08 de julho de 2026
Articulistas

Só no grito...

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

“Nunca desconfie da capacidade do governo de piorar o que já é ruim”. A frase é do economista e jornalista francês Claude Frederic Bastiat, crítico das desastrosas administrações jacobinas que se sucederam após a revolução de 1848. Ainda soa atual, principalmente no Brasil. O país sofre com a conjuntura econômica, e o nível de desemprego supera todas as marcas históricas desde que foram criadas há 23 anos. O PIB, que já é parecido com zero, vai ser de menos 2% este ano. E ainda temos que aturar as picuinhas políticas criadas pelos presidentes da Câmara e do Senado. Eles acham que a majestade do cargo os isenta de qualquer investigação sobre as delações do molha a mão das propinas. E ainda se julgam no direito de serem blindados pela presidência da República, que teria a obrigação de obstaculizar as ações da Justiça, do Ministério Público e da Polícia Federal.  


Se isto ainda não é suficiente para agravar as dores de cabeça de Dilma Rousseff, vem o fogo amigo do padrinho Lula da Silva, que começou a criticar a sucessora em público. Lula também passou à situação de investigado por tráfico de influência e favorecimento dos seus amigos da Odebrecht. Ontem, o presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ), despachou 11 pedidos de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Autorizou a CPI do BNDES que financiou obras no exterior para serem executadas por grandes empreiteiras brasileiras – entre elas a Odebrecht – e outra sobre os fundos de pensão, malversados.


Aqui, Legislativo e Executivo, em vez de se aperfeiçoarem estão sempre em retrocesso. Culpa nossa, que votamos mal. O ex-presidente Fernando Collor, cassado por causa de uma perua Elba da Fiat, que hoje custaria R$ 45 mil reais, tem apreendidos na Casa da Dinda um Porsche, uma Ferrari e um Lamborghini avaliados em mais de R$ 6 milhões, no total.


A Polícia Federal ainda se esqueceu de vasculhar o endereço de Collor em São Paulo, onde existe na garagem um Rolls-Royce Phanton. Ninguém sabe o preço da cristaleira,  porque somente são fabricados 12 desses carros por ano, sob encomenda.  O antigo “caçador de marajás” demonstra o quanto evoluiu, com todo esse luxo às nossas custas. Culpa daqueles que o elegeram senador, mesmo depois de impichado e alijado por oito anos do processo eleitoral. E não para por aí: o presidente do Tribunal de Contas da União – instituição que tem que decidir sobre as pedaladas nas contas do governo – tem um filho acusado de tráfico de influência no escândalo da Petrobras.


Todos atacam todos. O PMDB diz que o governo manobra o Ministério Público. O governo diz que o MP é manobrado pela oposição. Enquanto isso, o real se desvaloriza. A inflação sobe e os investimentos estão paralisados. Se entrar em pauta a discussão do impeachment, a dona de casa vai esperar para ver o que acontece, antes de comprar uma lavadora nova. Até decidirem se, com a queda de Dilma entra o vice Michel Temer, ou o presidente da Câmara Eduardo Cunha, ou é feita nova eleição, o país continuará parado. Vamos levar dez anos para juntar os cacos. Lula voltará à presidência? A política usada como retaliação e chantagem só demonstra o nível rasteiro daqueles que ocupam os mais altos cargos.


Está marcada para o dia 16 de agosto mais uma manifestação dos indignados. Quem sabe, com esse grito das ruas eles se intimidam e as coisas mudam para melhor. A única saída é berrar, como aquela mulher de Santo Antonio da Platina (PR), que da galeria mostrou toda sua indignação contra a aprovação da Resolução que dobrava os salários dos vereadores e premiava o prefeito com um aumento de R$ 7.240. Em 48 horas o grito venceu.


Os vereadores depois de subirem seus subsídios de R$ 3.745 para R$ 7.500, passarão a ganhar R$ 970, em 2016. O prefeito, que de R$ 14.760, iria para R$ 22 mil, vai se contentar com R$ 12 mil. Placar da votação: 7 X 1. Bem sugestivo. Revela que não é só o futebol que precisa tomar vergonha.  Os caras pintadas, que no tempo do Collor presidente ainda eram estudantes secundaristas e conseguiram dar o empurrão que faltava para derrubá-lo, quem sabe agora, mais amadurecidos, acompanhados dos filhos, noras e netos possam dar o grito uníssono para resgatar a ordem e o progresso, palavras sem expressão material na nossa bandeira.


O autor é jornalista e articulista do JC