08 de julho de 2026
Geral

Alerta: o mal que entra pela boca

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 4 min

 

Sendo hipocondríaco ou não, você sabe qual é o medicamento mais vendido nas farmácias no Brasil? Dê uma olhada na tabela. Muitos podem achar surpresa a liderança estar com o descongestionante nasal nas “vendas em farmácias”. Mas no meio profissional a explicação é outra.

Para a endocrinologista Telma Gobbi, a “corrente humana” faz a “fama dos remédios. A comadre conta pra outra pessoa e outro conta pra outro”. Mas ela não vê surpresa no Rinosoro, ou Neosoro. “É só um soro fisiológico. E muito utilizado pelas crianças. Já o Neosoro é muito mais utilizado entre adultos e não só crianças. Porque ele tem o vaso constritor e gera alívio imediato, diminuindo o edema”, conta.

Porém, como tudo, há inconveniente. “Com o uso prolongado você altera a parede do vaso e gera problema. A ideia é não usar em excesso. Eu brinco que água mata se você usar em excesso. Falando de remédio, o uso prolongado gera contraindicações. Tudo o que é exagero faz mal”, comenta Gobbi.

Na segunda posição dos “mais vendidos nas farmácias” está o remédio para patologias de tireoide. “O Puran T4 certamente está sendo utilizado em demasia por quem nem tem problema com a tireóide. O sal do Puran tem uma questão distinta sobre os outros quatro medicamentos desse gênero.

Ele faz parte da medicação fornecida pela rede pública. E como é subsidiado pelo governo, tem um boom. Mas infelizmente quem quer perder peso infelizmente vai no Puran. Mas a aceleração da taxa de metabolismo aqui é conquistada a custas de sobredosar a taxa de hormônio. E isso gera irritabilidade, taquicardia em quem está tomando em excesso”, adverte a médica.

Corpo humano
A endocrinologista lembra que o corpo humano tem uma capacidade de absorção e de eliminação. “É a febre dos suplementos nas academias. A pessoa faz xixi e elimina a maior parte do excesso na urina, porque não é atleta de alta performance e tem um gasto metabólico baixo. O cidadão do dia a dia sobrecarrega o organismo e o fabricante agradece”, opina.

Da lista dos medicamentos mais vendidos nas farmácias no Brasil, Telma Gobbi vê ‘naturalidade’ apenas no consumo do Salonpas e do Hipoglós e, ainda assim, com algumas advertências. “O Salonpas alivia na hora, mas não resolve. Dá um alívio, funciona na hora só. E a pomada do Hipoglós previne assadura, então as mães usam preventivamente, lambuzam e nem precisa tanto”, menciona.

Quer um dado curioso da lista do top medicamentos nas vendas em drogarias? Os comprimidinhos azuis são líderes de venda às sextas-feiras. “Os homens fazem o Viagra liderar a vendas às sextas-feiras, para disfunção erétil”, conta Telma.    

A lista dos 10 medicamentos mais vendidos no País engorda o caixa das poderosas marcas da indústria farmacêutica. De acordo com a IMS Health, consultoria especializada em dados da área de saúde, o descongestionante nasal Neosoro foi o medicamento mais vendido em número de unidades.

Mas se for considerado o faturamento global, o que mais arrecadou para as marcas foi o Dorflex, seguido do Torsilax (analgésico e anti-inflamatório) e a Neosaldina (analgésico). Só para exemplificar, a Neosaldina, indicada para dores de cabeça, rendeu R$ 216 milhões para o Laboratório Takeda. E isso com dados de 2012.


Grande parte do uso de remédios é ligada a sedentarismo e obesidade

A lista dos 10 medicamentos mais distribuídos na Farmácia Popular revela o repertório de maus hábitos de muitos bauruenses, assim como acontece em outras localidades. Ansiedade, stress em alta e sedentarismo formam a base das causas para avaliar a lista.

“Veja que o primeiro, o sexto, sétimo e oitavo lugares da lista de mais distribuídos são de hipertensivos com princípios ativos distintos. O segundo da lista é para diabetes e o quarto para baixar o colesterol. Todos esses estão ligados a maus hábitos do cidadão”, salienta o médico.

Mas o que mais preocupa ao profissional de saúde é a motivação para o hábito. “Preocupa que a aparente prevenção, o cuidar da saúde, está escondida atrás do comprimido. Achar que o remédio está e vai resolver tudo, quando o que resolve é o controle e os hábitos, é muito preocupante”, diz.

O mapa da Farmácia Popular, na visão do médico Pedro Luiz Pereira, comprova as duas primeiras causas de mortalidade nacional, o que se repete em Bauru: obesidade e sedentarismo. “As pessoas não estão só se cuidando mal, estão achando que tomando o remédio está tudo resolvido. Mas o problema é que esta prevenção não resolve em si. As pessoas precisam deixar de ser sedentárias, precisam fazer atividade física rotineira, permanente, e precisam dormir e comer bem. Mesmo assim, também precisam cuidar da ansiedade e do stress, das preocupações acumuladas”, insiste.

Ou seja, “está absolutamente errada a prevenção com remédios”. Isso porque o controle de distribuição municipal indica que, sob a “muleta” da prevenção, as pessoas estão medicalizando o cotidiano. “A lista apenas confirma maus hábitos e reforça que se as pessoas apenas se cuidassem melhor, no dia a dia, a despesa com esse programa seria muito menor e a vida dessas pessoas seria muito melhor”, finaliza.