08 de julho de 2026
Geral

Da Sibéria até Bauru

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 5 min

Zinaída (1913) e Dimitri (1906) nasceram em Malechef Log, na época estado de Slavgorat, Sibéria.

A região sofreu diversas modificações em sua divisão geopolítica a partir do comunismo e da era Stalin na antiga União Soviética.

O mapa acima mostra a geopolítica atual da região, que também foi modificada para países como onde hoje estão o Cazaquistão e Afeganistão.

Nascidos em Malechef Log, os Popoff trabalharam na região e lavoura, sendo Dimitri carroceiro e Zinaída frentista dos tratores e colhedeiras da época.

Zinaída colheu sementes de girassóis para comer, o que era proibido e dava prisão por 10 anos. Denunciada por uma moscovita, Zinaída iniciou sua fuga antes de Dimitri. Começava ali a fuga contra o comunismo e por um novo mundo.

Ela saiu à noite e caminhou 25 km até Pospélika, onde morava um primo de Dimitri. Este esperou 20 dias para vender seu cavalo e fugir ao encontro de Zina.

Eles se reencontraram para ir a Frunza, onde ficaram mais dois meses na companhia dos tios Teodoro e Nikita. Reunidos os familiares, eles formaram o “grupo girassol”.

Seguiram para Stanilab, ainda na Sibéria, próximo da fronteira com a China na época, mas lá não encontraram trabalho. Mas aceitaram puxar água do rio Murdalhiá, no período a antiga divisa com o Afeganistão.

O território russo era separado do Afeganistão, ao sul, por um canal profundo e largo. Ali o grupo Girassol pensou na fuga da Rússia, realizada em janeiro de 1933.

A fuga contou com a ajuda de contrabandista afegão, em troca de uma máquina de costura. Levaram apenas algumas panelas e roupas, além de documentos pessoais. Eram 17 no grupo inicial.

A travessia foi escondida. Do outro lado, sem saber pra onde ir, caminharam até encontrar um posto policial afegão. Policiais arrumaram camelos e os levaram até um quartel em Aktcha.

O grupo permaneceu confinado em uma sala por três dias, dormindo no chão duro e comendo pão turco. De lá foram levados, a pé, até Hanabat e depois para Mazarcherif para interrogatório.

Com fome, o grupo girassol conseguiu autorização para cozinhar um cavalo morto para matar a fome. Ficaram um mês no quartel, sob ordens do governo afegão de serem devolvidos à Rússia. Foram salvos por um militar inglês que, ao saber do grupo, interferiu junto ao governo para que os deixassem seguir para a Índia. E assim foram salvos.

O inglês havia sido pego na Rússia e conseguiu escapar da forca em uma carroça de camponeses. Por isso, o inglês jurou ajudar russos em dificuldade.

No quartel de Mazarcherif o grupo de fugitivos presos no Afeganistão aumentou. O governo aceitou liberar o grupo até a fronteira com a Índia. Soldados acompanharam a caminhada.

Atravessaram rios na planície afegã em direção às montanhas de Pamir, prolongamento da cordilheira do Himalaia na região. Sofreram com o reflexo do sol na geleira. Pelo menos um ficou cego.

As trilhas do alto do Pamir eram em zigue-zague. Evitavam errar o trajeto na divisa com a China, onde seriam deportados. A esta altura o grupo estava com 70 pessoas. Um grupo se  dividiu. Entraram na Índia com a roupa no corpo, o resto foi trocado por comida.

Na Índia foram recebidos por ricos (rajás) em uma fazenda. O rajá deu comida, banho e um cavalo para irem até Guilguit, uma cidade maior, onde ficaram por conta do governo indiano. Lá encontraram outro grupo russo, os Sakolof.

Conseguiram cavalos pra ir até o estado de Cachimir, onde foram aceitos, em Sirinagar. Foram transportados de bote rio abaixo, até a cidade flutuante, onde foram hospedados.

Ficaram lá até novembro de 1933, quando o grupo foi para Bombaim. Dimitri pegou febre tifoide. Dado como morto, Dimitri recebeu os cuidados de Zinaída e, alimentado com coalhada, superou a febre, dois meses depois.

O casal foi atrás do grupo de carona, em uma caminhão, até Ravalpendi e, de lá, foram de trem até Bangalor, por oito dias. Tinham uma mala, um balde com ovos cozidos e pão. O grupo se reencontrou em Bangalor, agora com 50 pessoas.

O risco de deportação, enfim, acabara. Permaneceram por mais de um ano em Bangalore. O governo indiano dava comida. Dimitri trabalhou como garçom, oficina mecânica e depois leiteria e as mulheres atuaram em faxina.

O primeiro filho do casal, o hoje bauruense Vladimir Popoff, nasceu em 30 de maio de 1934, em Bangalor.

A vida na Índia seguia bem, mas o grupo girassol aceitou convite dos ingleses para ocupar o norte do Paraná, no Brasil. Largaram tudo e seguiram de trem até Madraz e depois para Marselha (França), uma viagem de 28 dias.  

Esperaram uma semana em Marselha, até a formação do grupo pela Liga das Nações. Embarcaram no navio alemão Paquebot “Florida”, a última viagem da embarcação após a Primeira Guerra.

Em 14 dias chegaram ao Porto de Santos, com o documento de desembarque de 5 de julho de 1935, há exatos 80 anos e uma semana.  

A família Popoff, com Vladimir tendo 11 meses, realizou a viagem inaugural de trem até o vilarejo de Três Bocas no Paraná, emancipada à cidade de Londrina, alguns dias depois. Até então, o trem ia somente até Ourinhos (SP). A Companhia do Norte do Paraná, dos ingleses, distribuiu cinco hectares para cada família.

O assentamento dos russos em terras brasileiras, incluindo o hoje bauruense Vladimir Popoff, aconteceu, portanto, há exatos 80 anos, naquele julho de 1935.   

Os russos moraram 22 anos no sítio. Lá, os Popoff tiveram seis filhos, sendo três ainda vivos. A família resolveu ir para a cidade e lá Vladimir trabalhou em oficina, como o pai na Índia.

Vladimir Popoff montou sua oficina e comprou um caminhão. Na vizinhança, conheceu a moça Therezinha de Carvalho, com quem iniciou namoro.

Therezinha e Vladimir casaram, ela formou-se professora e foi lecionar em Marília. Ele seguiu para lá. Foram 20 anos em Marília até que, em julho de 1977, ano em que sr. Dimitri faleceu, Vladimir veio ser chefe de oficina de ônibus coletivos na ECCB em Bauru.

Na ECCB, Vladimir trabalhou por 21 anos. Aposentou em 1986, mas deixou a empresa em 1998. Therezinha lecionou em Bauru, no Colégio Luiz Braga, no Jardim América. E aqui moram, felizes, na Vila Universitária, onde tiveram três filhos, Marcelo, Antonio Carlos e Vladimir.