09 de julho de 2026
Geral

Casos de hepatite caem em Bauru, mas alerta continua

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 7 min

Malavolta Jr./Arquivo
Cristiane Rosevelte e Silva, médica sanitarista chefe da Divisão de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde: “Creio que muitas pessoas têm a doença, mas não sabem”

Dados divulgados pela Prefeitura de Bauru dão conta de que, só no ano passado, foram contabilizados 187 casos de hepatites virais na cidade. Já em 2013, houve 324 ocorrências, o que representa uma queda de 42%. Como o município aponta que a condição tem um padrão oscilante, a aparente redução de casos pode mudar. Portanto, o alerta continua, principalmente neste mês, uma vez que 28 de julho é quando se celebra o Dia Mundial de Combate às Hepatites Virais.

Conforme levantamento divulgado pela assessoria de comunicação da prefeitura, desde o início deste ano até o momento, foram registrados 42 casos da doença. Em 2014 inteiro, foram contabilizadas 187 ocorrências. Ou seja, já há uma tendência de queda ainda mais para 2015.

Mas os dados mostram que a diminuição pode não ser uma constante. Apesar das quedas recentes, em 2013, foram registrados 324 casos da doença, ou seja, um aumento de 33% em relação a 2012, que totalizou 244 ocorrências.

Em relação aos tipos de hepatite, de 2010 a 2015, foram registrados apenas quatro casos de hepatite A. Sobre o tipo B, no mesmo período, houve 541 ocorrências. Já a hepatite C contribuiu com 397 casos. Por fim, pessoas diagnosticadas com as hepatites B e C chegaram a 107.

De acordo com a médica sanitarista e chefe da Divisão de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde, Cristiane Rosevelte e Silva, em casos de doença de notificação compulsória ou não, é inviável analisar dados que reflitam o comportamento das enfermidades ano a ano. Para tanto, tem de ter uma série histórica maior, de cinco ou seis anos. Portanto, dos casos registrados entre 2010 e 2015, a médica conclui que a doença apresenta um padrão oscilante.

“Às vezes, acontece de ter mais de uma campanha ao longo de determinado ano. Diante disso, os testes são feitos com mais frequência e, em consequência, o número de diagnósticos aumenta”, analisa. Além disso, Cristiane reforça que os dados estão sujeitos à revisão, porque as notificações são feitas conforme a data de início dos sintomas. “Nem sempre o paciente que tem os sintomas procura atendimento médico na hora. Muitas vezes, a notificação é feita posteriormente ao período de início dos sintomas”, justifica.

A médica sanitarista e chefe da Divisão de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde acredita que as notificações ainda são muito baixas em Bauru. “Creio que muitas pessoas têm a doença e não sabem, porque não apresentam qualquer sintoma. Por conta disso, o município promove campanhas constantes, que são baseadas nas diretrizes do Ministério da Saúde”, defende.

No entanto, neste Dia Mundial de Combate às Hepatites Virais, não haverá campanha por parte do município.

Classificações
Conforme define o médico infectologista e coordenador do Ambulatório de Hepatites Virais do Hospital Estadual de Bauru (HEB), Gustavo Hideki Kawanami, as hepatites virais são doenças infecciosas relacionadas à presença de um vírus, que pode contaminar as pessoas por diversas vias, principalmente, pelo contato sexual e com o sangue. Elas são divididas em quatro tipos e existe a possibilidade de um mesmo paciente ser diagnosticado com mais de uma modalidade.

Entre as classificações das hepatites virais, estão os tipos A, B, C e D. O primeiro deles é mais conhecido como hepatite da infância, já que, normalmente, as pessoas têm contato com o vírus ainda neste período da vida e a transmissão ocorre por via oral ou água contaminada. Já os sintomas são semelhantes aos de uma virose comum, como amarelamento da pele e dos olhos, perda de apetite, além de febre baixa. O tratamento consiste apenas em hidratação e medicações para amenizar os sintomas.

Em relação à hepatite B, no Brasil, segundo o infectologista, a transmissão é, essencialmente, através do contato sexual. Este tipo é dividido em duas fases, a aguda e a crônica. Na primeira, os sintomas consistem em amarelamento da pele e dos olhos, fraqueza e perda de apetite. Caso o paciente não se cure, fato que ocorre em cerca de 20% dos casos, a forma crônica vem à tona e é assintomática. Portanto, só é identificada por meio de exame de sangue específico e tem como consequências a cirrose hepática e o câncer no fígado, podendo levar à morte.

Kawanami frisa ainda que, no caso da hepatite B aguda, em algumas situações, é necessária a prescrição de medicações, mas, normalmente, o tratamento é baseado em remédios para amenizar os sintomas. Já na forma crônica, cerca de 50% dos pacientes têm de se submeter a tratamento específico e a chance de cura é pequena. Além disso, o tempo de tratamento varia de pessoa a pessoa, mas não deixa de ser longo. “Tenho pacientes que se trataram por três meses e outros, por três anos”, argumenta.

Mais grave
Considerada mais grave, a hepatite C é transmitida através do contato com o sangue. Pessoas que utilizam drogas injetáveis ou, até mesmo, que fizeram transfusões sanguíneas até 1994, quando as seringas deixaram de ser de vidro, são mais suscetíveis à doença. Todavia, aqueles que vivem na região de Bauru podem ter um agravante, porque as seringas de vidro não deixaram de ser utilizadas na década de 90, mas sim, recentemente, conforme explica o médico. Este tipo de doença também possui as fases aguda e crônica.

Diante disso, a primeira etapa, conforme explica o infectologista, apresenta sintomas semelhantes a uma infecção viral comum, como febre baixa, dor no corpo e mal estar. Desta fase, 80% dos pacientes não conseguem se curar sozinhos e chegam à modalidade crônica, que é assintomática. No decorrer dos anos, os pacientes, às vezes, têm cirrose e, consequentemente, câncer no fígado, podendo levar à perda do órgão e à morte. O médico acrescenta que, durante a fase aguda da hepatite C, o tratamento se resume, basicamente, na amenização dos sintomas.

Já a etapa crônica possui diversos subtipos e, portanto, o tratamento varia de acordo com cada um deles, além do grau de comprometimento do fígado. O tempo de tratamento varia de três meses a um ano. Mesmo com a demora do tratamento, no HEB, o índice de desistência é menor que 1%. Segundo Kawanami, pessoas que tiveram as hepatites B e C, mesmo curadas, não podem doar sangue. “Elas têm uma cicatriz sorológica e o teste é muito caro. Não dá par fazer a nível de banco de sangue”, diz.

Além disso, em casos raros, a doença pode levar à perda do movimento dos braços e pernas devido a uma falha de absorção e filtragem do sangue. Por fim, quanto à hepatite D ou Delta, o infectologista traz uma boa notícias aos bauruenses, já que a doença é restrita às regiões norte e nordeste do Brasil e está associada à hepatite B. “É endêmica por lá e ninguém sabe a causa, mas não se espalhou pelo restante do País”, justifica. Este tipo, inclusive, acelera o desenvolvimento dos sintomas da hepatite B.


Referência

O Ambulatório de Hepatites Virais do HEB, coordenado pelo médico infectologista Gustavo Hideki Kawanami, existe há seis anos e é referência no Estado. Neste período, 382 pacientes foram tratados, sendo que, em média, 70% alcançaram a cura. Ainda no primeiro ano de funcionamento, já ganhou prêmio na categoria de qualidade de atendimento e, desde então, se destaca na taxa de cura de pacientes diagnosticados com as hepatites B e C, superando, inclusive, a média nacional.


Prevenção

No decorrer dos anos, a medicina avançou. Prova disso é a disponibilização da vacina para as hepatites A e B. No primeiro caso, a medicação se destina às crianças de um ano e três meses e está disponível na rede básica de saúde desde o ano anterior. Quanto à vacina contra a hepatite B, também está disponível para adultos jovens, mais propensos a adquirir o vírus.

Por enquanto, não há vacina para os tipos C e D. Além disso, os órgãos públicos e entidades de classe promovem campanhas rotineiras para incentivar a população sobre a importância do diagnóstico rápido, que garante mais chances de cura aos pacientes com as hepatites B e C. Os exames, inclusive, estão disponíveis nas Unidades Básicas de Saúde (UBS).


Por tipos

Segundo dados por modalidades de hepatites dos últimos seis anos em Bauru, o tipo A contou apenas com quatro ocorrências. Cristiane Rosevelte e Silva argumenta que a doença não tem as mesmas complicações que as demais e, muitas vezes, chega a ser confundida com uma virose comum. Além disso, desde o ano passado, a vacina para crianças de 1 ano e três meses está disponível na rede de saúde.

Em relação à hepatite B, mais comum por ser transmitida, essencialmente, através do contato sexual desprotegido, foram contabilizados 541 casos. Já a hepatite C, cuja transmissão é mais difícil de ocorrer, porque é necessário um contato maior com o sangue, foram registrados 397 casos. Quanto às hepatites B e C, 107 pessoas contraíram os dois tipos da doença em Bauru, principalmente, aquelas que utilizam drogas injetáveis e têm contato sexual entre si.