08 de julho de 2026
Articulistas

Sobre a Unesp e os macacos

Luciano Olavo da Silva
| Tempo de leitura: 3 min

O sectarismo sonso da sociedade brasileira sempre foi dissimulado pela retórica simplista que historicamente justificou a inércia do Estado em prol da manutenção do status quo. Frases como “somos um povo pacífico e gentil”, “um caldeirão cultural”, “o país da tolerância”, “a fusão harmônica de três raças” penetraram em nosso imaginário conservador por décadas, ou séculos. São, no entanto, apenas dogmas sem lastro na história elitista e escravocrata construída pela nobreza decadente que tentou, desde sua chegada ao Brasil, remar contra a correnteza da história e manter intocados, aqui, os espaços de exploração e privilégios que já se evanesciam na Europa, por conta das revoluções liberais, das ideias iluministas e da lenta construção do conceito de igualdade humana. Como é impossível aos sectários argumentar contra a evidência de que somos iguais em nossa condição humana, resta a eles a forçada tentativa de não reconhecerem como membros da humanidade, e, portanto, não portadores dessa condição, aqueles a quem se opõem. Assim, segundo essa lógica degenerada, negros são macacos, homossexuais são aberrações contrárias à criação divina, nordestinos uma sub-raça sem desenvolvimento, e por aí vai.

O paradoxal é que os sectários, ao tentarem preservar os espaços de dominação que imaginam pertencer a eles por um inexplicável “direito” de superioridade, agem justamente de modo inferior, à semelhança dos animais que se entregam à luta de manutenção dos territórios instintivamente demarcados para si, ostentando eles mesmos o primitivismo bestial que, sem qualquer justificativa plausível, imputam àqueles a quem discriminam com a pecha de macacos, aberrações, sub-raça etc. Em suma: ao desclassificarem humanos, assumem a postura dos cães que demarcam um território com urina e lutam contra qualquer invasor que ameace sua dominação.

É impressionante que no atual estágio da nossa civilização, com tantos desafios geopolíticos, econômicos e científicos para serem superados a fim de que não sejamos varridos do planeta, ainda haja gente que veja na pele do outro, em sua religião, origem ou opção sexual, um problema digno de qualquer tipo de atenção hostil e dispêndio de energia. A desesperança é ainda maior quando os fatos demonstram que essa gente está até mesmo nas Universidades mais arrojadas, onde, em tese, estaria em formação a elite cultural e a liderança que conduziria nossa sociedade doente a dias melhores.

Estamos involuindo! Até os membros mais destacados da juventude, encastelados nas melhores universidades, que pretensamente compõem a vanguarda intelectual da sociedade, estão se despindo da condição humana para fomentar o ódio que não raro leva ao linchamento de pessoas ou à humilhante classificação de seres humanos de acordo com a cor da pele, a religião, a opção sexual ou outros caracteres individuais. É triste verificar que os lamentáveis fatos recentemente ocorridos no campus da Unesp em Bauru desarmam nossas esperanças e dão um tom profético às sensíveis palavras do poeta Mário Quintana: “O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro”.

Esperemos todos que a instituição de ensino nos ajude a superar esse futuro primitivo e saiba dar aos fatos uma resposta condizente com a dignidade humana ofendida e com os exemplos superiores que uma Universidade deve irradiar.

O autor é analista judiciário, especialista em Direito Eleitoral – luciano@lucianoolavo.com.br