11 de julho de 2026
Polícia

Polícia de Bauru registra oito assassinatos nos últimos 28 dias

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 4 min

Douglas Reis
Corpo foi encontrado nessa quinta na região da Falcão; polícia acredita em execução por dívidas de droga

Os índices oficiais da criminalidade apontam que os primeiros seis meses deste ano em Bauru foram os mais tranquilos da última década. Mas tudo indica que essa realidade pode mudar neste segundo semestre. Com mais um homicídio na madrugada dessa quinta-feira (13), somente nos últimos 28 dias, a cidade registrou oito assassinatos, uma média de uma morte a cada três dias.

Para se ter uma ideia, o índice já se aproxima ao total de mortes contabilizado nos seis primeiros meses de 2015. Os oito assassinatos (veja mais no quadro abaixo) em menos de um mês se juntam à estatística da violência, que contempla outras 12 mortes registradas desde o início do ano.

O total de casos citados não inclui só os homicídios, mas também dois crimes de latrocínio e dois feminicídios.

A última morte foi descoberta na manhã dessa quinta, quando o corpo de um homem, ainda não identificado, mas que aparentava ter entre 25 e 30 anos, foi encontrado um terreno ao final da rua Bernardino de Campos, próximo a uma estrada de terra às margens do Rio Batalha, na região do Parque Viaduto.

Execução?

A polícia acredita que este último assassinato tenha ocorrido ao final da madrugada, por conta da rigidez cadavérica. A vítima vestia uma camiseta roxa e um shorts branco, estava caída de bruços e segurava um molho de chaves em uma das mãos. Ao lado do corpo, havia um par de chinelos e um pino de cocaína vazio, conforme informou o delegado plantonista Richard Serrano.

As marcas de pauladas nas costas e na testa dão a impressão de que houve uma sessão de tortura antes da morte. “Ele teve ossos da cabeça e da face fraturados”, comenta o delegado. Os dois tiros foram disparados pelas costas, na região da cabeça, e havia marcas de terra na roupa, como se a vítima tivesse sido arrastada.

Não foram achados documentos com o corpo. Por meio de uma tatuagem com a imagem de Jesus Cristo no braço direito, a Polícia Civil tentava reconhecimento do rapaz em seu sistema, mas não obteve êxito nessa quinta.

O corpo foi encaminhado ao IML para exame necroscópico. A principal tese até o momento é de que o rapaz tenha sido executado por conta de dívida envolvendo o tráfico de drogas. “Mas ainda não podemos afirmar nada porque não sabemos quem ele era”, frisa o delegado Kleber Granja, titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG). Até o final dessa quinta, ninguém havia sido preso.

Explosão de casos

Ao citar o caso acima e considerar o aumento no número de assassinatos, Kleber Granja lembra que, no primeiro semestre, Bauru viveu uma estagnação de casos. “Em janeiro foram três homicídios, em fevereiro também, em março não tivemos nenhum caso e só foi acontecer ao final de abril. Ou seja, passamos quase 60 dias sem um homicídio na cidade. Em maio, tivemos um, e em junho mais dois, totalizando dez homicídios”, contabiliza. “Essa sequência de crimes hediondos nesses últimos dias nos preocupou bastante, é atípica. A polícia está empenhada e se esforçando ao máximo para apurar”, completa o delegado.

Ele, porém, faz a ressalva de que assassinatos são crimes de difícil prevenção e, apesar da explosão de casos, destaca que não é possível dizer que seja uma tendência. “Não existe um parâmetro lógico para esse tipo de crime”.

Ao comparar Bauru com outras cidades de mesmo porte, Kleber Granja cita que a cidade tem números melhores e que, apesar do aumento, está dentro da média de casos preconizada pela Organização das Nações Unidas (ONU): acima de 10 mortes a cada 100 mil habitantes, a taxa de homicídios passa a ser considerada endêmica. “Os casos são inaceitáveis, mas, se formos comparar, temos bons índices. Em uma cidade com quase 400 mil habitantes, não passamos nem da metade do que é preconizado”, avalia o titular da DIG.

70% dos homicídios tiveram relação com o tráfico de drogas, diz polícia

A suspeita da polícia de que a morte dessa quinta tenha relação com o tráfico de drogas passa longe de ser um “palpite”. Além dos indícios que a investigação levanta sobre o caso, Kleber Granja ressalta que ao menos 70% do total de assassinatos que ocorreram desde o início deste ano tiveram relação com o comércio ou consumo de entorpecentes.

“É mais do que um problema policial. Bauru possui uma espécie de bolsão de usuários de crack, que não têm perspectiva nenhuma de tratamento. Hoje, ainda não vemos uma política pública efetiva de tratamento. Essas pessoas acabam ingressando na criminalidade para sustentar o vício”, comenta Kleber. Crimes cometidos por motivos passionais, por briga de família, por reflexo de defesa, por resistência policial e alguns que decorreram de negligência acarretaram os outros 30% dos assassinatos neste ano.