10 de julho de 2026
Esportes

Técnico René Simões defende alterações na forma de pensar o futebol

Thiago Navarro
| Tempo de leitura: 5 min

Éder Azevedo
Evento contou com a presença do ex-jogador profissional Emerson, dos jornalistas Alexandre Azank (TV Tem) e Thiago Navarro (JC) e do renomado técnico René Simões, que aparecem na foto junto com o mediador Osmar Moreira Souza Jr. 

A 1ª Semana do Futebol de Bauru, realizada semana passada, teve como grande destaque a presença do técnico René Simões, que estava até recentemente no Botafogo (RJ) e que já comandou, além de grandes clubes do futebol brasileiro, a Seleção Feminina nas Olimpíadas de 2004, em Atenas (Grécia), quando foi medalha de prata, e a seleção principal da Jamaica, que conseguiu a inédita classificação à Copa do Mundo de 1998 sob a batuta de René, que seguiu na equipe durante o Mundial. Obteve ainda grande destaque como treinador das categorias de base da Seleção Brasileira.

René Simões debateu diversos assuntos com os demais componentes da mesa-redonda, e conversou com o público presente no evento, promovido pela Escola de Futebol Ginga e pelo site Indústria de Base. Ele não se esquivou de perguntas mais polêmicas, como a que envolve sua declaração sobre o atacante Neymar, em 2010, e o futebol feminino.

A respeito do agora jogador do Barcelona, à época no Santos, René lembrou que quando afirmou que “estávamos criando um monstro”, Neymar vinha de outros três jogos envolvido em polêmicas e atos de indisciplina, o que se repetiu na partida contra o Atlético-GO, time então comandado por Simões. “Na ocasião, até minha filha, que é psicóloga, achou a frase forte, mas era necessário. Há de se ressaltar que nestes últimos cinco anos, o Neymar teve uma conduta muito boa fora de campo, é um jogador que evoluiu muito. A única exceção foi na Copa América agora, mas com o atenuante de que no mesmo dia ele soube do processo contra ele e o pai na justiça espanhola”, pontuou o treinador.

Sobre o futebol feminino, René Simões afirma que logo após o vice-campeonato olímpico de 2004, teve uma conversa com o então presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, para discutir a estruturação dos campeonatos das mulheres no País, e que a promessa é de que o mandatário voltaria a conversar com ele dias depois. “Estou até hoje esperando”, disparou.

Após a mesa-redonda, na sede da OAB-Bauru, René Simões conversou com o Jornal da Cidade sobre diversos temas. Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

Principais trechos da entrevista:

Escândalos

“Depois do caos vem a luz. Tomara que as investigações sejam profundas, tanto na Fifa como aqui, que também saia a CPI do Futebol. Basta ver o exemplo da Operação Lava-Jato, quando puxa-se um fio do novelo começa a aparecer o que está errado. E o futebol é o esporte popular do brasileiro, e a casa precisa ser organizada novamente.”

Saída do Botafogo

“Essa experiência que tive agora foi a primeira vez. Já fui mandado embora, nem sou da opinião de que treinador não pode ser mandado embora. Mas saímos de uma situação em que fomos campeões da Taça Guanabara, vice-campeão carioca, saímos só na terceira rodada da Copa do Brasil e líder da Série B do Campeonato Brasileiro, com o melhor ataque e a defesa menos vazada. Para um clube com as dificuldades que estava, foi algo inusitado, e que machucou muito.”

Estrangeiros

“Eu acho que a troca é sempre muito boa. Eu estaria sendo até incoerente se pensasse o contrário, pois já trabalhei em sete países diferentes, nem teria como ser contra. Fui técnico de quatro seleções, até em Copa do Mundo (na seleção da Jamaica, em 1998). Não sei se seria o momento de trazer um estrangeiro para a Seleção Brasileira, porém não sou contra, sou favorável a esse intercâmbio. O (Juan Carlos) Osório, que veio para o São Paulo, por exemplo, é um grande treinador.

Resgate deconceitos

“O que a gente precisa é refletir qual o padrão que queremos para o futebol brasileiro. Uma coisa que me incomoda foi termos perdido o drible, nós não temos mais, e esse era nosso grande diferencial. É o conceito que se perdeu. O Garrincha não jogaria hoje, o Rivelino se desse um elástico hoje seria execrado. Ou seja, o principal é repensar o que a gente quer do futebol brasileiro, sem ser romântico, achando que jogaremos igual há 30 anos, mas recuperando a essência. O mundo mudou, mas o drible permanece, o Barcelona ganhou a Copa dos Campeões muito em função dos dribles do Messi, que desarmou defesas inteiras.”

Imprensa e categorias de base

No primeiro dia da Semana do Futebol, foi debatida a relação entre a modalidade e a imprensa. A mesa foi composta pelo treinador René Simões, pelo ex-jogador Emerson Carvalho (que jogou no São Paulo, Portuguesa e Seleção Brasileira) e pelos jornalistas Alexandre Azank (TV Tem) e Thiago Navarro (Jornal da Cidade), com mediação de Osmar Moreira de Souza Júnior.

Os debatedores abordaram a necessidade de se aperfeiçoar a relação entre a mídia e o futebol, que mudou com a entrada das novas plataformas, como a internet, mas que não pode perder a essência da apuração e da ética. Já no segundo dia, o tema foi Futebol e Bauru.

Os debatedores foram os jornalistas Rafael Antônio Mainini (Rádio Auri-Verde e site Jornada Esportiva) e Fernando Beagá (site Canhota 10) e Jairson Carneiro, o Corcel (dirigente do Ressaca FC), com a mediação de Flávio Oliveira (Escola Ginga). Apesar de ter recebido grandes eventos esportivos recentemente, como Jogos Abertos e Liga das Américas, a mesa apontou como falha a estrutura esportiva de Bauru, sobretudo para a formação de novos atletas e o desenvolvimento do esporte amador.

No terceiro e último de debate, com o tema ‘Futebol e Futuro’, estiveram na mesa redonda o professor Carlos Thiengo (Escola Ginga), Luciano Rodrigues (Sesi), Ubiratan Silva (Semel) e o jornalista Arthur Sales (site Indústria de Base). Entre os assuntos, os participantes relataram a falta de adaptação das dimensões do campo de jogo para as categorias menores, a dificuldade em equilibrar o futebol lúdico com o competitivo nas idades mais novas, e a falta de políticas direcionadas à formação de novos valores.