Se não bastassem os problemas internos, agora o Brasil sofre, e muito, com os problemas na economia chinesa. O fato é que a China chegou a crescer 13% há oitos e manteve um ritmo de crescimento acima de 10% até o ano passado. Para 2015 a previsão é de crescimento na ordem de 7%, abaixo do projetado pelo mercado. Se pensássemos em uma bolha, poderíamos dizer que ela cresceu muito e começou a estourar, podendo gerar uma avalanche em níveis internacionais.
O crescimento menor chinês vem da mudança de estratégia do governo daquele país: de uma economia predominantemente exportadora, para a valorização do mercado interno. Esta estratégia não surtiu o efeito desejado e a saída do governo chinês foi desvalorizar o Yuan (moeda chinesa) frente às moedas estrangeiras, tentando resgatar as vendas no mercado internacional. Esta decisão gerou nervosismo internacional, tendo como consequência forte queda no mercado acionário daquele país. Mesmo sendo considerado um ajuste necessário, posto que a valorização da média das ações atingiu 150% em dólar, o tamanho da queda foi muito expressivo.
A realidade dura e crua é que o crescimento não voltará ao patamar de 10% ao ano e isso mexe com os países vendedores de commodities para a China, como é o caso do Brasil. Haverá menor demanda por petróleo, minério de ferro, açúcar, soja, entre outros. Todos devem se recordar que a crise americana e depois a europeia deslocou boa parte das exportações para a China, gerou o que podemos denominar de “dependência” da economia chinesa. Quando ela não vai bem, abala os envolvidos.
Não poderia ser em momento mais inoportuno para o Brasil. Os indicadores econômicos estão deteriorados. O país entrou em recessão técnica (pelo menos dois trimestres seguidos de queda no Produto Interno Bruto), a inflação desgarrou, atingindo 9,65% nos últimos doze meses, o dólar disparou, o desemprego atingiu 8,3% da população economicamente ativa e o resultado das contas públicas tem o pior déficit desde 2002, entre outros indicadores.
Para agravar ainda mais a situação a crise política continua atormentando a nação. Os recursos utilizados na campanha presidencial do PT estão sendo investigados, podendo atingir a presidente Dilma Rousseff, isso sem falar das pedaladas fiscais com indício de não cumprimento da legislação vigente e, para completar o cenário caótico da política brasileira, o governo perde o seu articulador político, o vice-presidente Michel Temer.
Tudo que o Brasil não precisa é ter que enfrentar mais uma crise vinda do exterior. O nervosismo, como colocado, potencializado pela fragilidade da economia brasileira, trás reflexos negativos aos mercados acionário e cambial, gerando ainda mais incertezas internas, exigindo mais rigor no controle monetário, inclusive com possível nova elevação dos juros internos (para segurar a saída de dólar aumentam-se os juros que remuneram os títulos públicos brasileiros e para conter a inflação importada, segura ainda mais a demanda interna), engessando ainda mais a já engessada economia. Como diriam os narradores de futebol: que fase!
Não resta outro caminho a não ser ter calma, aguardando a poeira baixar e ficar na torcida para que a atual equipe econômica entenda a real dimensão deste problema, não tratando esta crise como “marolinha” como foi no passado e que infelizmente nos trouxe para este delicado momento. O governo terá que ser estrategista, coisa que não praticou nestes últimos anos.
O autor é economista e articulista do JC