que dividia a Rússia do Afeganistão na época era largo e profundo. Os russos compravam água do Afeganistão. Eles contaram com ajuda de um contrabandista afegão, em troca de uma máquina de costura”, descreve o filho a partir do que lhe fora contado pelos pais.     

O grupo girassol foi aumentando à medida dos encontros na fuga. Foram dezenas de quilômetros percorridos a pé, com poucas roupas e alguns pertences. “Meus pais contaram que em janeiro de 1933, no dia da travessia para fora da Sibéria pelo Afeganistão, a noite estava bem escura. Eles disseram que foi um desespero alcançar o outro lado do canal. Do lado de lá, foram várias vezes ameaçados por soldados russos, mas persistiram caminhando vários dias pela fronteira. A princípio procuravam apenas um lugar onde comer e trabalhar”, menciona.

Sem forças para prosseguir, o grupo não teve outra alternativa a não ser se apresentar a um posto policial afegão. Apesar do risco, conseguiram três camelos e um soldado para guiá-los. “Se fossem presos e devolvidos aos russos, seriam mortos. Tiveram sorte e seguiram mais três dias a pé até Hanabat, uma cidade boa para a época. De lá foram também em caminhada até Mazarcherif, mas acabaram retidos para interrogatório em um quartel”, descreve a professora Therezinha a partir do que lhe contou a sogra Zinaída.


Militar inglês prometeu ajudar russos

Popoff conta que os militares afegãos queriam devolver o grupo, que a esta altura já era formado por algumas famílias. “Mas um militar inglês intercedeu em favor do grupo e insistiu para que deixassem que os russos seguissem até a fronteira com a Índia. Esse militar, me contou mamãe, havia prometido ajudar qualquer russo que encontrasse pelo caminho porque um dos nossos o ajudou a escapar vivo na Primeira Guerra Mundial (1914-1917), escondido em uma carroça. O inglês era influente e os afegãos arrumaram guardas para conduzir o grupo até a passagem para a Índia”, prossegue Popoff.

Therezinha complementa, entretanto, que “Zinaída disse que a esta altura o grupo já se arrependera da fuga. Enfrentaram frio, fome, se esconderam em buracos, subiram por dias as montanhas de Palmir onde as geleiras refletiam muito forte a luz do sol. Se olhassem por muito tempo ficariam cegos. A certa altura tiveram de comer cozido um cavalo morto encontrado na geleira”.

O grupo girassol não sabia ao certo para onde ir. Após a travessia de um rio congelado, alguns foram para a esquerda.

“Além do desespero, viram tio Nikita com a família Chabalin ir para a esquerda, o que significava ir para a China. Meus pais foram para o outro lado e acessaram uma região neutra, sem governo na ocasião. Lá só havia pastoreio de rebanho. Ao longo do percurso foram se juntando outros fugitivos. Acharam uma cabana e, dado o tamanho, tiveram de dormir em pé para livrar todos do frio extremo”, menciona Vladimir.

Na caminhada até Mazarcherif, o grupo tinha só a roupa do corpo. “O que tinham foram trocando por comida com camponeses, grupos de pastoreio. Meses depois chegaram à Índia e, enfim, conseguiram banho e comida em casas de rajás (ricos). Os indianos foram solidários. Lá conseguiram viver em aldeias e trabalhar. O governo dava moradia. Minha mãe contou que tudo caminhava bem, até que meu pai pegou tifo e foi desenganado no hospital. Minha mãe o atendeu sozinha. Uma noite, com a voz trêmula, ele pediu coalhada. Ela passou a dar coalhada pra ele todos os dias. Semanas depois ele sarou”, conta Popoff.

Recuperado, Dimitri e a esposa foram alcançar o grupo que seguira para Bangalor.


O trem e o navio Paquebot Florida

A partir da chegada em Bangalor, na Índia, o grupo girassol juntou 50 russos. Dimitri foi garçom, depois mecânico. O mecânico de Bauru, Vladimir, nasceu em 30 de maio de 1934. O padrinho foi um senhor anglo-hindu, que ele nunca mais viu. A vida do grupo estava estabilizada, quando chegou a notícia de que a Companhia Inglesa oferecia terras no “novo mundo”, no Norte do Paraná.

De trem, o grupo decidiu tentar a vida em outro continente. De trem foram a Madraz até chegar a Marselha (França), onde a Liga das Nações organizava a expedição no navio Paquebot Florida, que serviu na 1.ª Guerra.

O garotinho Vladimir Popoff desembarcou com o grupo girassol no Brasil exatamente em 5 julho de 1935, há 80 anos. “Vivia nos braços de mamãe. Do desembarque em Santos o grupo seguiu de trem até a região de Três Bocas, há 15 quilômetros de Londrina, cidade que dá o nome ao lugar hoje”, comenta. Londrina foi emancipada naquele mesmo ano.

Popoff conta que Bárbara, hoje com 94 anos e morando em São Paulo, era a mais velha da turma de crianças do grupo. “Na chegada a Santos, a Bárbara, filha do tio Nikita Polhski, tinha uns 10 anos. Ela se recorda ainda do desembarque”, contou. Por telefone, Bárbara contou a Popoff que o grupo girassol só se fixou em terras brasileiras alguns dias depois.

Os Popoff ficaram 22 anos no sítio, onde plantaram. Depois foram para a cidade, onde Vladimir comprou caminhão e montou uma oficina. Na vizinhança conheceu Therezinha, que cuidou de registrar todos os passos da saga em texto. A professora foi lecionar em Marília. O marido se especializou em oficina, até que foi contratado para ser chefe da oficina da frota da ECCB, em julho de 1977.

Vladimir trabalhou por 21 anos na ECCB, extinta em 1998. Therezinha deu aulas no Colégio Luiz Braga. Guardam na casa na Vila Universitária as memórias e a toalha em linho, com crochê feito por Zinaída, o tecido branco guardado por décadas. “Quero que meus netos e bisnetos conheçam essa história, e por isso resolvi escrever cada passo dessa trajetória linda e de muito sacrifício”, finaliza Therezinha.

Montagem com a foto de Vladimir Popoff mostra ao fundo a rota da fuga até o Brasil