08 de julho de 2026
Articulistas

Saudável rebeldia

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

                             

Escola é lugar de desaprender. O bom professor sabe disso. Escola é lugar de desconstruir. Todo educador consciente tem certeza disso. Tudo por uma razão bem simples: escola é lugar de pensar. E o professor  que pensa  e debate com seus alunos  vai  ter que jogar na mesa da  discussão uma avalanche de mentiras que até então pareciam verdades. Hora de ensinar o aluno a aprender a desaprender. 

 Ainda que ninguém nos diga tais mentiras clara e diretamente, o que está no ar contamina. Cada “verdade” esconde sob a pele dissimulada os seus reais interesses. Há muito preconceito e  intolerância nas gavetas trancadas. O caldo sujo entra-nos pelos olhos, ouvidos, alicia-nos a  cabeça. Há um discurso da solidariedade, mas  somos engolidos pela bolha do individualismo. Outro discurso  fala enfaticamente da igualdade, mas nossas pernas querem, a qualquer custo, o andar  de cima. “Sem distinção de raça, credo e sexo”, assim dizemos sempre, assim sempre escrevemos, assim, contudo, não  vivemos. Tudo  se resolve na sala de jantar com um discurso limpo, ético e bem arrumado. Palavras sempre elas, palavras... Aprendemos, enfim, que o baile é de  máscaras e só assim se pode dançar.  

Exatamente por isso, a escola  precisa ensinar o aluno a desaprender. Sem rebeldia e  desconfiança, impossível ler  as contradições protegidas pelas sombras. Sem questionamento, não escapamos da massa dos interesses escusos que nos aguardam, sorrateiramente, em cada esquina. Não queremos  o aluno das melhores notas,  o aluno dócil, mas passivo; nada se ganha com papagaios, ecos reprodutores de tantas mentiras. Interessa-nos o aluno que pensa e contesta, mas que saiba por que  o faz. Que  perceba que a conta não fecha, que as peças do quebra-cabeça não se ajustam, que o peso na balança  não confere.  Um aluno cujo pensamento  seja sua arma de defesa,  sempre pronto a dizer não, não vou por aí. 

Não consigo pensar uma educação que não seja revolucionária.  Mas isso  não significa defender mensagens subversivas ou fomentar   luta de classes. Também nada tem a ver com  ser radicalmente do  contra. Sua rebeldia é a do pensamento questionador que coloca  em dúvida  os enfáticos discursos do poder, sempre transbordantes de certezas.  Sua rebeldia é a de combater a inutilidade das escolas que só se comprometem com conteúdos curriculares. Escolas que  só ensinam estratégias do vestibular para quem quer se dar bem na vida. A boa educação, a boa escola, o bom professor, os bons alunos   são agentes da tão esperada revolução, militantes do sonho  ( por que não?) de um mundo melhor. Nada se muda senão pelo pensamento.  Daí, desaprender é preciso. 

De forma magistral, o poeta português Miguel Torga disse: “Canta, poeta, canta! Violenta o silêncio conformado. Cega com outra luz a luz do dia. Desassossega o mundo sossegado. Ensina a cada alma  a sua rebeldia.” Parafraseando o poeta, já passou  a hora de dizermos: cantemos nós, professores, violentemos o silêncio conformado. Ensinemos a cada aluno a saudável rebeldia.

 

O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras - ABL