“Cinquenta anos da sociedade de esperanto em Bauru”. A frase em esperanto no título desta matéria traduz o momento atual dos falantes do idioma na cidade. Em 2015, a Sociedade Bauruense de Esperanto completa meio século, revelando a história da aprendizagem da língua criada no século 19 para ser a facilitadora do contato entre os povos.
O esperanto surgiu em 1987, idealizada pelo médico polonês Ludwik Lejzer Zamenhof, utilizando como base palavras que já existiam em outras línguas. “O esperanto não veio para substituir nenhum idioma, mas para facilitar a comunicação entre diferentes povos. Ao longo da história, sempre houve uma língua dominante, por questões culturais e geopolíticas. Foi assim com o grego, o latim, depois o português e o espanhol na era das grandes navegações, o francês, e por último o inglês, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial. Mas nenhuma delas é uma língua neutra, pois sempre quem é nativo terá mais facilidade”, explica José Mauro Progiante, presidente da Sociedade Bauruense de Esperanto.
A entidade completou 50 anos no último mês de maio, e, por isso, 2015 é considerado o ano do esperanto em Bauru – antes de 1965, outros grupos já haviam estudado e promovido o idioma na cidade, mas a Sociedade atual surgiu naquele ano. A comemoração foi ontem, com os falantes da língua na cidade se reunindo. A Sociedade Bauruense de Esperanto possui uma sede fixa, onde acontecem aulas de nível básico e avançado (conversação), local em que também são encontrados livros, revistas e outras publicações do idioma.
Progiante afirma que uma pessoa que não conhece o esperanto aprende rapidamente. “É uma língua que tem muita lógica, a formação das palavras obedece a uma sequência gramatical. Por exemplo, não há verbos irregulares. Em poucos meses, alguém que não conhece nada pode falar bem em esperanto, e a leitura se aprende de forma rápida”, cita.
A forma como o esperanto foi criado explica a facilidade de ensino. “É uma língua que foi construída com base em palavras que já existiam. Mais de 60% dos radicais são latinos, mas existem palavras de outras origens, e pessoas de diferentes origens aprendem bem, tanto no Ocidente quanto no Oriente. Inclusive, países como a China usam o esperanto para fazer contatos comerciais, pois eles têm muito mais facilidade em aprender esperanto do que inglês, por exemplo”, exemplifica.
Opção NEUTRA
O presidente da Sociedade Bauruense de Esperanto reitera que o idioma não tem como objetivo eliminar outras línguas. “Pelo contrário, a intenção é que cada povo possa usar seu idioma, mas que tenham uma língua internacional de aprendizagem rápida e principalmente neutra, pois o esperanto não traz a carga cultural que línguas nativas possuem”, avalia.
Não há levantamentos precisos a respeito da quantidade de falantes no Brasil e no mundo, pois muitos não estão filiados a entidades como a de Bauru. “Aqui, nós temos cerca de 50 membros. Existe uma associação estadual e a Liga Brasileira de Esperanto, em Brasília, além de uma organização mundial que promove congressos inclusive”, comenta.
Estima-se, extraoficialmente, que cerca de 2 milhões de pessoas no mundo usem de maneira frequente o esperanto para se comunicar. “A Internet ajudou muito a divulgar o esperanto, pois existem agora muitos sites dedicados à língua. Antes, já existiam revistas e publicações impressas apenas em esperanto, e rádios que fazem programas no idioma, como em Pequim, na China, que tem uma emissora que dedica uma hora diária a um programa todo falado em esperanto”, diz Progiante. O leste europeu e países do Oriente como a própria China são onde o esperanto possui mais penetração. Na América, Estados Unidos e Brasil são considerados os países com mais adeptos. Ao todo, o esperanto usa 27 letras em seu alfabeto, e tem a mesma quantidade de verbetes (palavras) do que um idioma ‘comum’, como o inglês ou o português.
Falantes
A bancária aposentada Tiyoe Tsuyama, de 62 anos, conta que aprendeu o esperanto aos 25 anos de idade. “O meu pai veio do Japão e já sabia falar esperanto, mas eu fui aprender depois. Na época, ele achou estranho porque pouca gente falava a língua no Brasil, mas no Japão já era bem mais conhecida”, relata.
Quem também fala o esperanto com fluência é o cientista em computação Luciano Martinez y Martinez, que participa das aulas de conversação às quintas-feiras, na Sociedade Bauruense. “O esperanto é fácil de aprender. Tem pais que ensinam o esperanto para as crianças ainda pequenas, então existem falantes jovens, e outros que aprendem depois. Mas, pelo fato de não ser uma língua restrita a um povo, o nível de quem aprende a falar costuma ser mais parecido”, exemplifica.
Sem utopia
Com o inglês consolidado como língua global, o mandarim se fortalecendo por conta da economia chinesa e o espanhol crescendo e já ocupando o posto de terceiro idioma mais falado do mundo, há espaço para uma língua criada? Os defensores do esperanto garantem que sim.
José Mauro Progiante afirma que o esperanto não vai ocupar o lugar de outras línguas. “Ela é um idioma complementar, com o intuito realmente de facilitar a comunicação entre pessoas que falam línguas diferentes, e sem carregar um peso cultural que qualquer idioma nativo traz. Em poucos meses uma pessoa pode ser fluente em esperanto, e sem precisar naturalmente ir morar no Exterior, essa é outra vantagem”, menciona o presidente da Sociedade Bauruense de Esperanto.
“Aos poucos, o esperanto vem ganhando reconhecimento em diversas áreas. Na Hungria, por exemplo, ela é considerada uma língua acadêmica, ou seja, pode ser usada para trabalhos de mestrado, doutorado, como segundo idioma. Além disso, são milhares as publicações em esperanto, que aumentaram ainda mais com o crescimento da Internet. A gente acha que, no futuro, o esperanto pode sim ser uma excelente alternativa para o uso também no comércio, no contato entre os povos e até em congressos, justamente por não ter essa carga cultural”, define.
Quer aprender?
A Sociedade Bauruense de Esperanto oferece atualmente uma turma de ensino básico às sextas-feiras, às 18h, e uma nova turma para iniciantes será aberta aos sábados, no período da manhã (às 9h). Para quem está em estágio mais avançado, é mantida uma sala de conversação, às quintas-feiras à noite.
O curso básico dura em média seis meses e custa ao todo R$ 150,00. A Sociedade Bauruense de Esperanto mantém uma sede fixa no 17.º andar do Edifício Comercial (rua Batista de Carvalho, 4-33, Centro), e os contatos por telefone são o (14) 3011-2457 (diretamente na entidade) ou ainda o 98103-5090 (com o presidente José Mauro Progiante). As aulas e encontros são realizados na própria sede.