Estudo divulgado pelo Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (Crosp) detectou que 27% das amostras de água em Bauru contêm níveis inadequados de flúor. Significa que, de cada dez amostras analisadas, quase três representavam algum risco para a população.
Divulgada na semana passada, a pesquisa, realizada em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), abrangeu 632 dos 645 municípios paulistas e é considerada o mais amplo levantamento já realizado no mundo sobre fluoretação das águas. No Estado, a inadequação média das amostras foi de 28,5%, muito próxima à de Bauru.
No município, das 156 amostras de água coletadas em torneiras de imóveis nos mais diversos bairros, 42 foram consideradas inadequadas. Destas, 24 apresentavam excesso de concentração de flúor e 18 estavam abaixo dos níveis preconizados pela Secretaria de Estado da Saúde.
Presidente do Crosp, Cláudio Miyake destaca que a correta quantidade da substância aplicada na água é fundamental para prevenir a formação de cáries. “Teores de flúor baixos não reduzem cárie. Teores altos, por sua vez, são igualmente prejudiciais, podendo levar a uma fluorose”, observa, referindo-se à doença que provoca manchas esbranquiçadas e porosidade nas camadas mais externas dos dentes.
A conclusão da pesquisa tem como base o parâmetro adotado pela Secretaria de Estado da Saúde, que considera adequadas concentrações entre 0,6 e 0,8 miligrama de flúor por litro de água (mg/l). O estudo, contudo, também classifica a qualidade das águas de acordo com outro padrão – mais recente e rigoroso, desenvolvido pelo Centro Colaborador do Ministério da Saúde em Vigilância da Saúde Bucal, vinculado à USP.
Neste parâmetro, a água com menos de 0,4 mg/l é considerada sem qualquer benefício anticárie e a com concentração acima de 1,4 mg/l, valor máximo permitido pelo Ministério da Saúde, como de alto risco para a fluorose. Em Bauru, oito amostras ficaram fora do intervalo considerado aceitável. Em uma delas, o nível de flúor chegou a 3,314 mg/l. Em outra, a 0,273 mg/l.
Consumo seguro
Vale destacar, contudo, que as 54 torneiras que forneceram as amostras foram visitadas em três ocasiões, entre agosto e novembro do ano passado, e nenhuma apresentou níveis críticos por mais de uma vez. Se considerado o padrão da secretaria, contudo, três pontos foram classificados como inadequados nas três amostragens de água e 26 deles em pelo menos uma ocasião.
Mesmo diante das irregularidades, o secretário do Crosp, Marco Antonio Manfredini, salienta que a recomendação do conselho é para que a população continue consumindo água de abastecimento público. De acordo com ele, os resultados de Bauru não são os mais preocupantes, já que a esmagadora maioria dos pontos de coleta não apresentou problemas de maneira persistente.
“A água fluoretada traz benefícios comprovados. As faixas extremas (abaixo de 0,4 mg/l e acima de 1,4mg/l) são as que mais nos preocupam e, em Bauru, elas não se repetiram em um mesmo ponto. Por este motivo, acreditamos que sejam resultado de uma variação operacional do sistema”, considera.
Mas, de qualquer maneira, segundo Manfredini, os resultados negativos serão comunicados por ofício aos órgãos de saneamento básico de todas as cidades pesquisadas, inclusive Bauru. “O objetivo é orientar e solicitar para que façam as adequações necessárias”, completa.
DAE: variação é mais frequente nos poços
Segundo o Departamento de Água e Esgoto (DAE), embora não sejam ideais, variações na concentração de flúor são esperadas em um sistema tão complexo e extenso. E a água oriunda de poços é a mais suscetível a apresentar problemas, conforme explica o diretor da Divisão de Produção e Reservação da autarquia, Heber Soares Vieira.
De acordo com ele, cada poço é dotado de uma bomba dosadora de flúor e cloro, que injeta os produtos de acordo com a vazão de água. “Estas bombinhas são pré-configuradas de acordo com a vazão esperada para cada poço. Mas oscilações na rede de energia, que são frequentes, podem diminuir ou aumentar momentaneamente a pressão da água e o volume de flúor continuará o mesmo, o que vai provocar o aumento da concentração da substância”, detalha.
Vieira garante, contudo, que a análise de fluoretação da água é feita diariamente em 260 pontos distintos da cidade, o que permite corrigir, de maneira rápida, a dosagem de flúor em cada poço que apresentar irregularidades. “Nunca tivemos resultados acima de 1 miligrama de flúor por litro de água (mg/l). Os resultados mais baixos chegam a 0,4 mg/l”, assegura.
Já no Rio Batalha, que abastece 38% da população de Bauru, o flúor é injetado diretamente na Estação de Tratamento de Esgoto (ETA), o que permite, segundo o diretor, um controle mais efetivo da concentração da substância.
O estudo
O estudo contou com a participação de cerca de 50 fiscais do Crosp. que identificaram, em quase um ano de trabalho, as localidades, suas fontes de abastecimento e os pontos para a coleta das amostras. O Centro Colaborador do Ministério da Saúde em Vigilância da Saúde Bucal, vinculado à USP, respondeu pela metodologia empregada e a Faculdade de Odontologia de Piracicaba, da Unicamp, pelas análises laboratoriais.
Segundo o conselho, esta é a primeira vez que um levantamento deste porte é realizado no mundo - um censo da fluoretação da água abrangendo uma população de 45 milhões de pessoas. Não há, contudo, previsão para que um estudo semelhante volte a ser realizado. No Brasil, as análises, até então, eram restritas apenas aos municípios com mais de 50 mil habitantes, o que contemplava pouco mais de 100 localidades paulistas, levando à exclusão de cerca de 85% das cidades.
Importância
O flúor vem sendo utilizado no mundo há 60 anos e é recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), pela Organização Pan-Americana de Saúde e pelo Ministério da Saúde. Segundo o Crosp, nas últimas quatro décadas, os níveis de cárie dentária registraram um declínio importante no Estado de São Paulo, principalmente em crianças.
Entre as medidas de prevenção responsáveis pela melhora da situação, estão os cremes dentais fluoretados e a fluoretação das águas.
Ainda de acordo com o conselho, antes da adição de flúor às pastas de dente e à água, uma criança de 12 anos de idade tinha, em média, oito dentes atingidos por cáries. Atualmente, esse número não ultrapassa dois dentes.