10 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Herança da Segunda Guerra Mundial


| Tempo de leitura: 4 min

Uma das datas mais controversas relacionadas ao último conflito mundial é a que ainda será comemorada em 31 de dezembro de 2015, que é o vencimento dos direitos autorais do livro panfleto de Adolf Hitler (1889-1945), Mein Kampf (Minha luta). Os direitos são controlados pelo Governo da Baviera (um dos dezesseis estados federais que compõe a República Federal da Alemanha), onde Hitler nasceu, que nunca autorizou oficialmente reedições do livro, somente de trechos para fins educativos. Mas qualquer turista que entrar nas livrarias de Berlim, principalmente de livros usados, poderá encontrar edições em alemão e inglês sem grande dificuldade. Na internet é possível baixar volumes em português de Portugal, espanhol, inglês, alemão, russo... O Instituto de História Contemporânea de Munique – Institut für Zeitgeschichte, IfZ – vem preparando uma edição crítica do livro desde 2010 e deve publicá-lo no próximo janeiro de 2016. A página em inglês pode ser visitada no seguinte endereço: http://www.ifz-muenchen.de/?id=550.

Mein Kampf na verdade é composto de dois livros, o primeiro escrito no período em que Hitler ficou preso, em 1924, depois da tentativa de um golpe de estado; este primeiro volume teve muita influência de seu desequilibrado aliado Rudolf Hess (1894-1987). Ele fala da biografia de Hitler e do início de sua carreira política dentro do Partido dos Trabalhadores Alemães - Deutsche Arbeiterpartei, DAP. O segundo volume foi publicado em 1926, tem como centro a sua teoria racial distorcida e abjeta e o programa do novo Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães – NSDAP - Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei.  Os direitos do livro tornaram Hitler um homem extremamente rico, depois de sua ascensão à Chancelaria da Alemanha, em 1933, um volume era data de presente em todo casamento e batizado, de arianos logicamente, e o presente era pago pela administração pública. Só em 1945 o livro vendeu 12 milhões de exemplares e tinha sido traduzido para 18 idiomas.

Estes números perturbadores devem ser conhecidos e sua razões investigadas, devemos lembrar inclusive que Adolf Hitler foi eleito o ‘Homem do Ano’, pela revista americana Time, em 1938, quando a existência dos campos de ‘refugiados’ e de guetos já vagavam pelos ares alemães. Este passado deve ser revisitado sem medo e esta edição do livro deve servir de exemplo para as novas gerações, de como a histeria, o messianismo e a loucura assaltam grupos inteiros em períodos de dificuldades.

A edição crítica do instituto intitulada Mein Kampf – eine kritische Edition tem duas mil páginas, contra as setecentas do original, pois faz um arrazoado das teorias e fatos enumerados por Hitler. Por exemplo: Hitler diz que os parlamentares do Reichstag não lutaram na frente de batalha na Primeira Guerra Mundial e ele sim; a nota esclarece que dois dos parlamentares da época lutaram e um deles, que era judeu e socialdemocrata, morreu em batalha. O diretor do projeto é Christian Hartmann trabalha com mais dois historiadores convidados e juntos são responsáveis pelas mais de três mil e quinhentas notas que a futura edição terá.  Ela será feita em dois volumes, cada um com mil páginas aproximadamente e custarão 160 euros. Muita polêmica já foi gerada pelo projeto e em janeiro do próximo ano podemos esperar por mais manifestações e discussões.

Finalizando, este ano de 2015 comemora várias datas que não devem e não podem ser esquecidas e os fatos que geraram tem que ser conhecidos pelas novas gerações cujos pais, avós, bisavós viveram ou presenciaram, mesmo que a distância. Sempre nos surpreendemos pela herança desta guerra, ainda hoje nazistas são levamos aos tribunais, como aconteceu com o contador do campo de concentração de Auschwitz Oskar Gröning, de 94 anos, em maio deste ano, que mesmo assumindo a culpa e se desculpando pelos crimes foi condenado a 4 anos de prisão. Como um exercício de memória necessário recomendo o filme estranho e eficiente dirigido por Paolo Sorrentini Aqui é o meu lugar (This Must be The Place, 2011), onde Sean Penn faz um roqueiro de meia idade, que depois de ficar mais de 30 anos rompido com o pai descobre que ele é atormentado pelo fantasma de seu torturador nazista, que vive impunimente nos Estados Unidos. E um pouco mais triste, o livro do jornalista Dieter Schlesak- Capesius, o farmacêutico de Auschwitz, que fala de Victor Capesius (1907-1985), que depois de mandar milhares para a câmara de gás, por meandros burocráticos/legais foi condenado a meros 9 anos de prisão, cumpriu somente 3 e morreu tranquila e impunemente. Memórias doloridas, pouco assimiláveis: Hitler, Auschwitz, Mein Kampf, Capesius fazem parte da cultura ocidental gostemos ou não.

 

 João Eduardo Hidalgo - Doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo e pela Universidad Complutense de Madrid. Professor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação Unesp, câmpus de Bauru.