09 de julho de 2026
Articulistas

Domingo nas ruas

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Até o momento em que escrevia este artigo, nenhum observador político de peso havia concluído se a manifestação de hoje será a favor do impeachment de Dilma, da sua renúncia ou da união pela governabilidade do país. Aqui em Bauru, os organizadores daquilo que chamam de “MegaManifestação”, dizem que será contra a corrupção. Vamos ver o que acontece em pelo menos outras 200 cidades do país. Aqui, a passeata coincide com a “Caminhada da Família”, também marcada para este domingo, com saída da mesma av. Getúlio Vargas. O bispo da Diocese de Bauru, d. Caetano, apressou-se em esclarecer que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Houve apenas coincidência de datas. Apesar do caráter ecumênico, o encontro das famílias cristãs nada tem de político. Se é que defender a vida e a família possa estar livre da política, sob o ponto de vista aristotélico.


A presidente Dilma, ciente de que o homem (ou a mulher) é um animal político, fez de tudo, nos últimos dias para defender o seu mandato. Na tentativa de retomar parte do apoio do Congresso, deu até um abraço de afogado no presidente do Senado, Renan Calheiros. Sabe-se lá a que custo. Estava certa a presidente Dilma, quando disse na semana passada que ninguém lhe tira a legitimidade das urnas. Mas é bom lembrar que o país saiu dividido das eleições de 2014. A margem de votos obtida pela candidata Dilma foi pequena em relação ao adversário Aécio Neves. Hoje, 71% dos brasileiros que votam, rejeitam o seu governo. Esse resultado indica que muitos daqueles que a elegeram, estão arrependidos.


Segundo os analistas, a manifestação de hoje deve ser um golpe perfeitamente assimilável pelos petistas. O “twitômetro” (medidor de manifestações pelas redes sociais) indica um número menor de postagens (21 mil) do que nas antevésperas das manifestações de 15 de março (45 mil) . As mensagens atuais estão eivadas de apelos da militância. Diferente dos registros de junho de 2013, quando todos falavam e o foco principal era dirigido às tarifas do transporte coletivo. A situação, hoje, é mais complicada.

O Brasil atravessa três crises: política, econômica e ética. O mais grave é que acontecem ao mesmo tempo e se alimentam mutuamente. Acabou a euforia da era Lula, quando 30 milhões de pessoas saíram da pobreza e passaram a consumidores. O desemprego era pequeno e grande  o apoio popular. A conta sobrou para a sua sucessora. O Brasil sofre hoje de alta inflação, vê crescer o desemprego, tem taxas de juros muito altas, a dívida pública aumentou e o PIB está em recessão. O país empobreceu. O apoio assegurado pelos partidos da chamada “base aliada” se rompeu, na medida em que as prebendas escassearam. A presidente perdeu o apoio popular e o Judiciário vai fundo na sua investigação sobre os escândalos de corrupção, que não param de pipocar.


É improvável que desemboque em um impeachment, a pressão dos que exigem a saída de Dilma devido às suspeitas de ter financiado sua campanha eleitoral com dinheiro da corrupção. Mas a tensão é evidente. Muitas reformas têm que ser feitas para que o país retome o rumo do crescimento. Tanto na  área política, como no ajuste da economia. O povo, nas ruas, ainda espera a  punição dos culpados pela roubalheira. Os Jogos Olímpicos do Rio vão acontecer daqui a menos de um ano. Até lá as coisas terão que estar bem encaminhadas, para nos livrar do vexame de digerir escândalos perante milhares de visitantes.


Daí ser legítimo supor que o impeachment é a hipótese menos viável. Faltam fatos concretos para colocar Dilma no pelourinho. Segundo, porque este instrumento levaria o Brasil a uma crise ainda mais profunda.  Dilma já  aprendeu que  governabilidade significa ouvir e, principalmente, aceitar e ceder.  Não só às forças políticas, como também empresariais, sindicais e sociais. A manifestação de hoje deve reforçar a tendência da validade do presidencialismo de coalizão. “Nenhum homem é uma ilha” – dizia o poeta John Donne, há 384 anos. Todos nós fazemos parte do continente, que simboliza a mútua dependência capaz de nos levar mais facilmente a um mundo melhor.


O autor é jornalista e articulista do JC