Na promessa de ouvirmos e relembrarmos velhas e saudosas canções, estivemos, eu e minha esposa, num show do Sesc neste sábado último, dia 25, para assistirmos à apresentação da filha do saudoso sanfonista Mário Zan, Mariangela Zan, quando tive o prazer de rever meu amigo João Jabbour, quando esta iniciou seu show cantando a música nacionalmente conhecida como “A Marvada Pinga”.
Puxa, que legal! Fiquei esperando que ela mencionasse o nome do meu velho professor de canto orfeônico (é assim que a disciplina era denominada quando, na década de sessenta/setenta, eu estudava no “velho” e saudoso Instituto de Educação Ernesto Monte) Ochelsis Laureano, ainda que este tenha nascido em Sorocaba, mas que viveu 14 anos entre nós, bauruenses. Mas nada! Aguardei pacientemente que ela o fizesse ao longo do show, já que comentava sempre algo sobre as músicas que apresentava, resgatando memórias do seu saudoso pai, além de citar a saudosa Inezita Barroso, a qual também tive o prazer e ver e ouvir naquele local.
Nesse interim, quantas lembranças daquela época me vieram à mente: Dona Cacilda - da cantina- , professores como Gino Crês (português), Dona Graciema (português), Armando (artes), Toledo (matemática) e tantos outros, bem como uma professora de francês da qual não me recordo o nome, mas que me deixou saudades e rudimentares conhecimento daquele idioma.
Saudosas também são as lembranças das escadas que descíamos correndo no intervalo das aulas; do pátio – quase sempre às escuras, pois estudávamos no período noturno; do muro alto dos fundos, de onde eu e meu amigo Dota pulávamos pra “cabular” as aulas e sair à garupa do velho fusca amarelo à caça de “moçoilas” desavisadas; das canções da época que entoávamos juntos no recreio, pra memorizar as difíceis letras de um tal de Chico Buarque, as quais eram complicadas pra gente decorar, já que era um autor ainda desconhecido por muitos e pouco tocava nas rádios; dos ensaios, sentados em grupo nas escadarias do pátio, das novas canções de um tal Roberto Carlos - do qual as “gatas” gostavam pra caramba, enfim, era nesse meio que eu vinha lá da Vila Falcão, onde morava, a pé, durante mais de dez anos, estudar, orgulhosamente, no “Ernesto Monte”, onde, hoje, sendo professor aposentado, tenho orgulho de dizer que fui aluno de tantos mestres, dentre os quais “o velho” Laureano. Um sujeito de estatura média, cabelo cortado à militar, bigode “à Sarney”, mas que tinha uma brasilidade nas veias que hoje dificilmente encontramos.
Como artista sertanejo, segundo o Google, o professor Laureano atuou em programas de rádio e shows artísticos de 1920 a 1942. Fez parte das Caravanas de Cornélio Pires e formou as duplas “Irmãos Laureano”, “Laureano e Soares”, “Laureano e Mariano”, entre outras. Como compositor, é responsável por poemas como “Capim Teimoso”, “Lenço Preto” e “O Barranco”. Entre as músicas de sucesso que escreveu estão “Roseira branca”, “O Balão Subiu”, “A Caçada”, “É Mió num Casá”, “Meu Sertão” e “A Marvada Pinga”. Após 1942, Laureano resolveu estudar música e se tornou professor de canto orfeônico e educação musical. Foi amigo pessoal e aluno do maestro Heitor Villa-Lobos. Em 1948, começou a lecionar em várias cidades, como Passo Fundo, Presidente Prudente, Caraguatatuba, Jundiaí, Santos e Bauru, onde ministrou aulas em diversas instituições por 14 anos e, no dia 10 de setembro de 1984, foi agraciado com o título de Cidadão Bauruense pelo vereador Edson Francisco da Silva.
Pois é! Com esse mestre tínhamos que aprender todos os principais hinos brasileiros. Letra, música e autores. Hoje fico indignado quando vejo na televisão, quando da apresentação do Hino Nacional brasileiro, muitos dos nossos atletas se postarem apenas ouvindo-o e não cantando-o orgulhosamente se soubessem a letra, claro! Fico pensando que o “velho” Laureano se remexeria no túmulo ao ver tanta barbárie, pois que para ele não saber o hino da sua pátria chegava a ser uma aberração!
Mas, voltando ao show da filha do saudoso Mário Zan, esta encerrou-o com a mesma música que o iniciou, ou seja, “A Marvada Pinga”, porém, sem citar o nosso saudoso professor. Uma pena! Acho mesmo que ela não o fez por não saber que o autor dessa nacionalmente conhecida música passou por aqui. Perdeu essa chance! Laureano morreu aos 86 anos, no dia 16 de janeiro de 1996, em São Carlos, cidade onde morou por quatro anos. Pois é! Ler a “Tribuna do Leitor” do JC também é cultura!