Ele tem 55 anos de idade, é agropecuarista e santista com orgulho. O filho único tem 23 anos, estuda gastronomia e é palmeirense, sim, senhor. Entretanto, as diferenças naturais existentes entre as duas geração e proporcionadas pelas escolhas de cada um são jogadas para escanteio quando o que prevalece são o companheirismo, amor e amizade.
“Eu sempre apostei na amizade entre pai e filho para conquistar a confiança dele e, juntos, vencermos os problemas do cotidiano. Apesar do trabalho no campo, eu sou muito ligado ao futebol, coordeno equipes na cidade e tudo mais. Meu filho sempre esteve comigo, desde bem pequeno. Então, o futebol que nos separa, quando o assunto é o clube do coração, é o mesmo que nos une”, narra o agropecuarista Juarez Aparecido Arantes, o Liminha, como é conhecido.
E tal fórmula tem dado certo há mais de duas décadas, segundo o filho João Álvaro Arantes. “Não faço nada antes de pedir a opinião do meu pai. Ele me orienta e isso é muito importante para as minhas decisões. Curso gastronomia e estou abrindo uma loja de churros e sorvetes no Centro da cidade. E tudo o que faço vem acompanhado dos seus conselhos”, afirma.
Contudo, quando o assunto é futebol, as faíscas são inevitáveis. E essa “não herança” futebolística é antiga. Liminha também não torce para o time que o pai torcia. “Meu pai torcia para o São Paulo, mas eu optei pelo Santos por influência de um tio, no final da década de 1960, quando o Santos estava no auge”.
Já João Álvaro tornou-se palmeirense na década de 1990, quando se encantou com os anos dourados da Era Parmalat alviverde.
Flexibilidade também é chave de convivência
O som que encanta a pequena Mariane Hamada Mya, 8 anos, é o sertanejo universitário, embora o pai, Mário Sérgio Mya, tenha insistido para que ela se voltasse para o seu estilo musical, o pagode.
“Eu tentei, mas, quando coloco um pagode no som do carro, ela pede para tirar na hora”, conta, em tom de brincadeira. A flexibilidade é a chave apontada pelo feirante para evitar briguinhas por tais diferenças. “Ninguém é igual a ninguém, precisamos ser flexíveis”, acredita.
E as diferenças não param por aí. Mário é apaixonado por esportes, de modo especial pelo futebol, já a filha, não gosta de nenhuma modalidade. Ele se diz extrovertido. Ela, tímida. As diferenças podem até serem muitas, mas o amor entre eles é ainda maior, e transforma qualquer diferença em sorrisos.
| Quioshi Goto |
| As diferenças no futebol são as menos importantes entre Juarez Arantes (Liminha) e o filho João, que respeitam um ao outro |
Quase iguais a não ser no futebol
A profissão de comerciante Enéas Pinto de Carvalho Filho (Neinha), 51 anos, herdou do pai Enéas Pinto de Carvalho, 81, assim como seguiu muitos outros gostos e escolhas de seu genitor. Sempre juntos, pai e filho seriam “iguais”, não fosse a rivalidade das camisas de torcedor que usam.
“Mas garanto que as nossas diferenças começam e terminam por aqui. Meu pai é corintiano e eu palmeirense. Passei a torcer para o verdão em 1974, quando a equipe ganhou o Paulistão do time rival. Meu pai nunca ficou ofendido, mas tentou me fazer corintiano, tanto que tenho fotos de menino com o uniforme do time dele”, lembra Neinha.
Segundo o filho, eles levam a rivalidade numa boa. E até assistem a clássicos juntos, com um combinado: não tirar sarro do time que perder. Histórias não faltam entre pai e filho. “Meu pai abriu sua loja de calçados em 1973, na Batista de Carvalho. Eu sigo os seus passos desde os 14 anos e hoje tenho loja em Garça. Sempre juntos. Trabalhamos na diretoria da Associação Luso Brasileira, entre muitas outras atividades”.
Brincadeiras à parte, pai e filho acreditam que é preciso ter diálogo aberto para vencer qualquer tipo de crise que possa haver na relação familiar. “Não ter vergonha um do outro é a base de tudo. Meu pai é meu melhor amigo. Se os filhos ouvissem mais seus pais teriam menos problemas”, acredita, Neinha.
Internet
Estamos na era da comunicação e entre as mudanças vividas nas relações familiares está o uso das redes sociais. E o seu uso excessivo é perigoso e capaz de favorecer o afastamento entre pais e filhos. O alerta é de José Milagre, advogado especialista em perícia e direito digital e vice-presidente da Comissão Estadual de Informática da OAB/SP. Há uma troca dos amigos e familiares pelas redes sociais. Milagre explica que o pai da “sociedade da informação” tem o papel de resgatar o filho da Internet. “Deixamos nossos filhos sem limites na tecnologia e hoje colhemos os problemas. As relações entre pais e filhos devem ser reais e o mais offline possível”, conclui.
Relações estão mais democráticas
A relação entre pais e filhos vem mudando ao longo do tempo. Hoje há menos autoritarismo por parte dos pais, escuta-se mais os filhos e as relações estão mais democráticas. Ao menos é o que analisa a psicóloga, psicodramatista, terapeuta de casais e famílias e coordenadora do Instituto Bauruense de Psicodrama (Ibap), Maria Regina Corrêa Lopes Vanin.
“A mudança nas relações de gênero também acabou propiciando com que os homens se aproximassem mais dos filhos. Atualmente é comum que eles cuidem dos bebês, troquem fraldas... Coisas que no passado só as mães faziam. Isso gera uma maior proximidade afetiva entre os homens e seus filhos”, enfatiza.
Por outro lado, acrescenta Vanin, a maioria das pessoas trabalha muito e tem pouco tempo para os filhos, o que pode gerar uma certa culpa que faz, junto com outros fatores, com que os pais tenham mais dificuldade em impor limites. “E o limite com afeto é necessário. Os filhos necessitam de referências, de modelos. O que se nota hoje é que muitas vezes a permissividade é muito grande, o que não é positivo para a formação de uma criança ou adolescente”, avalia.
Ainda segundo a psicóloga, vivemos em uma era de mudanças de valores e de hábitos, onde tudo é descartável e muda com muita frequência. Adaptar-se a isso é mais difícil para os mais velhos e para os mais novos é difícil entender essa dificuldade. “Porém, vencer os desafios e as diferenças é possível. O amor e o afeto são linguagens universais que nunca cairão de moda e que sempre podem nos apontar o melhor caminho”.
Falta de responsabilidade x conflitos
Antes de tudo, o psicólogo Cláudio Salviano ressalta a importância de se dizer que o núcleo familiar hoje é bastante diferenciado. E, nesse contexto, entra a ausência de responsabilidades bem estabelecidas, de forma geral, tanto de pais quanto de filhos, o que contribui para os conflitos.
“É o que eu vejo em minhas consultas. Na hora dos direitos há cobrança de ambos os lados, mas na hora dos deveres a realidade é outra. Existe muito erro, muita dúvida e muita fantasia. Hoje vemos pais esgotados na paciência porque não priorizaram a função de pai. E a base é o diálogo”, grifa.
Outro ponto observado por Salviano é a busca dos pais atuais por liberdade e, automaticamente, os filhos têm a mesma busca. Em suas palavras, é como se cada um quisesse viver a sua própria vida, mas na palavra pai está embutida muitas responsabilidades, assim como os filhos têm, obviamente, as suas.
“Muitos não estão assumindo suas devidas posições. Hoje, por exemplo, é comum atendermos pais com filhos de 5 anos que já decidem qual roupa vestir, aonde ir. E sabemos que todo ser humano precisa ser cuidado desde o nascimento. A criança não pode fazer o que quer. Na adolescência, o conflito aumenta e os pais que não estabeleceram limites e um bom diálogo terão problemas sérios”.