11 de julho de 2026
Geral

Outro caso: inscrições nazistas aparecem no banheiro da Unesp

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 5 min

Alex Mita
Suástica desenhada com caneta em cartaz colado em banheiro
Em um dos cartazes com frases de repúdio ao racismo, surgiu o desenho da suástica nazista junto à palavra ‘hipócritas’

Em apenas 11 dias, a Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru apresentou duas manifestações racistas escancaradas, inclusive, no mesmo local. O banheiro masculino próximo ao Departamento de Comunicação Social da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) foi palco dos crimes tanto no último dia 24 quanto nesta semana, sendo que a ocorrência mais recente continha desenhos da suástica nazista em cima de cartazes de repúdio ao ato anterior de racismo.

De acordo com membro do Coletivo Negro Kimpa e representante discente do Núcleo Negro para a Pesquisa e Extensão (Nupe) da Unesp, duas entidades representativas do movimento na universidade, Solon Barbosa Veloso Neto, as pichações da suástica nazista em cartazes de repúdio ao racismo foram encontradas, na última terça-feira (4), por um aluno. O Coletivo Kimpa tomou conhecimento e levou o caso até a direção da Faac.

Em um dos cartazes com frases de repúdio ao racismo, havia o desenho da suástica nazista junto à palavra “hipócritas”. “Os alunos que se declaram negros se sentem tão ofendidos com as inscrições mais recentes quanto às anteriores, porque o nazismo propunha, praticamente, a eliminação dos negros. Como os desenhos foram feitos em cima dos cartazes, entendo que houve um ataque direto ao movimento”, acrescenta.

Neto revela que, além de já ter procurado a direção da Faac, pretende ir à polícia e, até mesmo, protocolar uma denúncia junto à ouvidoria do Nupe. “Nós mantemos a posição do fato anterior, no sentido de combater o racismo dentro da universidade, e acreditamos que a atuação do Nupe, além das cotas raciais, está incomodando”, argumenta o membro do Coletivo Kimpa e representante discente do Nupe.

Ódio

“Unesp cheia de macacos fedidos”, “Negras fedem” e “Juarez Macaco”. Conforme o JC noticiou, estas foram algumas das frases lamentáveis que surgiram entre a manhã e tarde do último dia 24, em banheiros da Unesp de Bauru. O caso chocou alunos, professores do câmpus e também da comunidade externa pelo conteúdo racista e de ódio que estava grafado em paredes e portas do banheiro masculino e feminino, localizados próximos ao Departamento de Comunicação Social da Faac.

As mensagens seriam destinadas aos alunos negros e a um professor do curso de jornalismo do câmpus. Na ocasião, a diretoria da instituição repudiou o ocorrido e, no dia 27 de julho, instalou uma Comissão de Averiguação para apurar o caso. Segundo o coordenador da Comissão do Negro e de Assuntos Discriminatórios da subseção de Bauru da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Antonio Carlos da Silva Barros, o órgão se reunirá com a Polícia Civil, na próxima semana, para discutir a instauração de um inquérito.

Assembleia Legislativa

Além disso, o advogado pretende levar os dois casos até a Assembleia Legislativa e à Coordenadoria de Políticas Públicas para os Negros e Indígenas. “Nós encaminharemos outros casos de racismo nos campi de Botucatu, Araraquara e Presidente Prudente”, diz. Já o delegado Eduardo Herrera dos Santos, da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), reforça que o racismo é crime e está previsto na Lei Federal n.º 7.716, de 1989.

Herrera explica que, em 1997, houve uma alteração deste texto, que está prevista na Lei Federal n.º 9.459, que incluiu um artigo que criminaliza a divulgação de emblemas, como a suástica nazista, desde que utilizados para disseminar a ideologia do movimento. “Portanto, ainda cabe apuração para saber se o que ocorreu na Unesp também apresentou esta finalidade”, pontua.

Suástica

Um símbolo carregado de uma memória triste por conta das atrocidades cometidas pelo nazismo alemão. Muitas pessoas definem a suástica desta forma. Entretanto, o ícone já teve outros significados. Alguns estudos apontam que este símbolo, também conhecido pelo nome de “cruz gamada”, apareceu há mais de 3 mil anos em moedas da antiga Mesopotâmia. Outras civilizações, como os maias, também registraram a marca em artefatos.

Já a primeira significação definida da suástica surgiu entre os praticantes do hinduísmo. Em sânscrito, a palavra significa “aquilo que traz sorte”. Entretanto, o posicionamento das hastes que compõem o símbolo tinha sentidos religiosos opostos. Quando os braços estão em sentido horário, da mesma forma que a bandeira nazista, a suástica seria um ícone mágico capaz de chamar a atenção de divindades malévolas. Se as hastes estivessem dispostas de maneira inversa, a marca poderia atrair boas energias.

Por terem aparecido dias após o caso de racismo, tudo sugere que as suásticas da Unesp têm a simbologia nazista. 

Universidade condena desenhos e irá apurar

Malavolta Jr./Arquivo
Marcelo Carbone repudia o fato e informa que caso será inserido em processo administrativo

O vice-diretor no exercício da diretoria da Faac, Marcelo Carbone Carneiro, informa que o caso mais recente será inserido no mesmo processo administrativo, que foi instaurado, no último dia 27, pela Comissão de Averiguação da universidade. “São ofensas sérias. Na mais antiga, a faxineira que apagou as pichações era negra e chegou a chorar, porque se sentiu diretamente ofendida”, conta.

Em nota oficial, a Unesp reafirma a posição do diretor em exercício da Faac e acrescenta que repudia os desenhos das suásticas. Após documentação, as inscrições teriam sido retiradas do banheiro masculino. A instituição reforça que conta com o Grupo de Prevenção da Violência para atuar na conscientização da comunidade e no fomento aos Direitos Humanos, além de um Observatório de Educação em Direitos Humanos.

Caberá à Comissão de Apuração, que terá até 27 de agosto para investigar as situações, mas poderá prorrogar este prazo por mais 30 dias, levantar informações, obter nomes, datas e horários que possam resultar em provas substanciais de comprovação de responsabilidades da infração ao Regimento Geral da Unesp, o que pode levar às sanções previstas no artigo 162, que vão da advertência verbal ao desligamento.

Professor de antropologia do Departamento de Ciências Humanas da Unesp, Claudio Bertolli Filho acredita que as manifestações racistas dentro da universidade são reflexos da própria sociedade. “O preconceito existe, dentro e fora da universidade, e agora está mais escancarado, porque há um clima de tensão em todo o País, principalmente, envolvendo discursos radicais contra a política e a economia”.