09 de julho de 2026
Geral

Mulher com câncer vive sem energia, água e até banheiro

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 4 min

Quioshi Goto
Medo: Regiane fala que seu maior temor é perder a guarda dos outros dois filhos

A impressão que se tem ao notar a geladeira, o microoondas, o ventilador e dois televisores em um dos dois cômodos da casa de Regiane Hilário Batista Godoy, de 30 anos, é de que a família possui condições mínimas de moradia e sobrevivência. Mas não é bem assim. Os eletrodomésticos não funcionam por falta de energia elétrica no casebre, localizado na Vila Dutra, que também não possui água encanada e nem mesmo banheiro ou fossa.

Há mais de um ano, Regiane Hilário mora no local com seus dois filhos de 10 e 15 anos, e cuida da mãe, Cleusa Hilário, de 50, que é cardíaca e possui outros problemas de saúde.

Diagnosticada com um câncer no útero, Regiane, que trabalhava há menos de quatro meses como auxiliar de limpeza em uma empresa, viu seu sonho de conquistar uma moradia decente para a família cair por terra.

Analfabeta declarada, ela diz que foi influenciada por colegas a deixar o emprego para tratar da saúde, mas acabou saindo há dois meses sem acerto algum.

Sobrevivendo de doações de vizinhos e conhecidos, a mulher, que teve diagnóstico da doença há três meses já em estágio avançado, realizará hoje a tarde uma cirurgia de urgência no Hospital Estadual para a retirada do câncer.

Com medo das consequências da doença, ela teme pelos filhos e pela mãe, que auxiliará no cuidado com as crianças, junto com uma irmã, enquanto estiver internada.

Drama

Quioshi Goto
Banho: a família guarda, em um galão, a água doada pelos vizinhos para fazer a higiene pessoal

Enquanto explicava a situação, Regiane, que já teve dois filhos tomados e levados para adoção há cerca de uma década, conta que sempre morou em uma favela no Parque Real, mas que o local possuía água encanada e energia.

No entanto, há um ano ela deixou a casa e um antigo companheiro. Com a voz trêmula e as mãos apertadas, fala que seu maior medo é perder a convivência com os outros dois filhos. E o maior sonho? Poder dar melhor condição de vida para as crianças e a mãe. “Eu queria muito poder voltar a trabalhar e dar a eles uma vida em uma casa mais aconchegante, que tenha água e luz”, afirma. “Em 30 anos, nunca passeamos em um shopping. Nunca sequer levei meus filhos a um mercado ou sentamos todos juntos para comer na mesa. Isso é triste demais, eu choro às vezes porque tenho vergonha”.

Sem renda

Nenhum dos filhos que mora com ela recebe pensão. O garoto de 10 anos, inclusive, não seria cadastrado nos programas sociais do governo federal, que garantem bolsa a pessoas que convivem com a vulnerabilidade.

“Acabei não correndo atrás, trabalhava o dia todo”, afirma, cabisbaixa. “A única ajuda que recebemos hoje é uma cesta básica do Cras (Centro de Referência de Assistência Social da Secretaria do Bem-Estar Social), uma vez por mês”, reforça Regiane.

“Só não passamos fome porque os vizinhos são muito bons com a gente”, frisa.

Sem pia

Sem pias ou chuveiro, a água emprestada e usada para higiene pessoal e limpeza é guardada em um galão. Há uma semana, após doação de vizinhos, a casa ganhou porta.

O gás do fogão também foi doado há alguns dias, assim como o gelo que refrescava alguns mantimentos em uma caixa de isopor ontem.

Sem função, a geladeira virou apenas mais um armário. Os cobertores e lençóis amarrados nas janelas têm como missão substituir os vidros.

“Recebemos bastante doação, então não passamos tanto frio”, detalha Regiane.

O problema maior é quando chove: a casa possui falhas nas telhas e não tem forro.

Mesmo assim, Regiane tem feito esforço para garantir que o aluguel de R$ 150,00 seja pago em dia. “Nunca atrasei, mas ele já avisou que teremos que sair no mês que vem”, lamenta a mulher.

Mobilização para ajudar

Mobilizados com a situação da família, um grupo de voluntárias criou há menos de um mês uma página no Facebook chamada “Vamos ajudar a Regiane!”. Após a formação, a equipe já conseguiu uma porta e mantimentos.

O casebre no qual Regiane mora com a mãe e os dois filhos fica aos fundos de um terreno na quadra 4 da rua Joaquim da Conceição Mattos, na Vila Dutra. A casa dela é a única da quadra em situação tão precária.

Ao tomar conhecimento da situação da família, ao final da tarde dessa segunda-feira (13), a titular da Sebes, Darlene Tendolo, disse que, por conta do adiantado da hora, não seria possível confirmar em quais programas a família está realmente cadastrada e que tipos de benefícios já recebe ou recebeu.

Darlene, contudo, disse que hoje pela manhã realizaria uma visita ao local pessoalmente. “Não podemos deixar isso acontecer de forma alguma. Temos vários programas direcionados para essas pessoas, em vulnerabilidade e extrema vulnerabilidade”.

A secretária também pontua que a Sebes age com foco no fortalecimento dos vínculos familiares. “Daremos a estrutura necessária para que isso aconteça, se essa for a vontade deles”, fecha questão.

Serviço

Interessados em ajudar a família podem entrar em contato com ela até hoje as 14h (antes da cirurgia) pelo celular (14) 99831-7376. A mãe dela, Cleusa Hilário, atende no (14) 99621-5329.