Vinte e dois de abril de mil e quinhentos: Pedro Álvares Cabral, caravelas, primeira missa, índios pelados e espelhinhos de prata são os elementos históricos que nos foram ensinados no colégio acerca do dito “descobrimento do Brasil”. A visão européia criou a idéia do nativo americano como primitivo e acomodado e transformou o exato momento em que os portugueses chegaram às terras ditas “brasileiras” como o marco inicial de qualquer forma de pensamento inteligente no sul do Novo Mundo. Através da imposição de idéias e dogmas, a cultura do conquistador foi se expandindo, esmagando qualquer outra que pudesse ameaçá-la. Sua cândida figura permaneceu na liderança das casas grandes, nas catedrais suntuosas, nos ritos pomposos e nos palácios governamentais que aqui se instalaram sob o discurso de uma minoria mandona, que ainda dita suas regras para um mentiroso “bem comum” da população.
Porém, destemidos homens e mulheres da nossa saudosa história não se entregaram aos mandos e desmandos de seus feitores – mesmo que o preço para tal pudesse ser pago com a própria vida. Esses isolados guerreiros continuaram a cultuar suas divindades originais em ritos sincréticos, incorporaram à linguagem do dominador elementos de seus dialetos nativos, colocaram a feijoada e a mandioca na mesa do senhorzinho, que, sem reclamar, lambuzou-se de tais iguarias durante séculos.
Essa resistência e determinação enfrentaram, com muito sangue e suor, covardes segregações e lutas desiguais. Darcy Ribeiro (1922-1997), em sua célebre obra “O povo Brasileiro” (1995), desfez o mito da integração cultural pacífica, ou seja, caíram por terra velhos preceitos históricos a qual acreditamos por tanto tempo. Atualmente, negros, mulheres, indígenas e demais minorias subordinadas às opiniões maldosas dessa elite, mesmo sofrendo com a imposição de regras arcaicas e modelos sociais importados, devem continuar segurando, com firmeza, o açoite que treme nas mãos do carrasco e declarar, com muita coragem: “- Não! Essa história quem escreverá sou eu!”.
Lucas Dias - Geógrafo,
pesquisador e aluno da Unesp