09 de julho de 2026
Articulistas

Nossa majestade, o relógio!

Wellington Balbo
| Tempo de leitura: 2 min

Dia desses, estava parado atrás do sinaleiro quando percebi que o motorista do carro de trás gesticulava e buzinava freneticamente. Tranquilo, vi que o sinal mostrou a cor verde, engatei a marcha e saí, mas o indivíduo do carro atrás não se conteve, me ultrapassou, abriu o vidro, colocou dois dedos no pulso a me mostrar um relógio e gritar: tenho horário, rapaz, tenho horário... Foram 5 segundos, exatamente 5 segundos que eu fiquei parado após a abertura do sinal e que foi o gatilho para o destempero do colega motorista.


Infelizmente, essa pressa não é uma característica apenas de quem está no trânsito. Vá ao banco, supermercado, lotérica, clube, igreja e perceberá que estamos todos, quase sempre, reféns de horário, de chegar logo para ir embora mais depressa ainda encontrar sabe Deus quem fazendo sei lá o quê. Queremos muitas vezes correr mais do que o próprio tempo. Uma amiga costuma deixar o relógio do carro adiantado 30 minutos. Curioso, perguntei a ela a razão, e sua resposta foi: técnica para não me atrasar, trabalho sempre 30 minutos antes.


Fiquei sem entender nada. Trabalha com 30 minutos de antecedência e chega  atrasada ao compromisso. Nunca fui muito fã de ficar preso a horários. Almoçar meio-dia, jantar 7 da noite, tomar café às 4 da tarde.  Claro que por conta das regras sociais, comerciais e tantas outras temos que nos submeter à ditadura do relógio, até porque seria extrema falta de educação subordinar o tempo dos outros ao nosso.


Atrasar-se a um compromisso assumido sem justificativa concreta sugere que consideramos o nosso tempo mais valioso que o tempo dos outros. E não é. Definitivamente, um minuto é sempre 60 segundos para o médico, empresário, bancário, gari, engenheiro... Todavia, sempre que posso e não vou causar prejuízo gosto de ficar mais solto; solto pra bater um papo sem preocupação, pra refletir na vida sem ter que correr contra o tempo, pra poder escrever, navegar na net ou passear por dentro de meu coração.


Uma pena, mas o mundo anda sem tempo, todos estressados, acelerados, ávidos para cumprir com o horário e sair no horário e jantar no horário e almoçar no horário. Reflete-se pouco, mas corre-se muito... Outro dia, numa instituição religiosa, vi os dirigentes avisando a um trabalhador que se atrasou por 5 minutos: portões fechados, meu amigo. Horário é horário. Pensei: Mas até aqui? Numa outra ocasião, um profissional, ao verificar que já eram 17h, deixou de atender aos clientes informando: horário é horário, o meu já foi, vou embora.


Nenhum compromisso com a qualidade do atendimento, mas apenas com o relógio. O colega ao lado me disse: ele nunca se atrasa na hora de chegar, mas também nunca fica 1 minuto depois do expediente. É assim, pode estar atendendo qualquer pessoa que, ao dar o horário, ele despede-se e... Tchau. Pensei: Que beleza! Palmas para o relógio. E por falar em relógio, chega de papo furado, já deu o meu horário, vou embora. Bom dia a todos!


O autor é colaborador de Opinião