08 de julho de 2026
Polícia

"Assalto do presente" acende alerta

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 4 min

Ao simular a entrega de bombons e flores, uma dupla assaltou duas residências nos últimos dias, uma em Bauru e outra em Piratininga (13 quilômetros de Bauru). Os bandidos acabaram presos na noite de anteontem, mas a polícia acredita que a dupla possa ter feito outras vítimas e que eles não sejam os únicos a usar esta tática. O caso acende o alerta para o perigo que literamente bate em nossas portas.

Segundo a polícia, essa modalidade de roubo é cada vez mais comum e tem chamado a atenção justamente pela forma criativa e dissimulada como os bandidos, em sua maioria com antecedentes criminais, têm agido: armados, em frente à casa das vítimas e em pleno dia.

Prisão

 

A criatividade não bastou para livrar da prisão Thiago Cesar Pauletto, 27 anos, e João Marcelo da Silva Matias, de 30 anos. E eles foram presos exatamente por um descuido no crime cometido na última sexta-feira em Bauru (leia o relato da vítima abaixo).

Na ocasião, os assaltantes enganaram uma moradora do Parque Vista Alegre, contudo, na fuga da casa da vítima, acabaram deixando para trás a caixa de bombons usada para ludibriar a mulher, que teve R$ 6 mil levados.

Em posse de uma etiqueta presa ao produto, a Polícia Militar conseguiu chegar até o estabelecimento onde o chocolate foi comprado. Lá, por meio das imagens do circuito de segurança, identificou Thiago. 

Dois dias antes do crime em Bauru, a dupla havia assaltado um rapaz de 23 anos morador da rua Doutor José Lisboa Junior, no Centro de Piratininga. Lá, usaram flores como o “presente de grego”.

Preso no local onde trabalha, Thiago escondia 25 porções e um tijolo de maconha, além do veículo utilizado pela dupla no crime, um Honda/Civic preto.

Ele acabou confessando a participação nos dois roubos e apontou João Marcelo como seu comparsa. Com esse segundo acusado, foi apreendida a arma usada nos crimes, um revólver Taurus calibre 38 municiado. 

Reconhecidos pelas vítimas, eles estão presos temporariamente por roubo duplamente qualificado - com emprego de arma e concurso de pessoas. A solicitação da prisão preventiva será feita ainda nesta semana. 

Não é exclusivo

 

O modo de agir não é exclusividade dessa dupla e também não ocorre em qualquer tipo de residência, conforme observa o delegado seccional de Bauru, Ricardo Martines. “Isso tem acontecido com certa frequência, principalmente, para viabilizar roubos em residências guarnecidas de segurança como cerca elétrica, muro e grades altas. Eles simulam uma situação para ludibriar a boa fé dessas pessoas e efetivar o roubo”, ressalta.

O mesmo alerta é feito pelo comandante do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4.º BPM-I) tenente-coronel Flávio Jun Kitazume. “Os assaltantes usam, sobretudo, a criatividade nessas ações. Não usam só flores ou bombons para ganhar as vítimas. Este é um crime de oportunidade e cometido, geralmente, por bandidos que já possuem um histórico criminal”, acrescenta.

Com foco em uma ação que cause surpresa na vítima, os assaltantes simulam situações para concretizar a abordagem que dificulte qualquer reação. 

“Eles abusam do elemento surpresa. Não é como em um arrombamento, onde a vítima acaba tendo tempo de perceber”, reforça Martines.

 

Especializados

 

Titular da Delegacia de Investigações Gerais de Bauru, Kleber Granja, aponta certa preocupação da polícia frente a uma quadrilha especializada que tem agido no Estado. Esse bando, contudo, simula serviços de telefonia. 

Com o telefone das vítimas, os criminosos agendam visitas com a desculpa de que farão manutenção no sistema da casa. Mas, ao conseguirem entrar no imóvel, anunciam o assalto. “São bandidos que estão cada vez mais especializados em ludibriar as pessoas simulando a boa fé”, avalia.

Invasão e roubo

Um terceiro caso de roubo envolvendo invasão a uma residência na noite de anteontem, no Jardim Bela Vista, ajuda a reforçar a preocupação.

Ao chegar em casa, por volta das 21h, uma mulher de 34 anos foi abordada por dois homens que aproveitaram a abertura do portão. A vítima foi trancada em um quarto da casa enquanto a dupla efetivava o roubo. A mulher só foi libertada com a chegada do marido. Ninguém foi preso. A vítima não ficou ferida.

‘Ele entrou e colocou a   arma na minha cabeça’

Ainda traumatizada, a vítima de 43 anos do “crime dos bombons” no Parque Vista Alegre contou ao JC que uma coincidência ajudou no crime. Naquela mesma hora, por volta das 15h30, ela aguardava a entrega de alguns espetinhos de carne que comercializa no Centro.

“Ele me chamou pelo nome, parecia um amigo. Eu vi a caixa de bombons, mas achei que era uma cortesia. Quando abri, ele me empurrou e já colocou a arma na minha cabeça”, lembra. “Foi horrível, me senti invadida. Minha sobrinha de 26 anos estava comigo, ficamos nervosas. Por Deus, nada mais grave aconteceu”, completa.