09 de julho de 2026
Articulistas

Empréstimo consignado: juros baratos?

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 2 min

O governo ampliou de 30% para 35% o comprometimento de renda daqueles que utilizam do denominado empréstimo consignado, aquele que é descontado na folha de salários. Os cinco pontos percentuais a mais serão destinados à quitação do rotativo do cartão de crédito. Sem dúvida é uma troca vantajosa ao devedor, à medida que os juros para quem não paga a fatura integralmente no cartão de crédito são muito salgados, podendo atingir 14% ao mês ou 381,79% ao ano.


Por outro lado, como a taxa de juros na modalidade de empréstimo consignado, bem negociada, atinge em média 30% ao ano, passa a sensação de que esta taxa é baixa, e não é. Alguns parâmetros para comparação: reajuste salarial anual girando na casa dos 8%; inflação projetada para este ano na casa dos 9%. Observem que 30% são bem acima, principalmente, do reajuste anual da renda dos trabalhadores.


O que está em jogo é o endividamento das famílias. A facilidade em buscar novos empréstimos, ampliando para 35% o comprometimento da renda mensal, pode levar a ampliação deste endividamento e aumentar a inadimplência. Alguém que tenha renda de R$ 2.000,00 comprometerá mais R$ 100,00 além dos R$ 600,00 até então permitidos e poderão faltar recursos para pagar as demais despesas da casa, inclusive os valores gastos em farmácia e outras despesas importantes.


Devemos ainda considerar que a facilidade em contrair empréstimos nesta modalidade, inclusive em alguns casos o empréstimo é efetuado até para os negativados (incluídos banco de dados dos maus pagadores), tem levado a emprestar recursos para o filho, neto, enfim, muitos familiares estão pegando “carona”, notadamente nos aposentados e pensionistas.


Além destes aspectos é de causar estranheza esta decisão do governo exatamente no momento em que há grande preocupação em segurar o consumo para conter a escalada da inflação. Os juros estão maiores, as restrições dos bancos foram ampliadas, e pouca gente vem acessando o crédito. Tudo bem que o entendimento é agradar o Congresso Nacional, que quer “ficar bem na fita”, principalmente com os aposentados, mas é preciso no mínimo coerência.


Se a intenção do governo é resgatar a credibilidade dos agentes econômicos não será agindo desta maneira que a conseguirá. Insisto: o lado positivo é aliviar o custo financeiro dos endividados, mas em momentos de escassez de crédito, com renda em queda, induzir ao endividamento das famílias não me parece prática plausível.


Quantos aos juros, longe de serem baratos!


O autor é economista e articulista do JC