08 de julho de 2026
Geral

Sinta-se em casa com Dona Helena

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Quioshi Goto
2015 - Nair Conti, Yvone Almeida, Helena Quialheiro Oliveira, Abigail Bolsonario e Zuleika Gadotti

Em um mundo em que as pessoas vivem ensimesmadas em seus tablets e smartphones, encontrar quem valorize a importância da amizade – e de uma boa prosa – com quem está ali, logo ao lado, é cada vez mais raro. E é por isso que a aposentada Helena Quialheiro de Oliveira, 78 anos, pode ser considerada uma verdadeira guardiã do Dia do Vizinho, cuja data é comemorada hoje.

O semblante sereno, a fala mansa e a conversa fácil de dona Helena fizeram com que ela cultivasse amizades com a vizinhança em todos os lugares por onde passou. 

Ontem, já para celebrar o Dia do Vizinho, ela reuniu em seu apartamento pessoas que conheceu há décadas, ainda quando vivia na rua Benjamin Constant, no bairro Higienópolis; outras de quem se aproximou quando mudou-se para um prédio no mesmo bairro; e até mesmo uma que apenas conheceu no edifício onde passou a morar há apenas dois meses, no Centro.

“Em tão pouco tempo, já fiz três amizades aqui, mas é que duas não puderam vir”, faz questão de explicar, enquanto serve chá de maçã e canela, bolachinhas de nata e bolo caseiro para as amigas e para a equipe de reportagem do Jornal da Cidade. 

Preservando

 

Entre um gole e outro na xícara, Dona Helena conta que sempre teve disposição para conhecer gente nova e que o hábito de estreitar relacionamentos com os vizinhos é uma forma de cuidar do outro e, ao mesmo tempo, sentir-se cuidada. 

“Eu também preservo muito as amizades com os vizinhos antigos. Dá saudade desta relação quando a gente muda de lugar, daquele hábito de comprar alguma coisa na feira e levar um pouco para a vizinha, de tomar um café, de dar bom dia quando encontra. Eu ainda sou do tempo antigo”, observa.

Café e chá

 

Fã dos livros da escritora Cora Coralina, que também valorizava a amizade entre vizinhos em suas poesias, Helena decidiu fazer a primeira festa para comemorar a data em 1996, ainda na Benjamin Constant, onde viveu por mais de três décadas. 

Na época, ela lembra, as confraternizações eram realizadas na calçada e reuniam dezenas de pessoas. 

“Cada um levava um prato e sentava à mesa para conversar. O chá e o café, servidos com xícara e pires, sempre fizeram parte da tradição e também não podiam faltar”, destaca. 

Houve alguns anos, contudo, em que o encontro não foi realizado – devido à morte de parentes de alguma das amigas ou porque alguém estava doente. 

“Nessas horas, a gente perdia o pique e não fazia em respeito mesmo à amizade”, acrescenta.

Compartilhar

 

Ao longo dos anos, a aposentada conta que o perfil da festa foi mudando, até porque, há oito anos, ela passou a viver em apartamento. 

“Paramos de fazer na rua e a festa ficou um pouco menor. Mas até mesmo as amigas antigas continuaram participando”, comenta.

É o caso de Zuleika Ferraz Gadotti, 79 anos, amiga de Helena há mais 30. 

Ela comparece aos encontros em comemoração ao Dia do Vizinho desde as primeiras edições e, ontem, fez questão de estar presente em mais um. “É sempre gratificante poder compartilhar deste momento. A Helena tem um coração enorme e é muito bom ter a amizade dela. Ela gosta de convivência e sabe se doar para que isso aconteça. O que nos une é o amor”, completa a amiga.

Vale observar que, em algumas regiões, o Dia do Vizinho também é festejado em 23 de agosto.

História de um apreço

O Dia do Vizinho foi criado há mais de 30 anos em homenagem à poetisa Ana Lins de Guimarães Peixoto Bretas, a Cora Coralina, na cidade de Goiás (GO). A ideia surgiu devido ao apreço que a escritora tinha pelos vizinhos. Após eles insistirem em festejar o seu aniversário, também comemorado hoje, Coralina teria pedido que, em vez de uma festa para ela, celebrassem os vizinhos. A poetisa começou a escrever aos 14 anos e fez dezenas de livros. Destacam “Estórias da Casa Velha da Ponte”, “Meu Livro de Cordel”, e o livro infantil “Meninos Verdes”. A autora morreu em Goiás, em 10 de abril de 1985, aos 96 anos. A nora de Coralina, Nize Garcia Bretas, morou em Bauru por muitos anos e participou da organização de algumas festas do vizinho, no Jardim Higienópolis. Em 2006, ela mudou-se para a cidade de Balneário Camboriú (SC).